Livro está sendo publicado por capitulos no www.wattpad.com acesse esse site e leia todos os capitulos, gratuitamente
Tasso Franco , Salvador |
26/09/2026 às 10:12
Aquarela de Seramov
Foto: SERAMOV
16
O PARAISO DOS CÃES VADIOS
Com a ponta da pá em formato de concha sustentada num cabo torto de madeira resistente o gari Jolivaldo Silva Souza recolhia uma ruma de coco, supunha, de um "caramelo" cão vadio que ressonava de olhos fechados deitado ao pé do pedestal de cimento que abriga a placa indicativa da Praça Amigos da Marinha, situada no Porto da Barra.
Jolivaldo parecia de tez irada, pois, conhecia aquele velho cão sonolento e cagão ao longo dos anos e era pura suposição de sua cabeça que aquele coco pudesse ser de "caramelo". Ao lado dele também dormiam três outros cães vadios.
Aquela situação de limpar constantemente cocos de cães em seu roteiro traçado pela LIMPEA estava ficando insustentável para o seu humor.
Tornara-se uma rotina no seu dia-a-dia laboral e parecia-lhe num crescendo a quantidade de cães vadios no entorno do calçadão da Praia do Porto da Barra, no larguinho onde se situa a estátua do Marques de Leão, na Rua Barão de Itapoan e na Avenida Princesa Isabel. Questionou a si mesmo com certo sentimento de indignação a ação prática de sua profissão que é, no fulcro, a limpeza da cidade, qual o significado de ser gari, como a sociedade via a sua categoria, enxergava à sua atividade e o valor dos serviços que prestava.
Tudo isso mexia com a sua cabeça. O fato de recolher coco de humanos e animais nas ruas e praças, entendia que, eventualmente poderia ser uma tarefa, mas virar rotina, não admitia.
Tanto os humanos; quanto os animais são educados para obrar em áreas reservadas. Os cães vadios – como o próprio nome sugere não têm donos – e quando os tem são moradores em situação de rua com baixa educação, o que torna aos seus olhos uma situação mais complexa e impossível de ser resolvida. Ora, quem seriam os donos daqueles cães vadios dorminhocos e cagões da Praça Amigos da Marinha!
Sabia, no entanto, que a missão de educar os cidadãos cabe ao Estado, ao governo, porém, já era adulto suficiente para ver que os anos se passavam e a pobreza só aumentava, o analfabetismo era crescente, a falta de educação também crescia e ele, um modesto gari fazia a sua parte: Era decente, educado, e nunca intencionou ser político nem gestor público. Não consertaria o mundo nem ele; nem outro que assim quisesse. A humanidade estava repleta de sonhadores e socialistas de botequins, a maioria encangados nos governos. Revolucionários de araque.
Resolveu, então, tomar uma cerveja no Bar das Putas situado em frente ao Forte de Santa Maria para relaxar. Seu horário de trabalho havia sido concluído, às 13 horas, carga de 8 horas corridas das 6 horas às 14 horas com descanso de 60 minutos, retirou o macacão da LIMPEA colocando-o dobrado numa bag donde pegou bermuda e camisa com a inscrição Fé em letras grandes no peitoral.
Em seguida, colocou a pá, o ancinho, a vassoura e sacos de lixo vazios num carrinho de mão que os levaria até o depósito da empresa na Afonso Celso, encostou-se no canto de uma loja que vende assaí, a Doce Gelato, tal como fazem os elefantes nas árvores para se coçarem, retirou as botas e as meias, as quais também as colocou no carrinho, calçou uma sandália havaiana e mirou uma mesa de rua posta na Avenida Sete - área com sombreiro do Bar das Putas - para tomar a gelada, quando toca-lhe no ombro o barbeiro Sinval Cruz Credo que deixara sua tenda na Avenida Marques de Caravelas e se dirigia ao almoço no Tropicália da Barão de Itapoan, com o fito de rangar.
- Que alegria vê-lo dessa maneira sem a farda da LIMPEA a contemplar o mar - comentou Sinval.
- A alegria é toda minha. Estava me preparando para tomar uma cerveja. O calor está demais e preciso também dar uma relaxada.
- Não seja por isso. Posso lhe acompanhar? - inquiriu Cruz Credo.
- Será um prazer ter o amigo no Bar das Putas que tem esse sugestivo nome, porém, é familiar. Como sei que és crente faço esse adendo para evitar mal entendido.
