Integra o livro Salvadores que está sendo publicado no www.wattpad.com
Tasso Franco , Salvador |
27/02/2026 às 15:41
O frade Diogo vendo de sua janela os navios dos batavos
Foto: Seramov
6. O FRADE, OS SINOS E OS CANHÕES DOS BATAVOS
O sino da catedral o irritava muito toda vez que tocava. Era como se o estivesse conduzindo a um despenhadeiro aquele badalar ruidoso. A repetição dos sons provocava-lhe imagens alucinantes, mas, também, tinha um aparente lado compensatório e ajudava-o a devanear, sonhar, conceber na imaginação muitas coisas.
O quarto onde vivia o frei Diogo era apertado, pequeno, porém, limpo. Assemelha-se como os demais do local como uma cela de prisioneiro. Dizia ser um prisioneiro de Deus e estava no Convento da Sé há alguns anos, muitos janeiros. Ao que se lembra chegou quando Salvador ainda era uma cidade provinciana lá pelos idos dos 1980 e se acostumara tanto com a rotina do local, o serviço prestado a Deus e aos monges, servindo-os na cozinha e no altar, que não imagina sair dali nunca mais.
Talvez para visitar a família em Maragogipe, onde nascera e passara a infância, com lembranças muito vagas e distantes que foram apagadas com o correr do tempo, apreciar o casario de Cachoeira na viagem de passagem, transitar pela ponte de ferro do imperador Pedro II, ver correr lentamente as mansas águas do Rio Paraguaçu e sentir o ar renovado da vida, ar fresco e não abafado como o do convento, mesmo no grande pátio.
Mas nem isso tinha mais vontade. Os seus mais próximos, pai e mãe já tinham falecidos, dois irmãos foram embora para o Paraná em busca de melhores oportunidades de trabalho e a irmã mais nova caíra no vicio do fumo, das drogas e tinha sido morta.
Imaginava em sua longeva e embaçada memória que só lhe restavam, em Maragogipe, alguns amigos contemporâneos da Escola Dom Bosco, o local e a casa onde nascera que não saberia dizer se ainda era a mesma com varandado no fundo que dava a vista para o Paraguaçu, a padaria da Esquina do velho Godô, que a essa altura já deveria ter falecido, lembranças rarefeitas.
Então, diante disso, não tinha o menor entusiasmo nessa viagem.
O irritante badalar dos sinos é que lhe conduzia a esses pensamentos tolos, sem sentido, e o melhor era se aquietar aonde estava, sem esses devaneios e se dedicar a missão divina como um soldado se prepara para ir a guerra na tarefa de defender o seu país.
Diogo não crescera no convento no plano teológico. Não se dedicara aos livros como Conrado e seu nome não estava relacionado na lista dos sábios, doutores da igreja.
Havia, além de Conrado, Ivan, Elias, Nestor, Graciliano e Pânfilo que dominavam o saber; e acima de todos o abade Eujácio, SJM, biblista, conhecedor profundo das glórias e anátemas do Novo Testamento.
Diogo dedicara-se ao saber gastronômico, nisso era imbatível, insuperável. Conhecia como poucos na cidade do Salvador as texturas das folhas comestíveis – alfaces, agriões; o viço das verduras, a combinação dos temperos, as carnes, os toucinhos. Havia o frade Borega - seu assistente na cozinha - que se aproximava em saber na boa mesa, mas, como também era o musicista do convento tinha que estudar música, aperfeiçoar-se na arte de tocar aquele instrumento com tantos pedais e carrapetas, e este não se dedicava às panelas tanto quanto Diogo.
A vida tem que ser entendida nesse conceito – pensava Diogo - como a função “militar”, de soldado de Deus, como alguém que vai à batalhas e está preparado para enfrentar as adversidades, sem perder a ternura e sem se apavorar com os desafios. Mas, claro, uma guerra invisível, pois, novos inimigos não invadiram o convento como fizeram os hereges holandeses no século XVII. Salvo, evidente, lúcifer, aqueles que está sempre com seu tridente em chamas pronto para atacar.
Ao servir os monges, diariamente, com refeições de qualidade, creia em Deus, cumpria bem a sua missão, cada qual dentro do seu espaço. Enxergava-se assim, pleno de responsabilidade e respondendo a esse mister a contento. Ninguém reclamava do sabor de sua comida, salvo o monge Graciliano, o qual sempre queria um pouco mais do programado.
Aprontar um lombo recheado para 40 pessoas número total de monges e auxiliares que desfrutavam das suas panelas era também uma tarefa divina porque não serviria um produto qualquer, sem sal, sem o tempero adequado, e sim algo suculento, saboroso, de deixar os monges a desejar renovações dos pratos, mas, sabemos todos, a gula é um pecado capital a comida servida no convento era para se comer bem e a pessoa sentir fome.
Essa, aliás, é a recomendação dos médicos e nutricionistas para se manter pessoas saudáveis, dentro do peso e fora da obesidade.
