Esporte

HISTORIANDO AS COPAS 9: BRASIL É BI NO CHILE, A COPA DE MANÉ GARRINCHA

A série é produzida pelo jornalista ZédeJesusBarrêto
ZedeJesusBarrêto , da redação em Salvador | 05/05/2026 às 17:53
Os bicampeões em 1962, Chile
Foto: DIV
    Quando nos debruçamos sobre o bicampeonato conquistado pela Seleção Brasileira em 1962, nos gramados do Chile, logo completamos “A Copa de Mané Garrincha!”.Sim, o gênio chapliniano dos gramados, com suas pernas tortas e jeito de menino foi o grande protagonista da competição, com o Rei Pelé machucado, fazendo coisas em campo que até ele mesmo duvidava.

   Anos depois, já separado da bola e distante dos gramados, sentado numa cadeira de boteco a bebericar uma cervejinha, Garrincha deixou gravado em áudio e vídeo, bem a seu modo desconcertante, meio que distraído:- Naquela Copa fiz coisas que nunca tinha feito. Gol de cabeça, gol de perna esquerda, a cega, caía pro meio feito centroavante, finalizando... Eu sempre joguei aberto, cruzando, preparando as jogadas pros outros... Mas em algumas partidas, lá no Chile, senti um impulso estranho, que me empurrava a invadir pelo meio, com vontade dedecidir... (risos).

    Até hoje acho o Pelé incorporava em mim, ele ali de fora me incentivando. Eu incorporei Pelé. Da mesma forma que o Jairzinho, que começou do meu lado no Botafogo, me incorporou, incorporou o Mané na Copa de 70 (risos) ...Não ouso duvidar das ‘incorporações’, mas no Chile teve também o ‘doping’ de Elza Soares, cantora já famosa, ousada e linda, que fazia shows no Chile, foi escolhida como madrinha da seleção canarinho, e por quem Mané apaixonou-se loucamente, prometendo a ela o título. 

  “Vou ganhar a Copa pra você”, teria jurado, numa noite de idílios, depois do jogo difícil contra a Espanha, quando vencemos - 2 x 1 de virada.

  Valores e superstições

  Aos 28 anos, Garrincha ainda estava voando, vivia seu esplendor técnico, os joelhos ainda inteiros, suportando bem os arranques. Pelé, com 21 anos, no auge, era o Rei, o mundo da bola a seus pés. Santos e Botafogo eram os melhores times do planeta e com eles dois em campo a Copa parecia uma ‘barbada’; mesmo com Didi, Nilton Santos, Zagalo, Djalma Santos, Mauro, Zito e Zózimo já bem passados dos 30, algun sem final de carreira. 

   Dos 22 convocados, 12 jogavam no Santos e Botafogo. A base da equipe era a mesma do time campeão de 1958 na Suécia, agora mais envelhecida, com menos correria e mais malícia. O treinador Aymoré Moreira (o gordo Feola, adoecido, foi substituído) trocou apenas o miolo de zaga – Belline deu lugar a Mauro, que vivia um melhor momento e era o capitão no Santos; e o baiano Zózimo entrou no lugar de Orlando que fora jogar na Argentina. 

  No mais, o mesmo Paulo Machado de Carvalho no comando, supersticioso, criteriosoe exigente no planejamento, na preparação da equipe, na organização, mantendo ou repetindo tudo o que foi feito com êxito em 58, até o mesmo avião da Panair, o mesmo piloto. “Vamos manter os valores”, dizia convicto.

  A virilha do Rei

  Só que, logo na segunda partida da fase classificatória, contra a Tchecoslováquia, aos 27 minutos do primeiro tempo, depois de uma de suas arrancadas e o chute na trave do goleiro Schroif, Pelé caiu, pôs a mão na virilha, a abriu o músculo; ficou mais de três minutos fora do campo de jogo, sendo atendido, os olhos do mundo nele. Voltou manquitolando, apenas para fazer número (ainda não havia substituições), parado nalinha lateral, pela esquerda, com dificuldade até de caminhar, até os adversários respeitando sua dor. 

  O Rei estava fora da Copa, comoção geral. Por conta do entrosamento (jogava no Botafogo, ao lado de Didi, Garrincha, Nilton Santos, Zagallo) o jovem Amarildo foi o escolhido por Aymoré para substituir Pelé, que o abraçou dizendo “vá, você está abençoado e protegido por Deus”. 

  Amarildo era canhoto, goleador, rápido, raçudo, destemido e chutava forte; tinha o apelido de‘possesso’. Não desperdiçou a chance, marcou três gols, alguns decisivos.

  Garrincha fez um jogo tímido, na estreia, contra o México. Foi o jogo de Pelé, com um golaço driblando vários mexicanos, enfiando uma bola na trave e foi dele o passe na medida pro gol de Zagallo, Brasil 2 x 0. Mané também não apareceu muito no jogo contra os Tchecos, uma partida modorrenta a partir da contusão do Rei, todosc hocados.

