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HISTORIANDO COPAS I0 - SALVE A RAINHA, INGLATERRA CAMPEÃ DO MUNDO 1966

ZedeJesusBarrêto destaca que o título foi ganho na tora e no apito, porém valeu e até hoje é o único da Inglaterra
ZédeJesusBarrêto ,  Salvador | 09/05/2026 às 12:01
Rainha Elizabeth II entrega taça a Bobby Moore
Foto: DIV
    Para nós, brasileiros, cinco vezes Campeões do Mundo, a Copa de 1966, na Inglaterra, é pra esquecer. Envergonha-nos o fiasco. Para os ingleses, anfitriões, ‘donos da bola’, pela primeira (e única, até aqui) vez campeões, foi a Copa da Coroa, da RainhaElizabeth II, ainda formosa e encantadora, presente em alguns jogos, entregando a Taça Jules Rimet ao capitão Bobby Moore do English Team no templo de Wembley, em Londres, mais de 95mil presentes.

  Osório Cardoso Villas-Boas (1914-1999), ‘eterno’ presidente do Bahia, primeiro Campeão Brasileiro em 1959, dizia que “jogo se ganha em campo, mas titulo se conquista fora de campo”. Ela sabia das coisas. Teriam os ingleses, tidos como os ‘inventores’ do football, por acaso lido o livreto ‘Futebol, Paixão e Catimba’, escrito por Osório, onde ele insinua os atalhos das conquistas?

  Pois bem, para serem campeões em casa, em 1966, os súditos da Rainha não tiveram cerimônia, fizeram de um tudo, planejaram cada jogada fora e dentro das quatrolinhas, abusaram da catimba, do jogo pesado. A FIFA estava sob comando do inglês Stanley Rous e vigorava a tese inglesa de que ‘futebol é pra homem’, havia de prevalecer o jogo viril. Armaram uma estratégia de guerra. E venceram.

  A primeira providência foi eliminar, no pau e no apito, os abusados sul-americanos –o Brasil, a Argentina, o Uruguai. Caminho limpo, a final contra a Alemanha foi uma festa, com prorrogação, arbitragem suíça caseira (Gottfried Dienst) que deu gol inglês,o terceiro, num lance em que bola que não entrou, deixou o pau comer e nem se deu conta do gramado invadido antes do quarto gol inglês, soprando o apito final com a pelota nas redes. (Inglaterra 4 x 2 Alemanha Ocidental, com um gol que não houve).Tudo bem, a Inglaterra tinha um timaço – o goleiro Banks, Bobby Moore, Bobby e Jack Charlton, Ball, Hurst... sob comando do lendário Alf Ramsey – e muita marra. Venceriam de qualquer jeito. 

  “Deus salve a Rainha!”, assim se deu.

  oliticagens e fracasso pelas bandas de cá, a bagunça, e fomos eliminados logo na primeira fase da competição, com duas derrotas vergonhosas de 3 x 1 – contra a Hungria e contra o Portugal de Eusébio e Colluna. Só vencemos na estreia, 2 x 0 em cima da fraca Bulgária, com gols de Pelé e Garrincha, ambos em cobrança de faltas. Foi o derradeiro jogo da dupla, Pelé/Garrincha, que atuando juntos nunca perderam. 

  Mas os dois saíram de campo no bagaço. Apanharam muito, os búlgaros pareciam encomendados, pau puro. Jairzinho, que estava no banco de reservas, bem jovem, disse depois numa entrevista que nunca tinha visto tanta pancadaria em campo. O Rei foi duramente atingido no joelho, que já andava baleado e restou tão inchado e dolorido que o deixou de fora da partida contra a Hungria e praticamente alijado da Copa.

 Garrincha já passado dos 30, acima do peso, sem mais aquela agilidade evelocidade, não conseguia fugir da botinadas nem dar sequência aos seus dribles. E era neles dois que depositávamos toda a esperança. No terceiro jogo, contra a forte seleção portuguesa, Pelé foi pro sacrifício, fez questão de jogar mesmo a meia-boca eos irmãos lusos baixaram o cacete, com chutes seguidos no joelho machucado, quase o tirando da batalha ainda no primeiro tempo; ele se manteve em campo, mesmo se arrastando, até o final.