O abade, talvez pela idade, parecia um pouco gordo, beirando a obeso. Adorava um pudim e Diogo era mestre no pudim de coco e para sua santidade oferecia sempre porções mais generosas e ainda lhe levava merendas por debaixo do pano.
Foi numa dessas visitas que pediu para acalmar os sinos, que o abade usasse do seu prestígio, a força política do seu cargo e falasse com o deão para maneirar e não cumprir ao pé da letra o badalar que fora determinado em lei aprovada pela CMS a pedido de um vereador chamado Fernando Vita, ex corinha, acostumado a ir a Europa e por lá ouvir sinos a tocar nas praças para agradar aos turistas.
A lei surgiu dessa ideia. Salvador que recebe muitos turistas poderia, senão ter carrilhões de sinos como os famosos sinos de Munique, ter algo assemelhado com bronzes badalando em todas as igrejas do centro antigo.
Em pronunciamento na CMS, quando da defesa da nova lei o edil Vita propagou em voz alta que o “carrilhão histórico situado na torre da Nova Prefeitura, na Marienplatz, de Munique, a praça principal do centro histórico daquela urbe reunia gente à mancheia, diariamente, só para ver um grande relógio mecânico construído em 1908 que, ao tocar, ativa 43 sinos e 32 figuras em tamanho real que encenam cenas históricas. E, Salvador, não poderia ficar atrás”.
Mas, Salvador não tem nada disso. Próximo do convento há a catedral e o Terreiro de Jesus e o local que junta mais gente neste sítio histórico é o Bar Cravinho que vende uma apetitosa cachaça com cravo da Índia. Adiante, à montante, está a igreja de São Pedro dos Clérigos ao lado da Cantina da Lua com seu som de viola, e logo depois o Bar e Restaurante Ó Paí Ó com seus grupos que interpretam sambas. Mais à frente, vê-se o templo para São Domingos de Gusmão e seus bronzes enormes; e no decorrer do andar atinge-se o Cruzeiro de São Francisco onde está a igreja do ouro, dos franciscanos e de um frade folclórico que anda de chapéus de couro na cabeça, ridículo, e esses tempos ficam a zoar sinos que, são para infernizar sua vida e de outros pensadores e só servem para assustar os pombos.
Chegou a hora de por fim a isso. A cidade quer paz, silêncio, langor. Da estreita janela de sua cela o frade vê apenas um trecho da Rua da Misericórdia e uma nesga do mar da Baía de Todos os Santos e, às noites, em contemplações, percebe um pontinho de luz no horizonte distante. É nesse quadrado que consome seus dias. Há o convento, os corredores, a cozinha, a nave onde os fiéis veem para assistir às missas, comungar, orar, onde ele também marca a sua presença, sobretudo aos domingos, mas é no espaço de cela que concentra a sua alma, a sua plenitude do ser.
Os pontinhos no mar que em noites seguidas enxerga fica a imaginar serem as naus de Thomé de Souza que chegam de Portugal para fundar a cidade, repleta de artífices, dos burocratas, dos homens em armas e das autoridades; ou negreiros que partiram da cosa da África repletos de escravos que vão servir de mão-de-obra para por os alicerces dos edifícios em pé.
Eram pensamentos que povoam a sua imaginação porém sabia que a cidade já estava de pé, que não navegam mais negreiros e nem Thomé poderia ressuscitar, mas, ele insistia nisso, e igualmente temia uma nova invasão dos batavos da Holanda, os ruivos, os sedentos de sangue, e ele estaria ali, sim, para lutar, para enfrenta-los....mas eles nunca chegavam e as noites iam se passando naquela cela, cela livre por que de dia poderia ir a cozinha, colher couves na horta e laranjas no pomar, ir ao Terreiro de Jesus, visitar o centro da cidade, mas tinha deixando de lado a vida na Misericórdia, na Ajuda, na Rua Direita do Palácio, na Capitães, na Tijolos, e não saberia dizer o que nelas havia mudado, se a livraria Civilização Brasileira ainda era o ponto dos intelectuais, se poderia consertar os seus óculos na Viúva Neves, eram pensamentos que passavam por sua cabeça.
Certa ocasião o abade Eujácio sentiu o abatimento no andar do monge Diogo, a tez amarelada, o semblante caído e triste, a coluna encurvada, as mãos trêmulas o que parecia adoentado, abatido e chamou-o num canto do corredor que dava a sala da sacristia e disse que seria recomendável marcar uma consulta com Dr. Nunes, o cardiologista, e ele tentou desconversar e disse que estava bem, apenas com pensamentos tontos.
- Seria, então, o caso de procurar Dr. Altamirando, o psiquiatra, pois, temo por sua palidez e não o quero perdê-lo.
- Não há se ser nada. Não desejo sair desse convento por nada. De repente, vai que esteja no consultório do Dr. Nunes e ele nunca faz um exame simples, quer complementar com um teste ergométrico, um teste de esforço e isso demora horas - uma manhã ou uma tarde - e temo que nesse momento os batavos ataquem o convento e eu não esteja aqui para defende-lo.
