Voltamos a falar de autores estrangeiros e abrimos a cancela 2026 com o libanês Nassim Nicholas Taleb velho conhecido nosso. Aqui já comentamos de sua autoria – Antifrágil – coisas que beneficiam o caos – uma crítica muito bem direcionada sobre as fragilidades que os humanos enfrentam no mundo contemporâneo com os espertos virtuais e os marketeiros de ocasião ávidos em bater sua carteira de notas.
E mais, comenta sobre fraudes e mecanismos on-lime onde quem se ilude com especialistas e politicamente corretos acabam se dando mal. E Taleb, numa obra bem embasada mostra como se livrar (ou ao menos tentar de livrar) dessas fragilidades e tocar suas vidas sem sobressaltos, sem cair nessas armadilhas.
Vamos comentar sua obra mais famosa e ainda atual, anterior a Antifrágil, intitulada “A Lógica do Cisne Negro” – o impacto do altamente improvável, gerenciando o desconhecido (EDITORA BEST SELLER, RJ, 6ª EDIÇÃO, 459 páginas, 2012, tradição de Marcelo Schild, capa Sense Design, R$50,00 nos portais) que, de fato, foi a obra que deu visibilidade internacional a Taleb como um dos grandes polemistas da atualidade.
Um herói sem causa (assim interpretamos nós) e que aborda um tema bem conhecido de todos nós, a sabedoria humana, com o detalhe: - A lógica do Cisne Negro torna o que você não sabe mais relevante do que aquilo que você sabe.
Noutras palavras ou palavras mais limpas, mais transparentes: é uma lógica também denominada “dinâmica da incerteza” onde “sábios” e “especialistas” de toda natureza querem enfiar por sua goela abaixo coisas, projetos, ideias, conceitos, etc, que eles consideram que são os adequados, os melhores, os mais felizes, os politicamente corretos e se você assim não compactuar, assim não se comportar aceitando o que eles determinam, você (em tese) é um idiota, um ultrapassado, um conservador, e por ai vai.
O que Taleb produz no livro são textos esclarecedores exatamente alertando para que você não entre nessa de cabeça, sem refletir, sem analisar os prós e os contra, senão quem se ferrará (100% quase em certeza) será você.
O Cisne Negro, portanto, é uma miragem, um engodo, uma subversão da ordem e tem muita gente (e empresas) que acabam se tornando cisnes negros, algumas se dão bem no especulativo momentâneo, alguns intelectuais conseguem trafegar anos sem serem molestados (até quando são desmascarados) e os casos e ou rombos, as fraudes, as perdas são grandes, quedas em bolsas de valores acontecem, tudo emanado das fórmulas mágicas desses gurus (ou Cisnes Negros).
Eis, portanto, a base do livro: como gerenciar o improvável, o desconhecido.
O livro é denso, estruturado em duas partes e dezoito capítulos, bem escrito, com imensa bibliografia, contendo dados, fatos, história, nada empírico ou baseado no empirismo filosófico.
A cada análise de um acontecimento Taleb faz um contraponto levando em consideração seus conhecimentos como profissional da área financeira, operador na Bolsa de Chicago, operador de derivativos em NY, decano de Ciências da Incerteza da Universidade de Massachusetts. Portanto, não é um charlatão, um alienígena, nem um new guru de oportunidades. Nada disso. O que fala tem embasamento, tem fundamento, embora, também, não se deva segui-lo de olhos fechados. Nem ele pede isso. Faz, apenas, alertas e quem quiser que os analise em detalhes e tome decisões.
No prólogo, adverte: “Este é um livro sobre incertezas; para o autor, um evento raro equivale a incerteza. Essa declaração pode parecer forte – que precisamos estudar principalmente os eventos raros e extremos para que seja possível decifrar os eventos comuns. Existem duas formas possíveis de abordar fenômenos: a primeira é excluir o extraordinário e nos focarmos no normal; e a segunda é preciso considerar os extremos. () em síntese: - O platonismo é o que faz com que achemos que compreendemos mais do que realmente compreendemos”.
Eis, pois, o fulcro da questão (e do tema central do livro). Esclarece o autor: ”A obra platônica é a fronteira explosiva onde a mente platônica entra em contato com a realidade confusa, onde o que sabe e o que acha que sabe torna-se perigosamente amplo. É aqui que o Cisne Negro é gerado”.
