Cultura

ROSA DE LIMA COMENTA LEOBINO CARDOSO RIBEIRO, POR ABELARDO PALMA NETO

Reminiscências de Serrinha, uma obra da memória de um farmacêutico que fez história e foi história
Rosa de Lima , Salvador | 18/04/2026 às 10:11
Livro Leobino Cardoso Ribeiro, reminiscências de Serrinha, Abelardo Palma Neto
Foto: BJÁ
 

   Confesso que gosto muito de comentar obras regionais ainda mais quando se trata de personagens que viveram nos sertões da Bahia, nascidos no século XIX com trajetórias nas primeiras décadas do século XX, quando a sobrevivência nesses lugares era repleta de percalços, sobretudo para o homem comum. E, igualmente, com muitos obstáculos para os empreendedores, os nascidos em berço mais confortáveis, e que se dedicaram a cuidar da saúde das pessoas através da farmacologia, ciência experimental com uso de substâncias químicas.

   Vê-se, pois, que não é tarefa simples. Exigia-se conhecimento científico em estudos, o que só se conseguia em Salvador, a capital, e os farmacêuticos depois de formados praticavam seus conhecimentos nas farmácias, que, a rigor, eram os locais procurados pela população – dos ricos aos pobres – para tentar salvar suas vidas. E se os farmacêuticos errassem adeus pacientes.

   O livro que vamos comentar foi escrito pelo advogado Abelardo Pereira Palma Neto e se intitula “Leobino Cardoso Ribeiro – Reminiscências de Serrinha (VIVAZ EDITORA, RJ, 2026, 162 páginas, capa Andreia Villar, crônicas, diversas fotos do acervo da família, R$50,00 no portal da Editora) o autor, bisneto do biografado. A obra está dividida em duas partes: a primeira um relato biográfico bem documentado e a segunda crônicas com enredos ficcionais com base em fatos ou acontecimentos envolvendo o biografado e Serrinha.

  No fundo, trata-se de um livro de memória, valioso, bem escrito e documentado, belas e emblemáticas fotos do personagem principal, de sua família e de auxiliares que trabalharam na Farmácia Probidade, de sua propriedade, e que marcou época na Serrinha dos primeiros 50 anos do século XX.

   Leobino - parente dos primeiros intendentes de Serrinha - Marianno Sylvio Ribeiro (1º intendente (1890-1893) e primo de Leovigildo Ribeiro (4º intendente 1900-1903) era, portanto, filho de família das mais tradicionais da localidade - os Cardoso Ribeiro - da linhagem do fundador do povoado Bernardo da Silva (1723) e nasceu em 24 de agosto de 1881 quando a sede do município ainda era vila emancipada de Irará há apenas 5 anos (1876). Ou seja, veio ao mundo, no momento de intensa ebulição politica na localidade e mudança em sua economia e vida social com a chegada do trem, em novembro de 1880.

   É nesse trem e graças a linha férrea instalada ainda no tempo do Império por Dom Pedro II entre Salvador e Serrinha, depois até Juazeiro, que Leobino ainda jovem estuda no Ginásio São Salvador, na capital (1895 a 1898) diplomando-se em farmacêutico na Faculdade de Medicina da Bahia, em 1901. Seu destino, no entanto, era a sua querida Serrinha e retorna à cidade, a essa altura tinha ganho o status de cidade (30 de junho de 1891) para fundar a Pharmacia Probidade, que esteve sob seu comando durante 44 anos (1903-1947), quando faleceu.

   Aos olhos de hoje com facilidade de transporte para todos os locais do planeta, é possível sair de Serrinha à tarde e chegar em Lisboa, Portugal, no dia seguinte, pela manhã, mudar-se de Serrinha aos 14 anos de idade no final do século XIX para Salvador estudar o ginasial era uma epopeia, um menino que deixava a família para mudar do sertão, de hábitos de vida que se assemelhavam a uma roça, para a capital através da “Chemin de Fer”, onde os primeiros bondes ainda puxados a burro rodavam na cidade baixa.

  Vê-se que. independente da condição financeira da sua família, que era excelente, uma vez que poucos serrinhenses nessa época iam estudar em Salvador, havia na cabeça do estudante e na concepção familiar o desejo e a determinação de obter conhecimentos científicos.

  Poderia Leobino ficar em Salvador que era o centro do poder estadual e o meio intelectual das artes e das ciências. Ele, no entanto, retornou a Serrinha e dedicou-se a Probidade durante 4 décadas e fez história, não somente na vida cultural e cientifica da cidade, mas, também, no campo da política, pois, seu descendente direto o filho José Villalva Ribeiro foi prefeito em duas ocasiões (1943-45), nomeado pela ditadura de Vargas; e prefeito eleito (1951-1955) e seu genro, o médico queimadense André Negreiros Falcão casado com sua filha Maria Dalva foi deputado estadual por várias legislaturas, líder do PSD na Assembleia, fundador da Escola Bahiana de Medicina, o qual comandou a política serrinhense durante 40 anos e deixou sucessores com Plinio Carneiro da Silva, no comando por mais 40 anos.

  Ou seja, a herança politica de Leobino/Vilalva/André/Carneiro durou 80 anos entre 1930/1960 e 1970 (com Aluisio Carneiro da Silva) a 2000 (com Paulino Alexandre Santana, Popó) último prefeito desse ciclo, que era filho de Paulino Santana, farmacêutico prático forjado nos laboratórios da Farmácia Probidade com alguns raros intervalos no poder quando Lourinho, Carlos Mota e Ferreirinha também estiveram no comando da Prefeitura.