  Eusébio, no auge, deitou e rolou. Mas tudo começou bem antes, ainda no Brasil, com a disputa de poderes, vaidades e interesses envolvendo CBF, clubes, federações e o governo sob regime militar desde abril de 1964. A chamada ‘Revolução’ de 64 balançava - com a economia em frangalhos, inflação alta, custo de vida nas alturas, disputas internas nos quarteis,insatisfação nas ruas – e o Marechal Castelo Branco, então presidente, precisava de apoio, de respaldo popular para concretizar o projeto autoritário de poder dos militares golpistas. 

  Usariam o futebol para ganhar popularidade já que o Brasil era bicampeão mundial e tínhamos Pelé, uns seis remanescentes da campanha do Bi euma nova geração de craques que prometia muito. Só que a politicagem e a ganânci atinham se entranhado também na cartolagem do futebol, na CBF. Por ciumeiras e ambições o vaidoso e poderoso presidente da entidade João Havelange (já de olho naFIFA) rompeu com o ‘Marechal da vitória’ Paulo Machado de Carvalho, tirando-o docomando do escrete e ele mesmo assumiu tudo, um manda-chuva.

  Havelange manteve Carlos Nascimento, tido como intragável pela maioria dos atletas,como supervisor, e resgatou de volta, com técnico, o velho e adoecido ‘gordo’ Vicente Feola (aquele mesmo de 1958, na Suécia), já sem forças e sem comando. E consumou-se a bagunça com a convocação de 47 atletas, que formavam quatro times – uma marelo, um azul, um verde e o branco, as cores da bandeira. Patriotismo, ora! 
  
  O importante era agradar Brasília, os quarteis, governadores de estados, políticos de ocasião, federações, cartolas, clubes... E puseram-se a jogar, a cada semana, aqui e ali,verdes x amarelos, brancos x azuis, cruzando-se a cada disputa ‘amistosa’, desgastando os jogadores, sobretudo mentalmente. 

   Eram 47 atletas, todos querendo jogar a Copa, brigando por 22 vagas, e titularidade. Não podia dar certo. Resultado, chegamos na Europa ainda sem definição do elenco, estreamos na copa sem time, sem equipe, sem conjunto ou um esquema de jogo. Mané Garrincha dizia que “era uma palhaçada, ninguém sabia quem mandava, quem escalava, se era o doutor Nascimento ou Feola, não tinha comando”. Pelé diria o mesmo, depois: “não tínhamos um time, uma equipe, nenhum conjunto, cada jogo era uma escalação diferente e, perdidos em campo, nos arrebentaram”. 

   Voltamos pra casa cedo, com o rabinho entre as pernas.

  Argentinos e uruguaios E Brasil fora, era preciso tirar do caminho outros dois sul-americanos que poderiam, na bola, ameaçar o título dos europeus. Deram um jeito, nas quartas de final. Dois jogos marcados para o mesmo horário: Uruguai x Alemanha Ocidental e Argentina x Inglaterra, este com a presença da Rainha Elizabeth.

   Providenciaram um árbitro inglês, Mister Finney, para apitar o jogo do Uruguai, e um alemão (Rudolf Kreitlein) para marcar o jogo dos donos da casa. Deu Alemanha 4 x 0 e Inglaterra 1 x 0. Limpeza geral.

  Os uruguaios, que tiveram dois jogadores expulsos, gol anulado e uma cabeçada de Rocha, que abriria o placar, em que o zagueiro alemão espalmou, salvou de mão como se fosse o goleiro, a bola já entrando... Pênalti claro, mas o soprador de apito fez quenão viu nada, marcou só escanteio, os uruguaios enlouquecidos; reclamaram ainda de dois gols irregulares do alemães e saíram de campo cuspindo marimbondos: “Umaconspiração! Fomos assaltados”.

  No jogo dos ingleses, o pau comeu, o arbitro alemão só marcava falta em favor dos súditos da rainha (ela presente) e ameaçava, dedo em riste, os sul-americanos. Daí, o capitão da seleção argentina Ratin, que não era flor que se cheire, correu atrás dele pelo campo para reclamar, segundo ele ‘a exigir um intérprete’ para que pudesse entender o que o árbitro dizia e poder replicar ... foi expulso.