Explicação adicional dada pelo autor está no sub titulo (Não quero ser um peru) quando diz que “o ceticismo filosófico não é exatamente a missão deste livro. Se a consciência do problema Cisne Negro pode nos levar a abstinência ao ceticismo extremo, sigo aqui a direção exatamente oposta. Estou interessado em feitos e no empirismo verdadeiro. Assim, o livro não foi escrito por um místico sufi, nem por um cético no sentido antigo ou medieval, nem mesmo (como veremos) em um sentido filosófico, mas por um praticante cujo objetivo principal não é ser trouxa nas coisas que interessam, e ponto final”.
Cita, por exemplo, que durante a arrogância científica dos anos 1960, médicos olhavam com desdém para o leite materno, considerando-o algo primitivo, como se pudesse ser produzido pelos laboratórios, “sem perceber que o leite materno pode incluir componentes úteis que poderiam ter elucidado a compreensão cientifica deles”.
Taleb diz que muitas pessoas pagaram o preço dessa inferência ingênua: descobriu-se que os que não foram amamentados na infância corriam o risco de sofrerem um risco maior de uma série de problemas de saúde, incluindo uma maior chance de desenvolver certos tipos de câncer. Conclusão do autor: “A medicina causou muitos danos no decorrer da história por conta desse tipo simples de confusão dedutiva”.
Esse é apenas um dos inúmeros exemplos da aleatoriedade citados pelo autor. Um dos pontos ou destaques do livro está associado a narrativas. Ou seja, como as pessoas, os consumidores, os normais, os investidores, etc, etc, se encontram ou se veem diante de narrativas da mídia, hoje, on-line sobre fatos, projetos, conflitos e assim por diante. Ou como identificar o que é especulativo ou sensacionalista, etc, etc, e até lá, até que essa identificação do real seja processada muitos podem perder dinheiro, podem afundar empresas e assim por diante, acreditando e apostando de olhos fechados na incerteza achando que estavam investindo na certeza.
Cita o autor, o caso da captura de Saddam Hussein, em 2003 quando a Bloomberg News exibiu a manchete: “Títulos do Tesouro dos EUA sobem; captura de Hussein pode não conter terrorismo”. No momento em que há a difusão desse tipo de informação ocorre uma movimentação do mercado. E isso se deu nos EUA e os editores do BN encontraram uma “nova razão” e meia hora depois de dada a primeira manchete, publicaram a segunda: “Títulos do Tesouro dos EUA caem; captura de Hussein aumenta a atração de recursos de risco”.
Era, portanto, a mesma captura (causa) explicando um evento e seu oposto exato. Isso vem acontecendo o tempo todo, na atualidade, como centenas de fatos ao redor do mundo, a mídia (quase sempre) oferecendo a causa” supostamente concebível e aceitável.
Eis, onde mora o perigo, especialmente para aqueles que aceitam esse tipo de informação sem uma análise mais detalhadas, mais pensadas, e pode haver correrias variadas a depender da informação, algumas delas envolvendo perdas (e ganhos) financeiros e outros. As vezes (ou muitas vezes) isso afeta a vida de pessoas comuns que não têm nada a ver diretamente com os fatos, mas pegam a sobra ou rebarba.
Vê-se com frequência essa dimensão quando um candidato político perde uma eleição e logo aparecem as causas dos descontentamentos dos eleitores. E, embutidos nesse contexto, a análise (ou frase) “vocês vão pagar um preço por isso”. Essa generalização, no entanto, na prática, nem sempre acontece. Mas, apressados se desfazem de negócios e mudam até de países.
A “Lógica do Cisne Negro” tem esse enredo, essa conduta, um livro que poderia chamar de “advertência” ou “cuidado ao gerenciar o desconhecido”, muito comum nos dias atuais, dos inúmeros golpes on line (virtuais, não se sabe quem pratica na maioria das vezes) e que estamos sujeitos diariamente. Em princípio, diria, use uma prática bem antiga do tempo dos nossos avós: - Desconfie sempre de ofertas maravilhosas. Taleb mostra isso em sua obra com inúmeros exemplos.