Política

O MUNICIPALISMO DE LOMANTO EM ALTA: O QUE MUDOU DE 1962 PARA 2026 (TF)

Os meios de comunicação também mudaram e a igreja católica avançou com o papa João XXIII a partir dos anos 1960 e a Teologia da Libertação na América Latina
Tasso Franco ,  Salvador | 28/03/2026 às 12:39
Governador Lomanto com presidente Castelo Branco e Murilo Cavalcanti, em Alagoinhas
Foto: Cartilha História da Bhia
   
 Voltamos ao tema municipalismo que determinou (em parte) a vitória de Antônio Lomanto Jr (UDN) governador da Bahia (1963/1966) contra Waldir Pires (PSD), na campanha de 1962. Falamos dos comparativos com a atual pré-campanha da chapa majoritária (na primeira matéria) e as semelhanças que há entre essas duas campanhas (1962-2026), embora, como já dito, cada campanha tem sua própria história.

  Agora, pelo que estamos percebendo tanto ACM Neto (a partir do sim do prefeito de Jequié, Zé Cocá); quanto o governador Jerônimo Rodrigues estão adotando posturas que se configuram assemelhadas as adotadas por Lomanto, em 1962, de fortalecimento do municipalismo para sustentarem suas plataformas de campanha.

  Há, no entanto, distinções entre os dois momentos, tanto do ponto de vista da estruturação e autonomia dos municípios, hoje, bem mais independentes e fortes do que, em 1962; quanto dos meios de comunicação, hoje, predominando as redes sociais da internet e o uso da televisão, meios que não existiam em 1962. 

   Quando Lomanto se apegou ao municipalismo (hoje, feijão na lapela; amanhã, feijão na panela) e também por ser a esperança do povo (é gente nossa; é sangue novo), o interior da Bahia era praticamente desassistido pelo governo central, localizado em Salvador, diante das distâncias territoriais, da economia rural concentrada com maior força e dinamismo no cacau, da carência de estradas, aeroportos, etc, o que se poderia dizer (como disse Lomanto) que o interior iria marchar para a capital.

  Ou seja, queria também ser como a capital, ter os mesmos direitos da capital.

  Hoje, a situação não é mais assim. Os líderes do PT saíram de um projeto que foi lançado na Bahia pelos militares do golpe de 1964, o Pólo Petroquímico de Camaçari, e a economia se movimentou deixando de depender da exportação do cacau e passou a ser concentrada na RMS, com a Petroquímica. Além disso, a Bahia, se estruturou melhor com estradas federais e estaduais (do Feijão, Sisal, do Coco - Litoral Norte, etc), mais aeroportos, mais urbanização, e os perfis das cidades se modificaram, incluindo Salvador, sobretudo a partir de 1970.

   Que municipalismo seria esse a ser adotado por ACM Neto e Jerônimo?

  O de Neto, está se configurando no emblema Jequié/Cocá (daí a semelhança com o de Lomanto, e o neto de Lomanto está envolvido e articulando nessa direção, deputado federal Leur Lomanto Jr), o apoio dos grandes centros urbanos do interior (FSA, Conquista, Ilhéus, etc) a chapa, inclusive, sendo lançada em Feira de Santana; e o de Jerônimo, é uma repetição do que já foi feito com Rui Costa para eleger Jerônimo, em 2022, de firmar convênios e mais convênios com os municípios, espacialmente.

   Isso vem sendo adotado pelo petismo desde quando Wagner chegou ao poder máximo do estado, em 2007, se apoderando dos chamados “currais eleitorais” que pertenciam a ACM e seus aliados, o mais proeminente deles, Otto Alencar, ainda hoje dono de um feudo imenso no interior, força política importantíssima para o petismo, uma vez que nunca se organizou no sentido de ocupar o Palácio de Ondina, como governador, pelo voto. É e sempre será, como se pode ver, um apoiador.

