ter�a-feira, 26 de outubro de 2021
Colunistas / Crônicas de Copacabana
Nara Franco

Crônicas de Copacabana: Acima do bem e do mal e o Maracanã

A impunidade é uma marca registrada no Brasil e até agora ninguém foi punido
15/12/2017 às 20:25
O Maracanã é o terceiro ponto turístico mais visitado do Rio de Janeiro. Só perde em número de visitantes para o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar. Para quem curte futebol é um passeio e tanto.O tour dá acesso ao gramado, vestiários, túnel de entrada e cadeiras. 

Imagino como será a visita depois das cenas de selvageria antes e após o jogo entre Flamengo x Independiente. Cadeiras quebradas,  vidros destroçados, banheiros destruídos. É isso que os turistas verão. 

A reforma do Maracanã custou mais de R$ 1 bilhão aos cofres públicos e muito dinheiro para a turma do Cabral. Foi palco da final da última Copa do Mundo. Ali jogaram Pelé, Romário, Zico, Roberto Dinamite, Garrincha, Júnior, entre tantos outros. O Maracanã é um patrimônio do futebol mundial. Mas isso pouco importa quando o assunto é a selvageria do torcedor. 

E, ao contrário dos dirigentes, vou colocar o dedo na ferida. A selvageria não é reflexo de uma cidade falida. Muito menos da crise econômica. É um problema da torcida do Flamengo, notoriamente violenta, notoriamente brigona e notoriamente destruidora. Estou sendo radical? Não. Números comprovam. As outras torcidas são santas? Não. 

Recentemente a torcida do Vasco deu o mesmo show de selvageria em seu próprio estádio. São Januário foi construido por vascaínos e para vascaínos. Ali discursou Getúlio Vargas. Mas isso importa para quem é bandido? Não. 

O que esses dois episódios têm em comum é o absurdo paternalismo dos dois presidentes dos clubes. De Eurico Miranda espera-se qualquer bobagem, mas do presidente do Flamengo eu, pelo menos eu, esperava mais. Segundo ele, a torcida do Flamengo "está acima do bem e do mal". Ou seja, pode agredir rival, pode invadir o estádio, pode roubar uma pessoa atropelada porque está isenta de qualquer tipo de erro. Só faltou chamar os caras de coitadinhos. Eu teria vergonha. E, assim como Eurico, Bandeira de Melo culpou a Policia Militar . 

A resposta da PM foi brilhante: de que adiante aumentar o efetivo da polícia se os torcedores não têm educação? Se vão para o estádio para depredá-lo? Teremos um PM para cada torcedor como um pai que leva o filho ao estádio? 

Na Europa há brigões. Mas quando a torcida briga, quem paga é o clube. É não só com dinheiro. Perde mando de campo e fica banido de um determinado campeonato por duas, três ou quatro edições. Porque lá ninguém passa a mão na cabeça de ninguém. Torcedor que vai para a porta de hotel soltar fogos de madrugada não é torcedor. É vagabundo. É desocupado. Tinha que ser preso. Torcedor que vai ao estádio para arrancar cadeira não é torcedor. É vândalo. Tem que ser preso. Tem que pagar pelo prejuízo e ir ao estado repor com as próprias mãos a cadeira quebrada. 

Enquanto tratarmos nossos bandidos como coitadinhos, que tipo de sociedade teremos? 

Quando criança eu ia ao Maracanã quase todo fim de semana. Hoje, não tenho coragem de levar ninguém lá e muito menos de ir. Não pensem que era fácil ir a um Vasco x Flamengo pelos idos dos anos 80 e 90. Mas dava para ir e se divertir. Pena que esses momentos vai ficar apenas na minha memória.