   Aí, o bicho pegou .Inconformado, revoltado, Ratin relutou em deixar o gramado e, quando o fêz, dez minutos de jogo paralisado, foi xingando, caminhou lentamente até a esquina do gramado arrancou a bandeirinha, a flâmula do escanteio (com as cores da bandeira inglesa), fez o gesto com a mão de que aquilo era um roubo e, dizem, ainda cuspiu no pano, antes de atirá-lo no chão. 
 
  Para os ingleses, e a Rainha presente viu tudo, uma grave ofensa, uma falta de respeito à Sua Majestade e seus súditos. O clima ficou pesado, o jogo ficou melado, catimbado, travado, feio... e os ingleses, com um atleta a mais em campo, fizeram 1 x 0, gol de cabeça de Hurst a 10 minutos do final. Quase não teve futebol, mas os argentinos estavam fora e a Inglaterra seguia, atropelando.

  Lambanças e destaques- A maior lambança da Copa foi o gol que não houve, já na prorrogação, jogo final, o terceiro do time inglês. O ‘gol fantasma’, dado pelo árbitro suíço Gottfried Dienst, aconteceu assim: o avante artilheiro inglês Hurst chutou forte e cruzado, da direita, a bola bateu no travessão do arco defendido pelo goleiro Tillkowski e quicou no chão, cerca de meio metro fora da linha de gol. 

  Árbitro e bandeiras viram bola dentro. Não tinha VAR, a entrega estava cumprida.

  - O jogo mais violento da Copa teria sido Alemanha Ocidental 2 x 1 URSS, uma das semifinais. Entradas maldosas e agressões até sem bola, fora dos lances do jogo, com o árbitro italiano deixando correr frouxo. Os alemães teriam intimidado, no pau, os soviéticos, rixa da ‘guerra fria’.

  - Na Copa de 66 estreou o jovem líbero Beckenbauer, sob comando de Helmut Schoen, pela Seleção Alemã, vice-campeã. Bobby Moore, o capitão inglês, jogou 17 anos no West Ham, e fez 108 partidas com acamisa da Seleção inglesa. Clássico, técnico, começou como meio-campista mas consagrou-se como zagueiro, líbero.

  - O jogo mais empolgante da Copa foi, sem dúvidas, Portugal 5 x 3 Coreia do Norte, pelas quartas de final. Em 20 minutos de bola rolando a Coreia abriu 3 x 0, mas levou a virada histórica, com uma exibição absurda de Eusébio (4 gols).- Portugal ficou com o terceiro lugar, após vencer a URSS por 2 x 1. Eusébio, o atacante português nascido em Moçambique, foi o artilheiro e o grande destaque individual da Copa.

  Para os que o viram em campo, Eusébio é considerado o maior jogador da história de Portugal, acima de Cristiano Ronaldo, mais completo. O moçambicano, chamado de ‘OPríncipe” (por conta do Rei Pelé, de quem tornou-se amigo), só jogou pelo Benfica, clube pelo qual conquistou 17 títulos nacionais e internacionais.

  - O jogador mais novo a disputar uma Copa do Mundo foi Edu, ponteiro do Santos, quetinha 16 anos em 1866. Estava no grupo mas não atuou. Eram também jovens eestreantes em Copas o atacante Tostão, o lateral Rildo (que disputou as eliminatória sem 1969) e o meia Gérson. De veteranos, estavam o goleiro Gilmar, os defensores Belline, Djalma Santos, Orlando, o apoiador Zito e Garrincha.

  A Seleção Brasileira marcou apenas 4 gols na Copa: Pelé, Garrincha, Tostão e Rildo.- O atacante Rivera, jovem revelação italiana, aos prantos, envergonhado jurou que abandonaria o futebol depois de a Itália perder (1 x 0) para a até então desconhecida Coreia do Norte. Os torcedores italianos o acolheram e o fizeram mudar de ideia.

  - O Mundial da Inglaterra teve 89 gols marcados em 32 partidas. A média de públicofoi de 50.45 8pessoas/jogo.

Nota: Tem mais.“Historiando as Copas’, de zedejesusbarreto, lançado em 2023 pela OjuOBáEditora, à venda pela Amazon, é uma resenha contextualizada de todas as 22 edições da Copa do Mundo de futebol, da primeira (no Uruguai, em 1930) à derradeira, em2022, a Copa de Messi no Catar/Mundo Árabe.Recomendamos. É uma obra indispensável aos que gostam e lidam com o futebol.**