quarta-feira, 22 de setembro de 2021
Colunistas / Causos & Lendas
Lobisomem de Serrinha

LUBI É CONVIDADO POR SERAMOV A PARTICIPAR DA REVOLTA DAS ENXADAS

Lubi diz que suas enxadas são de paz para capinar sua roça de batatas no sitio do Oseas, na Serrinha
03/01/2021 às 19:09
Começamos o ano vivendo num mar de incertezas enquanto o profeta banha-se ao Atlântico e joga futebol. O povo, em sua sabedoria, já enterrou o ano de 2020 considerado um dos piores da história pós II Guerra Mundial e está apelidando 2021 com o ano da vacina, tanto que muitas famílias ainda enclausuradas diante da Covid se manifestaram durante a virada do ano desejando 'Boas festas, feliz ano e a vacina". Esse complemento "a vacina" é novo e nunca existiu noutras viradas.

  Há, como sabemos, a vacina contra a gripe H1N1 conhecida como a vacina para os velhinhos que é aplicada na população, todos anos, normalmente a partir de maio. Mas, a vacina contra o virus chinês é nova e foi polemizada em Pindorama e até ideologizada.

  O poeta Serafim Alves já disse que não tomará a vacina chinesa de forma alguma porque pode lhe inocular o comunismo e ele teme os comunistas como o diabo se arrepia diante da cruz. E o filósofo Pato de Almeida, outra pessoa amiga, conforme já relatamos antes, também já disse que não toma a vacina russa, a suptinik, como medo de ter seus segredos pessoas revirados pela KGB do Vladimir.

   Então, vocês veem que, além da polêmica em torno da Anvisa para liberar a vacina, qual seja, russa, chinesa, inglesa, americana ou alemã, ainda não compramos sequer as seringas e as agulhas, de maneira que se a vacina chegar antes dessas ferramentas ficará apenas em estoque.

  Poderemos nos tornar o país estocador de vacinas, o que não deixa de ser uma inovação. O messias, al mare, diz que não tem pressa e confessa que não é ele quem tem que procurar um fornecedor de vacinas e sim o contrário, o fornecedor que corra atrás do governo, divulgue seu produto e ofereça um bom preço.

  E os 200 mil mortos? Ora, já morreram e não há mais nada a fazer por eles, estão sepultados e muitos parentes nem sabem em quais covas, portanto, que sigam sua viagem em paz.

  E os que estão vivos que usem máscaras, fiquem em casa, pois a novela da vacina não tem prazo de quando estará à disposição dos brasis. A Bibi - noutra novela - vai libertar o Rubinho antes disso, supõe-se, e o Centrão assumirá o MS para centralizar, organizar, é o que dizem.

  A Ester - minha santa esposa - está ansiosa para tomar a vacina e diz que vai desenterrar um diploma que ela tem de Enfa, atualizar a carteira do sindicato e será uma das primeiras da fila. Eu não estou muito preocupado com isso porque nosso alcaide, o Lima, que foi reeleito, certamente vai fazer como o Reis, da capital, e providenciar a coronavac do Dória, até que nosso Instituto Científico da Serra ou a bruja Conegundes, que opera seu caldeirão no bairro da Santa, conclua os estudos da nossa vacina a Coronaserra e aí poderemos dar uma banana aos chineses e aos russos, e usar nossa vacina nativa.

   Estou a escrever essas linhas na minha 'home office', a Ester na contabilidade arrumando as contas a pagar neste princípio de janeiro, o preço de tudo já subiu até do pão nosso de cada dia, do IPTU, do gás, da gasosa, que é natural de todos os anos, quando liga-me o poeta Serafim:

  - Viste o 'home' se jogando al mare e aglomerando n'água?

  - Vi na TV. Se ele que é a autoridade máxima não respeita a lei, o que será de nós? questionei observando que ao redor do 'home' havia uma dezena de seguranças.

  - Nós somos o povo e quando não obedecemos às leis caímos na madeira, na ripa. Aquilo é marketing pra dizer que é popular até debaixo d'água.

  - Queria ver era ele se jogar aqui no açude da Bomba.

  - Ora, mestre Lubi, a Bomba foi o açude que atendeu em água as máquinas Maria Fumaça da Leste Brasileiro, o saudoso trem da Leste, hoje é um pinicão não dá mais nem pra colocar uma catraia. Imagina se o 'home' vem nessas brenhas do sertão! Político gosta é de Copacabana, Santos, Praia do Forte, Atalaia, virada do ano com champagne francesa e aqui na Serra, além da ausência de mar, só temos proseco do Fabrico de Lôro e champagne gaúcha.