   Vale observar também que, nos dois casos, a sociedade tem mudado substancialmente de comportamento, sobretudo a partir do uso da internet (redes sociais) e ai é que entram os comunicadores. Falemos deles.
                                                                  ****
  Em 1962, os meios de comunicação mais fortes eram os impressos e as emissoras de rádio. A Tarde, que era o mais forte deles, jornal da capital (servia de pauta para as emissoras de rádio) apoiou abertamente Lomanto, juntamente com a igreja católica, que amedrontavam a população dizendo que Waldir era comunista. A conotação de ser comunista (vermelho) nessa época era fatal; bem diferente de hoje.

  Essa conduz a outra questão: nessa época, os evangélicos não atuavam na politica partidária o que só vai começar a existir a partir a fundação da Igreja Universal do Reino de Deus, pelo pastor Edir Macedo, em 1977. O PT nem existia ainda e só vai nascer, em 1982.

  As campanhas de 1962 foram feitas basicamente nos impressos, nos palanques, nos templos da igreja católica e nas poucas emissoras de rádio, em Salvador, a Excelsior (da igreja católica apoiando abertamente Lomanto).

  O marketing em sua maioria era impresso (panfletos, cartazes, pichações), no boca-a-boca, nos serviços de alto falantes e nas rádios, as músicas, os jingles. E Lomanto tinha musicas melhores do que as de Waldir. 

  As pesquisas eram lineares (sem técnica cientifica) e evidente, manipuláveis. Uma rádio abria o que se chamava enquete e saia perguntando ao povo (poderia ser direcionado) em quem você vota: Lomanto ou Waldir? Depois, a rádio divulgava o resultado: enquete de hoje deu Lomanto 65 x 32 e badalava isso, initerruptamente, até nova enquete.

   E, por fim, o voto era na urna, impresso, e votava-se para governador e para vice-governador, separadamente. Senadores, deputados, etc.

  Hoje, a situação é completamente diferente. Primeiro, o número de habitantes, censo de 1960, era de 5.900.000; agora, 2026, 14.800.000. Ou seja, dobrou o número e mais 2.800.000. O meio de comunicação impresso perdeu força (quase) total. Ainda se usa em santinhos, cartazetes, pichações, etc, mas o que prevalece é a internet (sobretudo as redes sociais) e a TV. As emissoras de rádio ainda são importantes (mais na pré campanha do que na campanha propriamente dita) e os comerciais de TV são devastadores.

  A legislação eleitoral também está mais rigorosa e vigilante do que, em 1962. Alguns prefeitos, vereadores, deputados e governadores até hoje perdem mandatos conquistados em 2022. Todo cuidado com isso é pouco porque a internet também proporcionada as pessoas comuns fazem filmagens e publicações na rede. E isso, em alguns casos, acabar consubstanciando ações judiciais.

   Como então os marketeiros (e os políticos) vão disseminar essa cultura do municipalismo diante, também, de uma sociedade a cada dia mais urbanizada e antenada? O interior marcha para a capital não cola mais; o feijão na lapela e depois na panela, também não cola mais (Lula foi prometer picanha e até hoje é gozado), o combate a fome também não cola porque as pessoas veem nos seus municípios e na capital, muita gente passando fome e morando em condição de rua. 

  Tudo isso, claro, os marketeiros vão analisar, estudar e adotar estratégias.
 
  Hoje, pelo que podemos perceber a rede de ACM Neto é mais poderosa (no sentido de ter mais alcance) do que a de Jerônimo, individual, como pré-candidato a governador. E nas chapas majoritárias os que melhores usam são João Roma e Jaques Wagner. (TF)
                                                                  *****
*** Só um adendo histórico: na campanha de 1962, os eleitos foram Lomanto Jr (UDN, governador) com 396.951 votos contra 352.248 de Waldir; o vice governador eleito foi Orlando Moscoso com diferença de 6.620 para Rocha Pires; e os senadores eleitos foram Antônio Balbino (368.325) e Josaphat Marinho (281.328).

***Moscoso era vice de Waldir; Balbino e Josapaht eram também da chapa de Waldir.

** `Por ironia do destino (ou da política) em 1986, Waldir foi eleito governador na disputa contra Josapaht

Quem quiser saber de mais história sobre as campanhas de 1962 e 1986 leia o livro de Tasso Franco, “O Circulo do Poder na Bahia”, 1990.