Cultura

O SABOR DO PRATO CHEIO, UMA CRÔNICA GASTRONÔMICA, p NARA FRANCO

Nara Franco é jornalista
Tasso Franco ,  Salvador | 24/04/2026 às 14:25
Sabores
Foto: Nara Franco
         Nos anos 80, no finado Jornal do Brasil, o saudoso Artur Xexéo (editor do caderno de cultura) comandava o Perfil do Consumidor na Revista do JB. Era uma febre; afinal, quem não queria espiar as preferências dos famosos? Lembro-me bem de quando o humorista Bussunda, ao ser questionado sobre seu "prato preferido", respondeu de bate-pronto: "Cheio".

Para quem aprecia a boa mesa sem frescuras, essa é a única resposta possível. E tudo o que entendo de gastronomia resume-se a isso. Não sei cozinhar, fujo da labuta do fogão e, apesar de ter sido criada por uma avó que operava milagres na cozinha, prefiro o papel de espectadora e provadora.

Minha "nobre arte" baseia-se no achismo e no gosto pessoal. E, partindo desse paladar empírico, tracei aqui um breve mapa de sabores.

Rio de Janeiro e a feijoada

Conhecer uma cidade exige mergulhar em seus sabores. No Rio, a lição número um é a devoção ao feijão preto. O "arroz, feijão e bife" é a santíssima trindade das esquinas cariocas — da mesma forma que a Parmegiana se tornou, por algum motivo misterioso que nunca compreendi, item obrigatório em Brasília.

Mas a feijoada carioca tem uma força que pede samba, pede cerveja e pede calor (ainda que comer uma feijoada no calor seja uma luta). Pode-se comê-la em qualquer canto do país, mas em solo carioca ela é melhor. A

Outro destaque são os petiscos de boteco, que andam sendo descaracterizados pela gourmetização. Neles, a herança lusitana é viva:

Bolinhos de bacalhau (aqueles com a eterna disputa entre a batata e o peixe);

Acepipes mergulhados em azeite;

O icônico espetinho de queijo e presunto, batizado com o nome de "sacanagem";

O indefectível ovo colorido. Aquele rosa vibrante, tingido com beterraba, era o farol das vitrines de botequim. 

E os mineiros?

Se o Rio é o balcão, Minas Gerais é banquete. Minha passagem por Tiradentes confirmou: o torresmo mineiro não é comida, é um evento social. Existe um empate técnico entre Rio e Minas na arte de "beliscar", mas os mineiros vencem na quantidade e na variedade. 

Enquanto o boteco carioca herda a fartura das tabernas portuguesas, a cozinha mineira guarda o segredo das tropas: o feijão tropeiro, a barriga de porco e a cachaça para abrir os caminhos.

Já no Centro-Oeste, a lógica muda. Ali reina a "jantinha": aquele pratinho que tem de tudo um pouco (carne, feijão tropeiro, mandioca e vinagrete). Acho a ideia genial. E se em Goiás Velho falta, às vezes, um quê de criatividade no salgado, eles compensam com os doces cristalizados artesanais, vendidos em casarões que parecem parados no tempo. O pastelinho e o bolinho de arroz são capazes de consertar qualquer dia ruim.

E a Bahia?

Dei essa volta toda para contar que acabo de chegar de uma caminhada no Rio Vermelho, em Salvador. Parei no quiosque de Dinha, figura que elevou o acarajé ao status de patrimônio. Comi um abará e belisquei um acarajé: nota 10. Crocante, bem temperado e com camarões que não pedem licença.

Enquanto comia, senti saudade das baianas de tabuleiro da minha adolescência, aquelas que eu via nas andanças pela Avenida Centenário rumo ao Porto da Barra. Mas, apesar de baiana, confesso sem culpa: meu coração não bate forte pelo acarajé, embora o coma com respeito. O que me ganha na minha terra são as sutilezas:

O Pão Delícia: uma iguaria 100% soteropolitana;

A Malassada: carne batida e suculenta;

O Biju tostadinho e a farinha fininha, que mais parece um carinho no paladar.

O Veredito

Não me perguntem quem faz o melhor acarajé, se é Dinha ou Cira. Nem o melhor bolinho de bacalhau do Rio ou a melhor jantinha de Brasília. Hoje pode ser um lugar, amanhã outro. Essa disputa deixo para os críticos e guias turísticos.

Para mim, o que vale é a sinestesia. É o momento em que a gente fecha os olhos e sente o gosto preencher a boca e a alma. No fim das contas, a gastronomia não é sobre técnica ou estrelas Michelin; é sobre a memória que a gente guarda no estômago e o conforto que a gente leva na lembrança.