A equipe passou três meses examinando o processo e os documentos do caso Neylton Souto da Silveira. Ainda esta semana o juiz que cuida do caso vai decidir se os quatro acusados de envolvimento na morte do servidor vão a júri popular.
São dois processos. O processo criminal tem mais de mil páginas. Já o trabalho de apuração das denúncias de improbidade administrativa, realizado pelo Ministério Público e a Controladoria Geral da União, revela a existência de dezenas de irregularidades.
No Fórum Ruy Barbosa o processo sobre a morte de Neylton já ultrapassa mil páginas.
EQUIPE DA TV
São dezesseis volumes aos quais a equipe da TV Bahia teve acesso com exclusividade. Nos autos, detalhes de um crime até agora sem solução: um assassinato praticado dentro de um prédio público durante um fim de semana sem expediente.
Neylton Souto da Silveira chegou à sede da SMS para trabalhar no dia 6 de janeiro de 2007. Aquele seria o último dia em que a família o veria com vida. "O que ele passou para a gente houve uma convocação e ela não desceu para a portaria. Foram convocados três funcionários e somente Neylton foi a essa convocação", conta a viúva Emília Silveira.
No dia seguinte, ele foi encontrado morto dentro do pátio interno. O laudo técnico mostra que o corpo, vestido apenas com camisa, cueca e uma meia, tinha sinais de espancamento e estrangulamento. Ele também carregava no pescoço um pen-drive que chegou a ser fotografado pelos peritos, mas depois sumiu e não foi mais encontrado.
Para a Promotoria, o crime está ligado a queima de arquivo.
"Ele morreu porque sabia demais", declara a promotora Armênia Santos. O resto da roupa e o sapato de Neylton apareceram doze dias depois do crime. Estavam escondidos em um duto, por onde passa a tubulação do prédio. Na época, a imprensa não teve acesso à área. Mas fotos obtidas por nossa equipe mostram que o local é de difícil acesso e que as roupas foram cuidadosamente depositadas na área.
PRESOS
A polícia apresentou como executores do crime os vigilantes Josemar dos Santos e Jair Barbosa da Conceição. Josemar chegou a confessar o assassinato e disse que receberia R$ 20 mil para fazer o serviço a pedido das chefes. Depois ele passou a negar tudo, assim como o vigilante Jair Barbosa, que sempre negou a participação no assassinato. Os dois continuam presos.
As acusadas de serem as mandantes, a ex-sub-secretária Municipal de Saúde, Aglaer Souza, e a consultora técnica Tânia Pedroso, respondem ao processo em liberdade e hoje vivem em São Paulo. O caso sempre esteve sob responsabilidade do juiz Cássio Miranda. Ele realizou todas as audiências iniciais, ouviu as testemunhas e pessoas citadas no inquérito. Mas o processo passou para as mãos de um outro juiz.
Neylton Souto da Silveira trabalhava na Gestão Plena do Fundo Municipal de Saúde. O setor é responsável pelo pagamento das empresas contratadas pela prefeitura para realizar serviços médicos e exames. Com base no processo criminal, o MP e a Controladoria Geral da União fizeram uma auditoria nos contratos.
O resultado é um relatório de mais de mil páginas. Em cada página, os auditores federais apresentam acusações de desvio de dinheiro e desperdício de verbas públicas envolvendo o projeto de combate a endemias, os postos de saúde básica e os de saúde da família.