Cultura

MÁRIO NELSON PUBLICA O MERCADO DA SETE PORTAS E TAURINO ARAUJO

Ensaio sobre Taurino Araújo percorre poesia, pensamento, Direito, crítica, construção cultural e arte para identificar, em quase cinco décadas de trajetória, diferentes manifestações de uma mesma vocação intelectual.
Da Redação ,  Salvador | 25/09/2026 às 19:20
Nelson Carvalho
Foto: DIV
    O economista, afroempreendedor, consultor empresarial, conselheiro fundador da Universidade Zumbi dos Palmares/AfroBras, em São Paulo, e ativista do Movimento Negro Mário Nelson Carvalho acaba de publicar Taurino Araújo — O Mercado das Sete Portas: Sete caminhos de uma eloquente vocação genuinamente brasileira, estudo biográfico e crítico dedicado à multitrajetória do jurista, poeta, pensador, ensaísta, crítico literário, artista visual, professor e pesquisador baiano.

  A partir da imagem do tradicional Mercado das Sete Portas, em Salvador, Mário Nelson Carvalho organiza o estudo em sete dimensões: poesia, pensamento, Direito e democracia, crítica, construção cultural, arte e convergência. Mais
do que uma estrutura expositiva, entretanto, as sete portas constituem a hipótese central do ensaio: atividades aparentemente dispersas podem revelar, quando observadas em sua duração, a permanência de um mesmo procedimento intelectual, criativo e cultural.

  É por isso que a última porta — Convergência —ocupa posição decisiva. Segundo Carvalho, ela“ não acrescenta uma oitava atividade”. Ao contrário, contém as seis anteriores. A poesia pensa; o pensamento interroga o Direito; o Direito encontra a vida pública; a crítica devolvepensamento à criação; a construção cultural transforma pensamento em encontro; e a arte torna visível, na matéria, um procedimento que atravessa as demais linguagens.

  Da palavra à matéria

  A primeira porta é a poesia. O estudo acompanha uma produção desenvolvida ao longo de mais de quatro décadas e dedica especial atenção a Acaturna, poema de 96 versos em que uma antiga palavra da Língua Portuguesa é recuperada e submetida a um processo de ampliação eressemantização, reunindo língua, corpo, passo,
memória, território, ancestralidade  epermanência.

  Mário Nelson Carvalho incorpora ao seu estudo a recepção crítica do poema. Nelson Cerqueira dedicou a A caturna um tratado de 48 páginas, dividido em 39 seções e duas grandes partes,posteriormente traduzido para o inglês. No ensaio, essa fortuna crítica torna-se também evidência de que classificações isoladas começama se mostrar insuficientes diante d amultiplicidade da trajetória examinada.

   A segunda porta é o pensamento, tendo como eixo Hermenêutica da Desigualdade, publicada pela DelRey em 2019. A partir daí, o percurso alcança o Direito e a democracia, a crítica, a construção cultural e as artes visuais, sem apresentar esses territórios como compartimentos estanques.É justamente a permanência das relações entre eles que interessa a Carvalho.Agregar sem dissolver as diferenças.

   Na quinta porta, dedicada à construção cultural,o autor examina Signos em Transe: uma fortunacrítica sobre a semiótica de Lícia Soares de Souza, empreendimento de que Taurino Araújo realizoua idealização, curadoria, organização e apresentação. 

   A coletânea reuniu 62 autores desete países e cinco idiomas — português, inglês, espanhol, francês e italiano —, com lançamento na Academia de Letras da Bahia e apoio acadêmico e institucional da UNEB e do CNPq

   .Para Carvalho, o interesse do projeto ultrapassa sua dimensão quantitativa. Autores, países,idiomas, disciplinas e tradições permanecem identificáveis, mas passam a produzir conjuntamente uma unidade que nenhum deles produziria isoladamente. Surge aí um dos princípios que atravessam todo O Mercado das Sete Portas: agregar não significa apagar diferenças.

   O mesmo procedimento é encontrado pelo ensaísta na produção artística. A experiência juvenil no Grupo de Arte Canoatan, as Assemblages no Parque da Cidade e,posteriormente, 

  AGREGAÇÃO são colocadasnuma mesma duração histórica. Folhas, galhos,flores e outros elementos encontrados
permanecem reconhecíveis individualmente, mas sua aproximação produz uma significação nova.Daí uma das descobertas centrais do estudo:

  AGREGAÇÃO deixa de ser apenas o título deuma obra visual e passa a nomear retrospectivamente um procedimentor ecorrente na trajetória examinada.A sétima porta

  É na sétima porta que a arquitetura do ensaio secompleta.Carvalho observa que o Direito não precisa deixarde ser Direito para encontrar a literatura; a poesianão precisa converter-se em filosofia para pensar;a Bahia não precisa abandonar sua particularidade para dialogar com o mundo; e atradição da Língua Portuguesa não precisa serrejeitada para receber novas possibilidades designificação. 

   O princípio não seria o da fusão indiferenciada, mas o da aproximação entreelementos diferentes que preservam suasidentidades e, justamente por isso, produzemnovos sentidos quando reunidos.

Sob essa perspectiva, acontecimentos separadospor décadas começam a formar uma continuidade: a experiência coletiva do Canoatan;a palavra pública; o movimento universitário; oDireito; a advocacia; o magistério; a literatura; acrítica; Hermenêutica da Desigualdade; Signos emTranse; a assemblage; AGREGAÇÃO e A caturna.A tese de Carvalho é que a enumeração curricularpode produzir uma aparência de dispersão onde aobservação da trajetória revela justamente ocontrário.Por isso, uma das formulações mais sintéticas de O Mercado das Sete Portas afirma que “as SetePortas não correspondem a sete Taurinos”.Correspondem a diferentes manifestações de umamesma vocação.Ao final, a metáfora arquitetônica retornatransformada. As sete portas já não são apenasentradas independentes. São caminhos queconduzem ao mesmo centro. Depois de percorrê-los, Mário Nelson Carvalho resume o movimentoque procurou demonstrar:

“A Bahia encontrou o mundo. A matériadispersa tornou-se AGREGAÇÃO. E amultiplicidade revelou-se convergência deuma eloquente vocação genuinamen tebrasileira.