  O terceiro jogo, decisivo, foi contra a Espanha, um ótimo time chamado de ‘La Fúria’, treinado por Helenio Herrera e reforçado pelo veterano astro húngaro Puskas, pelo uruguaio Santamaria e também pelo lendário argentino Di Stéfano (que, machucado, não atuou contra o Brasil), todos naturalizados espanhóis. Foi nossa partida mais difícil. Os espanhóis dominaram o primeiro tempo e fizeram 1 x 0, nosso time apagado.

  Contam que Aymoré Moreira sacudiu a turma nos vestiários e a seleção voltou a campo, na segunda etapa, pro tudo ou nada. La Fúria indomável. Aos 20’, o veloz Cuellar foi derrubado por Nilton Santos, claramente dentro da área brasileira, umpênalti indiscutível, mas o árbitro marcou falta fora da área, pela lateral esquerda defensiva. Depois de muita reclamação (não tinha VAR), Puskas cobrou a falta, alçandoa bola na frente da pequena área e Peiró acertou uma bela bicicleta, sem chances dedefesa para Gilmar, porém o ‘soprador de apito’, chamado Bustamante (que Deus o abençoe), viu falta do atacante em Zito e anulou o gol.

  Passado o sufoco, o susto, com os espanhóis injuriados os brasileiros despertaram. Aos 27’, Amarildo empatou, oportunista, após um chute cruzado de Zagallo. Virou um lá e cá perigoso, aberto, então Garrincha, pela primeira vez na Copa, acertou aquela sua jogada característica pela direita, cruzou do fundo e ele, o ‘possesso’ Amarildo, dolado o posto, testou para as redes, dando triunfo ao Brasil. Um gol botafoguense.

  Foi então que, na euforia daquele triunfo quase impossível, Elza Soares apareceu no svestiários vestida de verde&amarelo e teria acontecido a noitada com Garrincha –“Vou ganhar a Copa pra você”.

  O certo é que, nos dois jogos seguintes, contra a Inglaterra (3 x1) e contra o Chile, os donos da casa (4 x 2), Mané Garrincha decidiu, fez a diferença, assombrou. Fez, seguramente, os dois jogos mais incríveis de sua exuberante carreira. Nos soberbos ingleses fez gol de cabeça, escorando escanteio, outro batendo colocado no ângulo, de fora da área. 

 E mais, driblou, desconjuntou os gringos, as arquibancadas em delírio.Contra os chilenos, mesmo vaiado, levando pontapés e até pedradas, com 72 mil presentes no Estádio Nacional, em Santiago, Mané deu show. De nada adiantou aatuação pífia e caseira do soprador de apito peruano, um certo Yamazaki, que deixou o pau comer, pressionado pelos donos da casa. 

  No primeiro tempo, dois gols de Garrincha, um de cabeça outro de canhota, feito um centroavante. Yamazaki anulou gol brasileiro, inventou pênalti em favor do Chile e, no final, até expulsou Garrincha (aúnica expulsão na carreira de Mané), que revidou com um toquinho ‘sacana’ as botinadas seguidas que estava levando, no seu show particular de dribles e negaças.

  Brasil 4 x 2, estávamos na final, de novo enfrentaríamos os Tchecos. Garrincha em campo, numa artimanha da CBF (por ter sido expulso no jogo contra o Chile devia ser suspenso), mesmo em estado febril por conta de uma gripe e inflamação de garganta, noite mal dormida. Pouco apareceu, mas só a presença dele já fazia diferença, porque eram sempre dois na sua marcação. Brasil 3 x 1, gols de Amarildo, Zito e Vavá. Éramos Bicampeões do Mundo!

  Curiosidades- Garricha foi eleito o Craque da Copa, não podia ser outro. Ele e Vavá fizeram 4 gols, cada. O artilheiro da competição foi o atacante iugoslavo Jerkovic, chamado de ‘o touro’, com cinco gols.

 - O gol mais rápido das copas, até hoje, foi marcado pelo tcheco Masec, aos 15 segundos da partida México 3 x 1 Tchecoslováquia, ainda na fase classificatória.- Na disputa do terceiro lugar, Chile 1 x 0 Iugoslávia, o gol chileno marcado por Rojas aconteceu no apagar das luzes. Muita violência em campo, um clima de guerra eintimidações nas arquibancadas. O goleiro europeu Soslik disse que foi melhor perdere sair inteiro do estádio.

 - O astro húngaro Puskas, já barrigudinho e bem vivido, foi provocado e chamado de velho por torcedores chilenos num bar, à noite, e saiu na mão grande com os ‘agresores’, num quebra-pau que destruiu o bar. Anos depois, numa entrevista, Puskas retratou assim:

  “Jogar na América do Sul é um pesadelo. Dentro do campo você até pode impor respeito com seu futebol, mas você é agredido nas ruas, no hotel, em todos os lugares. A intimidação faz parte da cultura do povo, é um traço abominável”

  - No mundial do Chile foram marcados 89 gols em 32 partidas, uma média baixa de 2,8 gols por jogo. A média de público foi de 27.917 pessoas/jogo.

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