Cultura

RODRIGO BITTES INVENTA SEU PRÓPRIO “BREGASERTANEJÍSTICO”

Novo álbum do artista conta uma história de amor atravessada por desejo, humor, desilusão, saudade de casa e pertencimento
Yasmim Bianco , Salvador | 23/09/2026 às 15:36
Rodrigo Bittes inventa seu próprio “bregasertanejístico”
Foto: Renato Stockler

O cantor e compositor Rodrigo Bittes lança “VIADO DESALMADO”, seu primeiro álbum de estúdio. Com nove faixas autorais, o trabalho parte do sertanejo - gênero que marcou a formação do artista goiano - para atravessar piseiro, forró, brega, pagode, salsa e axé em uma história de amor vivida por um homem gay. Mais do que reunir diferentes ritmos, o álbum faz dessas mudanças de linguagem parte da própria narrativa: à medida que o personagem se apaixona, sofre, se desilude, se arrepende, reencontra o amor e sente saudade de casa, a música também muda de forma. 

O lançamento é independente, com distribuição da AlgoHits. 

“VIADO DESALMADO” nasceu, justamente, de uma ideia mais específica. A faixa-título foi o primeiro sertanejo composto por Rodrigo e surgiu com a vontade de levar uma perspectiva queer para um gênero historicamente associado a imaginários masculinos heterossexuais. A primeira ideia era transformar esse impulso em um disco de sertanejos gays, dividido em dois volumes. O projeto mudou de direção quando Rodrigo começou a trabalhar com o produtor Ivan Gomes e apresentou outras composições que não pertenciam ao sertanejo. 

“A gente entendeu que era mais interessante construir uma narrativa de um eu-lírico que passeia por amores, aventuras e desventuras, ilusões e desilusões, e que também, nesse passeio, passa por diferentes ritmos e estilos musicais”, conta Rodrigo. 

A partir daí, o álbum ganhou uma unidade que não depende de um único gênero. O sertanejo continua sendo sua alma, mas convive com outras formas da música popular brasileira. Em “DIÁLOGO INTERNO”, por exemplo, um pagode de inspiração noventista se transforma gradualmente em uma bossa nova lenta, acompanhando o recolhimento do personagem. “VOCÊ NA MENTE” transforma o reencontro amoroso em uma canção de amor em ritmo de axé. Já “SERTANEJO DA MINHA VIDA”, faixa que encerra o disco, leva a saudade de casa para o piseiro, aproximando a percussão eletrônica de uma poesia sobre origem, memória e pertencimento. 

Essa mistura também revela uma escolha estética e política. Sertanejo, brega, piseiro e outros ritmos populares presentes no álbum foram muitas vezes colocados em posições inferiores dentro das hierarquias culturais. Rodrigo procura, então, ocupar essas linguagens com outras experiências e outros corpos. O resultado é um disco de música brasileira atravessado por uma perspectiva queer, em que a identidade não funciona como tema isolado, mas como lugar de onde essas canções são criadas. 

“É uma perspectiva gay do apaixonamento, do amor, em diferentes momentos de vida. É uma das possíveis histórias de amor, dentre tantas outras possíveis. É a viadagem, uma das viadagens, vivida em sua plenitude”, explica. 

A experiência goiana é outra camada fundamental do álbum. O cerrado, o sertanejo, os cavalos, a saudade de casa e a memória do êxodo aparecem ao longo das canções como elementos de uma formação afetiva. No encerramento do disco, “SERTANEJO DA MINHA VIDA” amplia a história de amor para além da relação entre duas pessoas. Ao cantar “eu-prole, eu-canção, eu-fé”, Rodrigo transforma a busca pelo outro em uma descoberta de si, da própria origem e das formas de pertencimento que permanecem quando a paixão passa. 

“VIADO DESALMADO” também marca uma nova etapa do projeto Rodrigo-Techno-Bittes, iniciado em 2023 a partir dos remixes de faixas do EP “Plantio”. Depois de “FOGAREIA” e “JÁ CHEGA!”, lançados em 2024, e dos remixes de “CONSTELAÇÃO” e “ESSE GADO”, o álbum aprofunda a pesquisa em música eletrônica e, ao mesmo tempo, abre espaço para gêneros que sempre fizeram parte da formação de Rodrigo. Composições feitas entre 2022 e 2025 revelam um lado mais solar, despojado, dançante, irônico e cômico do artista. 

A produção musical ficou principalmente a cargo de Ivan Gomes, enquanto JP Mansur assina “ME DESCULPE, MAGOEI”. Paola Gibram participa na sanfona e Ariel Coelho na percussão e bateria. Pina, Eva e Malu Magri fazem coros; Eva também realizou a preparação vocal de Rodrigo, e Malu assina a direção vocal e participa de “PRA SOFRER COM FORÇA”, faixa que entrou no álbum já durante a etapa final de criação. A engenharia de som é de Nicholas e Gabriel. 

A dimensão colaborativa do projeto também se estendeu aos audiovisuais, viabilizados a partir da rede de artistas com quem Rodrigo divide uma casa coletiva em São Paulo. Eva assumiu a produção executiva; Renato Stockler entrou na direção de fotografia; e Pina passou a atuar em diversas frentes, da direção e figurino à direção de arte, design e lettering. Outros artistas e amigos da casa também participaram da produção, dos bastidores e dos elencos. Boa parte dessa rede é formada por artistas queer, fazendo com que a ideia de pertencimento presente no álbum também se manifeste na forma como seus visuais foram construídos e realizados. 

O álbum chega acompanhado do clipe de “VIADO DESALMADO”, dirigido por Renato Stockler e Pina a partir de uma concepção conjunta com Rodrigo. O audiovisual coloca em contraste figurinos brilhantes, referências de editorial de moda e closes glamourosos com cavalos e paisagens rurais. A relação entre os personagens se constrói lentamente, entre aproximação, sedução, afastamento e desilusão, acompanhando o crescendo da música. 

“Algo gradual, chique, roceiro, viado”, resume Rodrigo. 

A capa do álbum é um frame do clipe e preserva esse encontro entre glamour e ambiente campestre. O fragmento do nome de Rodrigo que aparece na imagem - apenas “BI” - acrescenta outra camada de ambiguidade à identidade visual e à própria ideia de “VIADO DESALMADO”: uma figura brilhante e misteriosa que nunca se revela por inteiro. 

No fim, o álbum é menos sobre encontrar uma única pessoa do que sobre descobrir as muitas formas de pertencer. Entre o sertanejo e o piseiro, o cerrado e a pista, a desilusão e a festa, “VIADO DESALMADO” transforma uma história particular de amor em uma canção que pode ser compartilhada por muitos - sem deixar de ser, antes de tudo, uma das muitas histórias possíveis de ser viado, amar e voltar para casa.