- Que batavos! Que batavos da Holanda estariam a caminho! Nem sonho. Van Dick já se encontra na outra esfera espiritual além Netuno e a Companhia das Indias Ocidentais se findou e eles nos exploram, com outros métodos, outros meios, portanto, relaxe, vá ao Dr. Nunes sem sobressalto.
- Eminência, ontem, à noite, vi-os chegando, as naves se aproximando da Baía de Todos os Santos. Luzes e luzes, creio, dezenas de navios, então não posso me afastar de modo algum do nosso convento na hora em que poderia me tornar um herói, um combatente de Deus.
- Percebo, meu distinto monge, meu amável monge dos pudins e docinhos de coco, que o seu caso é de psiquiatria, não que estejas o que se pode chamar de doido, mas algo que se encaminha para esse sentido.
- Jamais, jamais, farei isso, me ausentar na hora da luta, da glória, e se permite vossa eminência vou à cozinha cuidar das panelas.
- Se quiseres ir, vá; porém, digo-vos que o monge Borega assumiu o comando da gastronomia, não se preocupa com isso. O prioritário para nós todos é a sua saúde, é o seu tratamento e se imaginas recusar um apelo desse abade, colocarei a minha túnica de arquiabade da secular ordem de São Bento e o faremos pelo consenso da força, certamente levando-o em maca. Como estás, com abatimento tão visível não resistirá ao vento desde corredor e beijará o chão por fraqueza.
****
Durante esse diálogo, um tanto áspero, o monge Diogo sentiu um forte arrepio e uma dor fina no peito que subia pelos braços e desfaleceu no corredor.
Diante desse quadro, foi providenciada uma ambulância do SALVAR e o monte foi levado a clínica São Mauricio de Tebas, ao Dr. Nunes. Acompanhou-o frade Graciliano, amparando-o, o Dr. Passos, do SAVAR e a técnica de enfermagem Hortência, Diogo devidamente acomodado numa maca de plástico.
Chegou à clínica lúcio, lívido, sem uma gota de sangue no rosto e o Dr. Nunes depois de verificar o seu estado de saúde, determinou que fosse feito, rapidamente, um eletrocardiograma, o acalmou e disse ao amarelado monge que, o pior teria passado, porém, ele teria que ser internado e submetido a implantação de “stents”.
O paciente não se conformou com o que ouvia e disse ao Dr. Nunes que seria um absurdo, logo agora que os batavos iriam invadir o convento, ele ausentar-se da refrega, do embate, que isso era vital para o seu ser. Que o Dr. Nunes lhe aplicasse uma injeção com Tramal, porque Tramal passa qualquer dor, o colocasse em pé e na ambulância, e que o veículo retornasse a Sé.
Dr. Nunes, então, quis saber do frade Graciliano que história era essa de batavos, que holandeses eram esses que invadiriam a Bahia pela segunda vez. Este monge levando o doutor a um canto da sala cochichou no seu ouvido que se tratava de delírios do seu colega, que não levasse aquilo a sério e o encaminhasse para a cirurgia se assim fosse o caso.
- Claro que é, estou seguro disso, e já fizemos vídeo conferência com o Dr. Adílio, que o operará e tudo sairá bem no implante dos tubos metálicos para abrir as artérias coronarianas.
Em seguida, Dr. Nunes confidenciou ao paciente – certamente para acalmá-lo - que após usar uma luneta que comprou em Portugal, muito boa, vê estrelas e mulheres peladas, verificou da janela do seu consultório que, igualmente a cela do monge, tem uma visão da Baía de Todos os Santos e do mar aberto do Atlântico, e pode observar que os holandeses, de fato, estariam chegando, mas as naus ainda estão muito distantes de Salvador e até quando aportarem, o monge estará de pé, curado e pronto para o embate se assim for.
Isso trouxe um grande alivio para o frade Diogo, o qual ainda descrente com o que lhe falara Dr. Nunes solicitou se ele poderia lhe trazer a luneta e ambos fossem até a janela para verem as naus e a distância a percorrer.
- Ora, meu simpático frade, vi apenas pontinhos no oceano, muito distantes, e creio ser desnecessário observá-los novamente.
Nisso, levaram Diogo para a sala de cirurgia e naquele corredor estreito do hospital sendo conduzido por um auxiliar que empurrava sua maca, o frade via as luzes no teto, aquelas luminárias quadradas como se fossem as naus dos batavos, enquanto sinos da capela de NS do Loreto badalavam os bronzes. O monge, em delírio, surtava: “são os tiros dos canhões” “são os tiros dos canhões”. O maqueiro apressou o passou e entrou no centro cirúrgico.
O frade Graciliano que acompanhou o maqueiro até a porta de entrada do centro cirúrgio seguiu-os em silência portando um imenso terço, orando baixinho apartando as contas do terço e se benzendo sem cessar.