- A igreja é a igreja, o bar é o bar. Não misturo as coisas e sei me comportar nos lugares. Bebo pouco ou quase nada. O convite do amigo me obriga a tomar um gole.
Sentaram-se observando o vai e vem de pessoas que iam a praia, o passar de veículos e dos ônibus coletivos, os ambulantes de toda natureza a venderem de óculos escuros com marcas clonadas das grandes grifes a caipiroscas e pastéis de queijo.
.
- Ei! Gonçalo, meu chapa, queremos uma cerveja cu de foca, disse Silva Souza ao garçom.
- Em instante meu nobre. Temos uma moela de galinha para tira-gosto espetacular - propagandeou Gonçalo abrindo a cerveja posta sobre a mesa.
Os dois começaram a beber para apenas um ou dois tragos. A tarde avançava aos poucos preguiçosa.
Sinval era um homem espirituoso, alto, magro, com nariz avermelhado possivelmente de tanto espirrar diante do frequente uso de rapé, e nosso personagem o gari Jolivaldo – como dizem as mulheres mais exigentes – não é de se jogar fora. O mulato – como gosta de ser chamado – tem seu charme, seu corpo atlético, mãos grandes, diria másculo e rústico, e sem a farda, sem o macacão, se mostra ainda mais sensual.
A conversa fluía bem e Cruz Credo disse que a demora seria pouca. Tinha um cliente agendado para às 15 horas, um descendente de italiano chamado Paolo e compromisso era compromisso chegaria no horário agendado para o corte do cabelo e o traço na barba.
Jolivaldo, então, expôs as suas angustias o ser ou não ser shakespeareano – na verdade nunca ouvira falar do dramaturgo William Shakespeare- mas o ser citado entendido no sentido de valor, de dedicação no laborar -deixar a cidade a mais bela possível - e estava angustiado – confessou a Cruz Credo – de ter que limpar cocos.
- Ora, meu caro, isso me parece ser de menos porque ninguém consegue dar um jeito em Salvadores, desde Thomé de Souza mija-se nas suas ruas, caga-se em cada esquina, fode-se nos becos à céu aberto, oficinas de veículos usam as ruas. Não tem esse que resolva.
- É, parece que todo mundo se acha dono da cidade. Disse-me a senhora Aurora, uma destacada educadora, que é também uma renomada ativista das causas de ordenamento desta cidade, residente na Rua Frederico Scmidt, que um poeta chamado Gregório de Mattos era um crítico destemido no século XVII tratava Salvadores como uma cidade doente, afundada em corrupção, hipocrisia e decadência econômica. Por meio de sua poesia satírica — foi apelidado de “Boca do Inferno” —, preso e exilado.
- Bem, diria, que depois de tantos séculos não mudou muita coisa. A cada dia vemos no Massa corruptos sendo presos e logo depois soltos e as facções criminosas se espalharam pela cidade.
- Isso mesmo. O poeta barroco do século XVII não poupava ninguém e preguei um verso de um dos seus poemas mais famosos em nossa barbearia. E se me permite como sei de cor e salteado vou recitar para o amigo.:
A cada canto um grande conselheiro/
Que.nos quer governar cabana e vinha;/
Não sabem governar sua cozinha/,
E podem governar o mundo inteiro.
- Bravo – aplaudiu Jolivaldo pedindo uma cópia do verso.
O ponteiro do relógio do barbeiro se aproximava das 15 h. Satisfeito com a conversa e as três geladas que tomaram e mais um tira-gosto reforçado de moelas, quase um almo, disse que partia para atender o italiano e Jolivaldo também se levantou para ir embora.
Seguiram juntos até a porta da barbearia na Marques de Caravelas, Cruz Credo deu uma cópia do verso poético ao gari e este seguiu para a Afonso Celso onde deixou o carrinho de mão da LIMPEA com os apetrechos num canto do depósito da empresa, saboreou seu farnel que dona Rosa havia preparado para ele com macarrão, feijão e asas de frango assadas, despediu-se dos colegas e foi até as imediações do Barra Shopping onde pegou o buzú para Cajazeiras XI, onde reside.
No caminho de casa foi lendo o verso que lhe dera o barbeiro e decorando o escrito. Não se lembrava dos cães vadios, dos cocos e do mar da Barra procurando entender o que significava cabana e vinha.