Cultura

ROSA DE LIMA COMENTA "O CAPOTE E OUTRAS HISTÓRIAS" DE NIKOLAI GÓGOL

Nikolai Gógol é considerado um dos grandes escritores da Rússia da safra século XIX
Rosa de Lkima ,  Salvador | 28/03/2026 às 10:34
O capote, de Nikolai Gógol
Foto: BJÁ

  O que mais admiro nas narrativas gogolianas é o refinamento da linguagem, a arte de contar histórias de maneira simples - entendível a qualquer mortal - e ao mesmo tempo com leveza, delicadeza, sutileza, o que é próprio desse autor. Nikolai Gógol (1809-1852) escritor do Império Russo nascido em área que integrava a Ucrânia, autor do clássico e seu mais famoso livro no Brasil “Taras Bulba” é considerado um marco na literatura russa do século XIX, uma espécie de matriz para os rumos futuros, um inovador na linguagem.

   Viveu e produziu sua obra durante o auge do regime czarista na Rússia. Embora muitas vezes fosse interpretado como um crítico da burocracia e da corrupção, Gógol teve uma relação complexa e até de defesa do czarismo em seus últimos anos de vida. No meio intelectual era visto e considerado czarista. Gógol viveu sob os reinados de Alexandre I e, principalmente, Nicolau I, um período marcado pela servidão, forte burocracia e censura na Rússia.

    Suas obras, como “Almas Mortas” e “O Inspetor Geral”, satirizaram a corrupção, a ineficiência burocrática e a mesquinharia dos nobres e funcionários públicos da Rússia czarista, mas, nunca foi (nem se comportou) como um crítico mordaz e pertinente ao regime, como alguns escritores russos daquela época e que foram presos, alguns levados a Sibéria e outros mortos. Mas essa é outra história que não sabe narrar aqui.

   Vamos comentar o livro intitulado “O Capote – e outras histórias (EDITORA 34, tradução de Paulo Bezerra, 3ª edição, 2025, imagem da capa a partir da pintura de Paulo Goeldi, 220 página, R$59,75 no portal Amazon) que reúne cinco dos seus fantásticos contos “O capote”, “Diário de um Louco”, “O nariz”, “Noite de Natal” e “Viy”. Por consenso de leitores que já tiveram oportunidade de lê-lo “O capote” e “O Nariz” são os melhores, no sentido mais geral. Embora, cada um deles, tenha suas próprias características e ambientações.

  Vale observar que, como todos as narrativas foram feitas nas primeiras décadas do século XIX (o autor morreu jovem aos 43 anos de idade, em 1852). o contexto se dá nesse período povoado das lendas da Ucrânia com elementos de terror e humor, sobretudo o conto “Noite de Natal” que revela muito das tradições ucranianas. Como Gógol viveu em Petesburgo e Roma; e transitou por Alemanha, França e Palestina, além de ser um realista discípulo de Alexandre Puchkin, era um escritor que vivia a contemporaneidade de sua época e não se apegava ao passado.

  Ou seja, coloca suas lembranças ucranianas dentro de uma realidade em que vivia e se encontrava a Rússia, algo como ilustrativo, porém desviar o foco no que quer traduzir que era a realidade do país em que vivia – a gente, as instituições, o governo, o modo de vida, a cultura. Enfim, foi um grande escritor do realismo, tendo a ficção como sua arma. “O Capote” e “O Nariz” são traços refinadíssimos e mordazes dessa cultura.

  Escrevia em russo e no conto “O Capote” que dá título a este livro que estamos a comentar é severo e cáustico na critica a burocracia russa. Começa assim: “No departamento...arre, é melhor não mencionar o departamento. Nada há de mais ofensivo que toda essa variedade de departamentos, chancelarias, regimentos, em suma, toda sorte de repartições públicas. Hoje em dia qualquer indivíduo acha que tocar no seu nome já significa ofender toda a sociedade”.

   Mordaz, Gógol introduz seu personagem num desses departamentos de Petersburgo como um baixote, “tinha algumas sarnas de bexiga no rosto, era um pouco arruivado, com miopia um pouco pronunciada, uma pequena calvície na fronte, ambas as faces enrugadas e o semblante com uma daquelas cores a que se pode chamar de hemorroidais...Mas, o que se há de fazer?! A culpa é do clima de Petersburgo. Quanto a categoria funcional (porque entre nós é preciso anunciar antes de tudo a categoria funcional) era ele aquilo que se chama de eterno conselheiro titular, que como se sabe é alvo de galhofas e chacotas”.

  O leitor pode perceber as ironias contidas nessa inicial desde a discrição do personagem, que muito se assemelha a burocratas do serviço público mundiais, ainda hoje, categoria funcional apaniguada, certamente posto no cargo pela politicagem, e o fato de que, presumivelmente sente-se importante (afinal de contas é um conselheiro titular), mas objeto (na real pela população) de galhofa, de escárnio. O texto é atualíssimo se olharmos para alguns burocratas brasis ainda nos dias atuais.

   Ao personagem ele dá o nome de Akáki Akákievitch, o qual ao sentir dores nas costas diante do frio que faz em Petersburgo descobriu “que em dois ou três lugares, justamente nas costas e nos ombros, o tecido virara estopa: estava transparente de tão gasto e o forro desfiara. () É preciso dizer que o capote de Akáki era também objeto de galhofas na repartição. () Tiraram-lhe, inclusive o nobre nome de capote, substituindo-o por roupão”.

