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HISTORIANDO AS COPAS 8: COPA DO MUNDO É NOSSA,1958 p ZÉDEJESUSBARRETO

Texto dessa série do jornalista ZédeJesusBarrêto
ZedeJesusBarrêto ,  Salvador | 01/05/2026 às 11:07
A melhor seleção do Brasil de todos os tempos
Foto: DIV
   A Copa do Mundo é nossa/Com brasileiro não há quem possa/Êta Esquadrão de Ouro/ É bom de samba, é bom no couro”.Assim, com esse refrão cantado no país inteiro, começava a canção ufanista criada às pressas pelos compositores Vagner Maugeri, Lauro Müller, Maugeri Sobrinho e Vitor Dagô para comemorar o primeiro título de Campeão do Mundo conquistado pelo Brasil em gramados da Suécia. 

   Era o ano iluminado de 1958, sob o governo liberal, democrático e progressista do mineiro Juscelino Kubitscheck de Oliveira (1956 a 1961). Nesse mesmo ano o baiano João Gilberto mostrava a batida de violão consagrada no mundo como a ‘Bossa Nova’; no ano seguinte lançaria o disco LP “Chega de Saudade”, um marco na música brasileira. Juscelino foi batizado de ‘Presidente Bossa Nova’, pelo compositor Juca Chaves, com uma tirada melódica irônica.

  O Brasil, em campo, curava-se do chamado “complexo de vira-latas” (achado do grande escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues) e mostrava sua cara, de uma Nação nova, diferente, ao mundo.

  Gênios da bolaTalento, seria a palavra, única, a explicar aquela conquista. Foi a Copa da coroação do ‘Menino Rei’ Pelé, aos 17 anos, já um fenômeno. Foi a Copa espantosa de um moço de pernas tortas e ares distraído chamado Garrincha, descendente de nativos Fulniôs, com seus dribles desconcertantes. Foi a Copa de um ‘Principe Etíope’, nascido carioca, chamado Didi, um meia de futebol elegante, eleito como o melhor jogador da competição. 

 Foi também a Copa de uma equipe que surpreendeu e inovou taticamente, preenchendo o meio-campo com pegada e talento, espaço onde se pensae se ganha os jogos. Nosso ponta esquerda recuava para recompor a marcação (Zagallo), um meia incansável voltava sempre para buscar a bola (Pelé) e iniciar as tramas ofensivas, ao lado do regente Didi. E mais Zito, ou Dino Sani, no apoio, marcação, na retomada de bola.

 Sim, tínhamos um timaço. O goleiro Gilmar, Nilton Santos, o capitão Belline, o quarto zagueiro Orlando Peçanha, o avante Vavá... Até hoje nos perguntamos “qual foi nossa melhor seleção, a de 1970 (tricampeã no México) ou aquela da Suécia?” E sabemosdizer de cor o time escalado na final, contra os suecos: Gilmar, Djalma Santos, Belline, Orlando, Nilton Santos, Zito, Didi, Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo. Ok.Mas quase ninguém se lembra do time que começou a Copa, vencendo a Áustria, nos contra golpes, por 3 x 0, numa partida dura, e na sequência empatando com a Inglaterra, sem gols. 

  Na lateral direita jogava De Sordi, Djalma Santos só entrou na partida final. O apoiador era o clássico Dino Sani, depois é que entrou Zito, mais pegador, um líder. E o ataque de Feola no começo da Copa era Joel, Mazolla, Dida e Zagallo (três do Flamengo). Dida, artilheiro e ídolo de Zico, logo perdeu posição para Vavá. Tremeu, diriam.

  Só no terceiro jogo da fase classificatória de grupos, contra a URSS de Yashin, é que entraram Pelé, Garrincha e Zito; dizem que sob pressão dos jogadores líderes da equipe - Didi, Belline e Nilton Santos. Então, aconteceu o encaixe, o encanto, tudo mudou. Vencemos bem a URSS, 2 x 0, com Garrincha assombrando, mas quas eengasgamos na retranca do País de Gales. O menino Pelé nos salvou, 1 x 0, com um go lespetacular, dando chapeuzinho nos defensores grandalhões galeses e batendo colocado no canto. 

  Os europeus arregalaram os olhos, ‘o que era aquilo?’. Foi o primeiro dos 12 gols de Pelé em Copas; na Suécia marcou 6 vezes. Daí pra frente, show de bola, 10 gols nas duas partidas finais, 5 x 2 contra a poderosa França (o melhor ataque da competição até ali) e o mesmo placar contra os suecos, donos da casa, na final, diante do Rei Gustavo que, no final, rendeu-se, aplaudiu e foicumprimentar os brasileiros, um por um, como se agradecido pelo que viu.

  Aprendendo a vencer

  Uma jornada inesquecível nos gramados, sem dúvidas, mas que, é bom que se diga, começou bem antes, fora de campo, com a eleição de João Havelange presidente da então CBD -Confederação Brasileira de Desportos, hoje CBF, em 1956. Havelange era um desportista, foi nadador, competiu em Jogos Olímpicos, amava o futebol. Bem nascido, conhecia a Europa, sabia da importância de um bom planejamento e de organização para vencer competições, tinha tino administrativo, liderança.