  - Ainda bem que virei o ano com minha Ester e degustamos um malbec que nos ofereceu o caixa alta dr Zéu, da capital, e ela organizou a taça da felicidade no modelo da professora sua irmã com queijos e petiscos, e saudamos o ano bem.

  - Sorte sua excelência. Fui ao Pernambuco, ao Pé na Cova, comi um sarapatel e tomei umas brahmas com uns sindicalistas do PSB. E mal pergunto, porque não foi passear de lancha com sua Ester no açúde da Cabeça da Vaca ou mesmo em Saubara que os serrinhas adoram.

  - A lancha está na oficina do Perna Torta. Deu um defeito e a peça vem de São Paulo. Sabe como é a Bahia, tudo vem de São Paulo, de pasta de dentes a cadeados. Imagine o retentor do eixo menor da rabeta de minha lancha! É provável que chegue no final do mês e estou programando com a Ester ir até Boipeba. Basta dessa tabaroisse do Conde, de Guarajuba, de Saubara. Depois, a Ester é supersticiosa e como o ano de 2021 vai ser regido por Oxum, a orixá da beleza, e o poderoso Oxalá, ela vai no Félix Oncinha jogar os búzios e diz que só viaja, ainda mais pra entrar no mar, depois de consentimento.
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   Isso é coisa dos adeptos do candomblé. Segundo alguns dos mais tradicionais terreiros de Salvador, a terra do candomblé e de aiá e de oiô, diz-se que Oxum e Oxalá vão trabalhar juntos para reger 2021.
- A Ester confessa que vai ser um alento de fé para tantos corações aflitos e carentes de conforto. Não é o meu caso que estou muito bem nessa aritmética.

  - Sêo Lubi, quem vai reger 2021, com todo respeito ao candomblé são os oxalás de sempre, os Estados Unidos, o Tio Sam guloso; a China, com seu dragão vomitando fogo e vendendo de calcinha a aparelho auditivo; o Japão, com seus carros que falam, cantam e voam; a Alemanha com suas máquinas que nunca quebram. Nós, infelizmente, ainda estamos no tempo em que se arremessa uma enxada contra uma autoridade.

  - Nesse aspecto o amigo está certo. Agora, a enxada que jogaram no prefeito de Tabocas do Brejo Velho é um tema da psicologia e só o Seramov com sua mão espiritual poderia explicar tal loucura.

  - Ligue para ele. Tenha um excelente 2021 estendido aos seus, em particular, a minha comadre Ester.

  - Amém, irmão. Vou fazer isso.

  Antes de ligar para o Seramov, os ponteiros do relógio se aproximando da hora do almoço, degustei um tinto com um suculento lombo produzido pela Ju Faldas, nossa cozinheira, malvas, berdoegas e sobremesa de pudim com calda de mel da Varginha, depois levantei-me, acendi um robusto de Santo Domingo, quase cubano, e entre uma baforada e outra do tabaco, liguei para o Seramov e solicitei uma explicação sobre o atentado a enxada, em Tabocas do Brejo Velho.

  Quis saber o mago decifrador da anima em que parte do Afeganistão ficava Tabocas e disse-lhe, com esmero, que se tratava da terra do bambu às margens adjacentes do Rio Tabocas nos brejos próximos a Barrerias, a Brasília, ao Goiás Velho.

  - Ah! - respondeu o mago - tem sentido. É a revolta da enxada contra a tecnologia do campo, o desemparo do pobre, daí que o inconsciente desse cidadão que arremessou a enxada, sem ele querer, impulsionado pelas forças das energias ocultas do cérebro cometeu esse ano. Outros crimes dessa natureza, desde a época do Cristo, com os sícaros e seus punhais matadores de romanos, as adagas mulci que ceifaram vidas na Ibéria, as balas que mataram presidentes nos EUa, tudo isso faz pare da história. 

  - Então, a enxada matadora, que não atingiu o alcaide taboquense, entra para a história da Bahia e do Universo.

  - Sem dúvida. A revolta da enxada de Julião, dos tempos idos, retorna com outra configuração, outro enfoque. Se tens enxadas em seu sitio afies e tenha um magnifico 2021.

  - Amém, guru dos espíritos, mas minhas enxadas as tenho apenas para capinar e remover o solo de minhas batatas e cenouras.