   Resolve, então, levá-lo a um alfaiate (Pietróvitch) para remendos e o profissional da costura diz que seria impossível remendá-lo e o melhor seria moldar um capote novo. A questão é que Akákai não tinha recursos para fazer um novo capote que custaria mais de 160 rublos. O personagem, no entanto, se esforça e consegue os recursos depois de grande trabalho e decide confeccionar o novo capote.

  Eis, nesse interim, como autor revela a vida do servidor – vida regrada, sofrida – pois, o mesmo, durante anos de trabalho guardava meio copeque para cada rublo que gastava, “depositando-o numa pequena caixa fechada a chave e com uma abertura na para a moeda. Um mealheiro, pois, com recursos que programara para gastá-lo no final da vida, no combate a possíveis enfermidades e nas custas funerárias. Não queria deixar despesas para ninguém. Aliás, nem tinha para quem deixa-lo. Akáki era solteirão, assim deixa entender o autor.

  Capote confeccionado e em uso, elogiado pelos colegas da repartição, o infortúnio bate à sua porta logo dias depois quando furtam-lhe o capote. Logo num dia em que o experimentava, na rua, desafiando o frio de Petersburgo, um grupo de homens o assaltam e levam-lhe o capote.

  “Acontece que este capote é meu!” – disse um deles com a voz troante e agarrou Akáki pela gola. Este quis gritar por socorro, mas um outro esfregou em plena boca o punho do tamanho da cabeça de um funcionário, acrescentando: “Inventa só de gritar”, narra o autor acrescentando que Akáki “sentiu como lhe tiraram o capote, deram-lhe uma joelhada e ele caiu de costas na neve sem nada mais sentir”.

  A partir desse momento, o conto ganha nova dimensão, pois, a história do roubo do capote comoveu muito dos colegas (aqueles que zombavam do servidor público) e aconselha-o a procurar o Inspetor de Polícia, uma vez que não tinham recursos para fazer uma “vaquinha” e dar-lhe um novo capote. Mais ironia: vaquinha tinha sido feita, recentemente, para colocar a foto do diretor num quando e expô-la na repartição. (Qualquer semelhança com o se faz, hoje, no Brasil é mera coincidência).

  Nesse contexto, o autor aprofunda suas criticas ao sistema burocrático da Rússia, uma vez que Akáki foi direto falar com o Inspetor e recebe uma reprimenda. – Meu caro senhor não conhece o regulamento? Não sabe onde se encontra? Como se encaminham as coisas? O senhor deveria ter antes apresentado uma solicitação à repartição, esta o enviaria ao chefe da seção, ao chefe do Departamento, depois ao secretário e então o secretário passaria para mim, alerta-o o Inspetor.

  - Mas Excelência – Akáki procurava reunir toda a pequena fração de presença de espírito que lhe restava, sentia que estava terrivelmente suado - Excelência, tive a ousadia de importuná-lo porque esses secretários são aquilo...uma gente pouco confiável...

  - O que? O que? O que? – disse o figuraão – de onde vêm essas ideias? () O senhor não sabe com quem está falando? Será que não compreende diante de quem se encontra?

   Akáki se sentiu tão mal que no dia seguinte estava de febre alta e dias adiante entregou a alma a Deus. “Não lacraram nem o seu quarto, nem os seus pertences, porque, em primeiro lugar não havia herdeiros; e em segundo, a herança era pouca demais, resumindo-se a um rolinho de penas de ganso, cinco cadernos de papel timbrado branco, três pares de meias, dois ou três botões de calça e o velho roupão já conhecido dos leitores”.

  O autor, também a partir desse episódio (a morte de Akáki) e sua ausência na repartição, só sentida dias depois quando souberam que havia morrido, de repente, Petersburgo foi tomada por rumores de que nas proximidades da ponte Kalinkin e bem mais adiante começara a aparecer um defunto com aspecto de funcionário a procura de um capote que haviam lhe roubado.

  O conto cresce em imaginação, ficção de uma qualidade admirável, os conselheiros titulares das repartições ficam sujeitos a graves resfriados por causa dos capotes que estavam sendo retirados das pessoas e a Policia recebe a ordem de prender o defunto a qualquer custo. Um guarda quarteirão quase consegue prendê-lo e Akáki (já defundo) se vinga ao Inspetor (o figurão) tomando-se o seu capote quando o dito vai visitar uma amante (Carolina Ivãnova) no outro lado da cidade.

   Assim narra o autor: - De repente (usando um trenó) o nosso figurão sentiu que alguém o agarrava pela gola com bastante força. Voltando-se, viu um homem de baixa estatura, num uniforme velho e surrado, e não foi sem pavor que reconheceu Akáki Akákievitch. () O funcionário tinha o rosto pálido como a neve e parecia um defunto de verdade”.

  - Ah! Até que enfim! Até que enfim foi te...aquilo...te agarrei pela gola! É do teu capote mesmo que estou precisando! Não intercedeste para encontrar o meu e ainda me repreendeste – então agora me dá o teu!

   Bem, não contar o restante porque senão vocês podem desistir de lerem o livro de Gógol. Quem ama a literatura é recomendável lê-lo. Em “O Nariz” o autor é ainda mais criativo e apresenta um personagem que, simplesmente, perde o nariz e se apavora com isso, busca um novo nariz e o encontra noutros personagens. É de um realismo fantástico fenomenal.

  Livro, pois, indispensável aqueles que têm bom gosto pela leitura.