O título da obra da médica ginecologista Cristina Sá, sexóloga com dedicação à saúde íntima feminina, é longo: “O que sua mãe não te contou e você precisa contar para sua filha (GENTE Editora, SP, 175 páginas, 2026, capa Márcia Matos, portal Amazon R$62,00) com o subtítulo “a importância do diálogo na educação sexual e na construção da autoestima íntima das mulheres e meninas” e, praticamente, a autora traça o roteiro do enunciado do seu trabalho que, tem o verniz de autoajuda sem necessariamente forçar a barra para que A ou B decida seguir os seus conselhos ou ensinamento.
Diria que a doutora Cristina é bem didática, usa uma linguagem coloquial em sua escrita, como se estivesse falando com seus pacientes e isso não só facilita a vida dos possíveis leitores como torna o produto oferecido - os dizeres - bem compreensíveis. E, no nosso ponto de vista o que há de melhor no livro é o chamar ao diálogo, a conversa, ao entendimento, sem imposições, numa abertura a mais simples e sincera possível entre uma mãe e uma filha, ou uma avó e neta, tia e sobrinha e assim por diante.
Quebrar o silêncio histórico das mulheres que ainda persiste na sociedade brasileira urbana e rural é o fulcro da obra, o foco principal, embora o conteúdo do livro da doutora Sá se relacione mais com a mulher urbana brasis das grandes cidades ou urbes mais desenvolvidos. O Brasil é um país com distintas camadas sociais que praticamente não se falam e tem modus de vida diferenciados umas das outras, nos estados e municípios, nos grotões, nas selvas, em áreas quilombolas, nas favelas e assentamentos subnormais.
Em Salvador, por exemplo, há uma quantidade enorme de mulheres, ainda meninas ou na puberdade que engravidam sem ter a menor noção de sexualidade, de prazer, etc, e mais grave como criar e sustentar os filhos oferecendo-lhes o básico em educação e saúde. Como defende a médica o politicamente correto é ensinar o “consentimento desde a infância com empatia e clareza”, como sabemos, linguagem pouco utilizada nas periferias urbanas.
O livro, evidente, não é para todos do ponto-de-vista espacial até porque já falamos acima sobre as desigualdades sociais permanentes e imutáveis no Brasil, mas é um documento importante, valioso e há inúmeras dicas e aconselhamentos didáticos de como apreciar e valorizar o corpo, dicas sobre a educação sexual, descritivos sobre tabus, como começar um diálogo, enfim, um roteiro básico bem cuidado.
A obra está dividida em 10 capítulos e mais prefácio de Camila Saraiva Vieira, a introdução e uma carta no posfácio. A autora inicia mostrando que a primeira conversa pode mudar tudo, isto é, “toda mulher – avó, mãe ou filha – pode aprender a se ouvir e a se libertar do que não foi dito” e nunca é tarde para iniciar esse diálogo. O tempo de acontecer a conversa quem marca é a pessoa, porém, não se trata de um tempo indefinido para sempre, precisa acontecer algum dia.
Realça que ela mesma (a autora) durante muito tempo achou que falar sobre sexo, prazer ou sobre o corpo feminino em si era uma “ousadia desnecessária” e cresceu acreditando que falar sobre o íntimo era se expor demais, correr riscos e até ser “malvista” por outras pessoas. Para doutora Cristina Sá “a ausência de diálogo sobre esse tema entre mães e filhas se transforma em um vazio emocional que deixa marcas profundas nos dois lados”.
Por posto, no primeiro capítulo a abordagem é sobre a educação sexual com a pergunta “a falta de educação sexual protege quem?”, eis a questão que responde situando que o preço da desinformação gera muitos problemas exatamente pela falta de diálogo, a vergonha e o silêncio, um terreno fértil para a desinformação que vem sendo ocupado pelos aplicativos das redes sociais e por pessoas que não conhecem o assunto em profundidade, tanto em relação à ciência, a anatomia do corpo, quanto das relações sociais e emocionais.
Explica que seu livro não representa “um tribunal e não tem o objetivo de condenar nem apontar dedo para ninguém e se trata de um “canal para compreendermos a herança que recebemos e carregamos mesmo sem querer, bem como uma ponte para decidirmos, juntas, o que vamos passar adiante para nossas filhas e netas”. Para a escritora “a educação sexual não antecipa o ato, ela antecipa o conhecimento”.
No capitulo 2 ela fala sobre a herança do silêncio ou quando ninguém diz nada, o corpo aprende a se calar e embora os paradigmas sobre sexualidade tenham mudado muito nas últimas décadas continuam marcados por ruídos e lacunas, e durante décadas livros, escolas e médicos tentaram preencher o vazio deixado pelas conversas que não aconteceram em casa, porém, “nenhuma fonte externa substitui o poder transformador de um diálogo verdadeiro entre mulheres da mesma família, com seus ritos e costumes em comum”.
No capítulo 3, a autora comenta ainda sobre o silêncio, a falta de diálogo e diz que “o que poderia ser uma ponte se transforma em muro, E, aos poucos, a criança que antes confiava em mostrar seus sentimentos começa a se esconder”. Para Cristina Sá “por mais preparada que uma mãe ache que está, sempre há perguntas que surgem de surpresa e desmontam, qualquer ensaio”, porém, há técnicas que podem se aplicar e uma delas é a devolução da pergunta a algo “que nos deixa sem não”. Nesse momento, ao invés de tentar dar uma reposta rápida e evasiva, o recomendável é devolver a resposta com calma: “O que você acha que é?” ou a clássica “Onde ouviu essa palavra ou questão?”.
Bem, eu não vou relatar capítulo a capitulo com detalhes até para não tirar o prazer de quem vai adquirir a obra da Editora Gente e darei as pinceladas finais neste comentário dizendo que o livro é recomendável, prazeroso de ser lido, sem limites de leitura tanto aberto para mulheres como para homens e é evidente que a sociedade brasileira evoluiu em comportamento, o ideal feminino do passado patriarcal de uma “mulher que nunca deveria falar sobre certos assuntos porque era feio ou vulgar”, uma mulher moldada para ser dona de cana e mãe cuja missão era educar os filhos e filhas, isso sofreu uma transformação muito grande diante das mudanças na sociedade.
E, a mulher, na atualidade, não só disputa o mercado de trabalho com os homens vis--a-vis. Como dialoga em igualdade de condições, disputa o poder político, é empreendedora, portanto, seu papel na sociedade se modificou bastante. Há, nesse contexto, um reaprendizado de amor ao corpo da mulher, em especial pela própria mulher, pois, segundo Cristina Sá “não existe empoderamento verdadeiro seu autoconhecimento”.
A ginecologista aborda ainda a questão mais atual da sociedade global, a substituição do conhecimento familiar pelo uso de algoritmo, dos aplicativos da internet que agem numa velocidade tal com plataformas que mostram tudo, que expõem questões que no passado eram tabus, tudo com um sentimento de segurança que é ilusório.
Trata-se, segundo a doutora Cristina Sá, de uma nova realidade e que as mães estão expostas, porém, “o que mais protege uma filha não é o bloqueio de um aplicativo, mas o desbloqueio de uma conversa”. Eis, pois, a existência de uma nova realidade uma vez que as telinhas existem e progridem numa velocidade muito maior do que as das mamães para o diálogo. Nada, no entanto, que não se possa ajustar e a conversa olho-no-olho ainda é o mais recomendável para um ajuste.
“O que sua mãe não te contou e você precisa contar para sua filha” é sugestivo e alertador.