   Conta o autor que “o ano de 1908 é muito importante para Leobino. Em 4 de julho de 1908, casou-se com Leontina Martins Villalva, nascida em Minas Gerais. () Era a mais velha das três irmãs que ficaram órfãos ainda na infância quando passaram a viver em São Paulo, tutelados pelo avô paterno, engenheiro civil Saturnino Francisco de Freitas Villalva () Leontina veio a Bahia com a irmã Leonor casada com Abilio Garcez Paranhos” quando conheceu Leobino e dessa união nasceram os filhos Lourival, Maria Dalva, Berenice, José Villalva, Adherbal, Yvonne, Nicia, Almira e Vanda.

   Uma árvore serrinhense que foi abrigada, cresceu e se multiplicou a partir do sobrado da família inaugurado em 1915, uma construção do neoclássico das mais belas de Serrinha, erguida no Largo da Matriz, ao lado da igreja de Senhora Sant’Anna.

   Dos laboratórios da Probidade e dos salões do sobrado Leobino atuava na politica como vice presidente do Conselho Municipal de Serrinha atuando na indicação do genro André Falção, casado com Maria Dalva, prefeito nomeado por Vargas (1930/1936) e depois eleito (1938-1938) deputado estadual por 5 legislaturas a partir de 1946.

   Leobino morreu em 1947 e ainda teve a oportunidade de assistir a posse de seu filho José Villalva prefeito nomeado por Pinto Aleixo entre 1943-1945 e depois prefeito eleito entre 1951-1955.

   José Villalva que também era farmacêutico e Leontina, sua esposa, deram continuidade a Probidade e duas figuras se destacaram nesse processo, Antenor Miranda, farmacêutico prático, e Paulino Santana, outro jeitoso prático querido da família, que, com a morte de Leontina, em 1962, inicia sua trajetória como proprietário de sua própria farmácia que teve à frente outra valorosa mulher, Lindaura, no comando do empreendimento.

   É dessa árvore politica que emergem Plínio Carneiro da Silva e seu irmão Rubem, ambos deputados vinculados ao vianismo, porém, “filhos” da matriz pessedista de Leobino/André Falcão que elegem o irmão Aluizio Carneiro prefeito em dois mandatos 1971-1973 e 1977-1983; Mariano Santana 1973-1977; Josevaldo Lima (1983-1988) e Paulino Santana (1989-1992) só quebrando essa corrente (em parte), em 1992 com eleição de Ferreirinha.

   E é no governo de Mariano, Roberto Santos governador da Bahia nomeia Ivete Oliveira, serrinhense filha de Manoel Geraldo e Alzira (irmã de Leobino) secretária do Trabalho e Bem Estar Social que determina a construção em Serrinha do Estádio Municipal de Futebol (hoje, conhecido como Marianão) e o Centro Social Urbano, ao qual deu o nome de Maria Dalva, esposa de André Falcão.

  Observem, pois, que a corrente politica era duradoura e sólida trincada com a decisão de Josevaldo Lima, sobrinho de Plínio, em trilhar caminho próprio desvinculado do tio e do pessedismo de Leobino/André, o filho de André, André Ney tentou se inserir na politica mas não conseguiu êxito; os filhos de José Villalva também não (Geraldo Villala se tornou um grande jornalista e hoje mora nos Estados Unidos, e sua filha com Regina Cely (outra jornalista) Ana Virginia Villava é jornalista e trabalha na Secom, Prefeitura de Salvador; e outro filho deste casal é publicitário) e o pessedismo se desfez.

  Porém, mesmo assim, ainda, com a ascensão do PT, na eleição de 2008, com Osni Cardoso. Este, já no segundo mandato compôs com as correntes tradicionais em Serrinha e, em 2016, o filho de Josevaldo, Adriano Lima é eleito prefeito em dois mandatos e passa o bastão para seu candidato Cyro Novais (MDB), noutra configuração, noutro formato, numa mistura de bolsonarismo com petismo, que não tem nada a ver com o pessedismo de Leobino/André/Plínio.

   O livro “Leobino Ribeiro -reminiscências de Serrinha” tem esse elo político. Abstraindo-se esse lado, e voltando ao empreendedorismo e a vida social e cultural da cidade nos primeiros 50 anos do século XX, Palma Neto também oferece poesia, lirismo, altruísmo, em sua obra e quando mostra a foto de Ivonne montada num cavalo a caminho da escola e outra foto ao lado das alunas, bem como da mesma personagem usando o telefone castiçal da família, eis, pois, a vida em preto e branco como se apresentava naquela época, de amor à causa, de respeito, de gratidão e dos costumes. 

  E há muitas outras fotos da família e da vida da cidade, raríssimas como as da festa da cumieira da Estação Sericicultura e de sua inauguração, do interior da farmácia com suas personalidades, do campo de aviação com avião, de um recibo da “Uzina de Luiz e Força”, de 1938, assinado por Querino dos Santos Passos, da Matriz de Sant’Anna e da Pharmácia, da década de 1920, enfim, imagens memorialísticas importantíssimas e que mostram como era a vida social na cidade.

   Nos contos o autor dar asas a imaginação, claro com tons mais soltos, uma vez que Lampião não atacou Tucano – fez uma visita amigável -  e nem saqueou Araci, onde nunca esteve, mas, é certo que barbarizou Queimadas, fala do Maracassumé, da Sericicultura, da Uzina de Energia (ainda se escrevia com z) e produz uma obra fantástica da Serrrinha tendo como base a história de Leobino Cardoso Ribeiro.