  De pronto, teve a brilhante ideia de convidar o bem sucedido empresário paulista Paulo Machado de Carvalho (1901/1992, fundador e patrono da Record), e entregou-lhe a incumbência de comandar, com ‘carta branca’, a Seleção Brasileira que disputaria as eliminatórias e iria para a Copa da Suécia em 1958. 

  Paulo Machado de Carvalho tornou-se o “Marechal da Vitória”, assim chamado por ter chefiado a delegação brasileira vitoriosa em duas Copas: em 58 na Suécia e 1962, na sequência, no Chile.

   Dirigente por natureza e costume, inteligente e bom de conversa, Paulo Machado escolheu uma Comissão Técnica diferenciada, como nunca antes tinha acontecido na Seleção, para que tudo fosse planejado com rigor profissional, desde a preparação. Outra mentalidade. Foi escolhido como treinador o ‘gordo’ Vicente Feola, que era técnico do São Paulo, conhecia do riscado; criou-se o cargo de Supervisor Técnico e foi posto à frente um‘braço direito’, pessoa de inteira confiança do chefe, o carioca e ex-goleiro Carlos Nascimento, que atuaria mais próximo dos atletas. 

  O ‘doutor Paulo’ montou uma equipe médica competente, tendo à frente o Dr. Hilton Golsling, e juntou ao grupo o dentista Mario Trigo, pois a maioria dos jogadores sofria com problemas dentários. No mais, convocou o preparado físico Paulo Amaral, um taludo praticante e estudioso da matéria, exigente e disciplinador. Levou ainda no grupo o psicólogo João Carvalhaes, que vivia às voltas com as ‘doideiras’ de Mané Garrincha, um meninão.

  Pela primeira vez a Seleção Brasileira chegava numa Copa, na Europa, em voo particular, avião da Panair. E chegamos antes, para um período de adaptação,treinamentos adequados, amistosos preparatórios... outra realidade. A conquista, pois, aconteceu também por conta dessas fundamentais providências prévias fora dos gramados. Foi assim que o Brasil aprendeu a vencer.

  Detalhes nem tão pequenos

   A Seleção Brasileira jogou a partida final de azul, uma novidade, porque o uniforme principal da Suécia, os donos da casa, era amarelo. Daí, Carlos Nascimentos foi às pressas comprar nas lojas especializadas de Estocolmo as camisetas azuis, que tiveram números pregados nas costas e escudo bordado no peito, tudo a tempo. 

  O problema maior era, segundo a comissão técnica, fazer a cabeça dos atletas, muitos supersticiosos, achando que sem a ‘amarelinha’, que estava dando certo, a sorte poderia desandar. Que azul era aquele?

  O esperto Paulo Machado de Carvalho, então, ciente do ‘bizu’ em torno da beca, convocou de imediato uma reunião com todos os atletas, mais a comissão técnica e disse, empolgado, com as novas camisetas às mãos, que aquele azul estava abençoado por ser ‘a cor do manto de Nossa Senhora Aparecida, a Padroeira do Brasil’, e comaquele manto seriamos Campeões do Mundo. Passou confiança com a narrativa e amoçada acreditou. Funcionou.

  Poucos se lembram, mas um erro gritante de arbitragem não deu um gol claro do Brasil na semifinal contra a França, quando o placar era 1 x 1. Zagallo disparou um chute forte, a bola bateu no travessão, quicou no chão – uns 30 centímetros além da linha fatal – e voltou. 

 Os brasileiros pediram o gol, mas nem o árbitro nem o bandeira viram; as decisões eram no olho, não havia tecnologia, como hoje – o VAR, o chip na bola, nada.*Quando os brasileiros já comemoravam o título, após o gol de Pelé, de cabeça,segundos antes do apito final, o dentista Mario Trigo, que era uma figuraça divertida, abraçou efusivamente o Rei Gustavo, da Suécia, que descera da tribuna de honra do estádio para cumprimentar os campeões e lhes entregar a Taça. Não satisfeito com a  gafe, ainda lascou pra cima da Majestade: “E aí, King, tudo bem?”. Perplexo, o Rei apenas sorriu.*

  O atacante francês Just Fontaine, nascido Marrocos, marcou 13 gols na Copa, foi o artilheiro. Um recorde, até hoje. Pela seleção francesa fez 37 tentos em 20 jogos, tinha faro de gol. Mas o grande craque daquela seleção francesa era o meia, camisa 10, Kopa. Jogava muito.

  - Na partida França 7 x 3 Paraguai, os sul-americanos chegaram a estar vencendo peloplacar de 3 x 2, mas a virada veio com cinco gols seguidos dos europeus. Fontaine fez três. Contra o Brasil fez apenas um.*

   O mundial teve 126 gols marcados em 35 partidas, uma média de 3,6 gol por jogo. Amédia de público foi de 24.800 pessoas/jogo.

  Nota: Tem mais.“Historiando as Copas’, de zedejesusbarreto, lançado em 2023 pela OjuOBáEditora, à venda pela Amazon, é uma resenha contextualizada de todas as 22 ediçõesda Copa do Mundo de futebol, da primeira (no Uruguai, em 1930) à derradeira, em2022, a Copa de Messi no Catar/Mundo Árabe.Recomendamos. É uma obra indispensável aos que gostam e lidam com o futebol.**