Itália Tetra e adeus Alemanha
Demos adeus mais cedo, nas quartas de final, num sábado à noite, 1º de julho, em Frankfurt, 1 x 0 para a França, gol de Thierry Henry, aos 12 minutos do segundo tempo, escorando cobrança de falta alçada com esperteza por Zinedine Zidane, nossa zaga distraída. De novo ele, Zidane, arrebentando o jogo e a seleção brasileira que naquele dia praticamente não jogou, não viu a cor da bola.
O lance fatal teve origem numa faltade Lúcio, a primeira cometida pelo zagueiro na Copa, na lateral direita. Enquanto todos se arrumavam na área, nosso lateral Roberto Carlos ainda ajeitava os meiões, encurvado, nas imediações da linha da grande área, o árbitro apitou e Zidane rápido vislumbrou Henry livre de marcação, fechando na pequena área, do lado oposto. O tapa na bola saiu perfeito e o artilheiro francês só escorou. Era o segundo gol que Dida levava, bastou.
O fato é que fizemos uma Copa muito abaixo do esperado. Estreamos sofrendo contra a Croácia (1 x 0 ferrado, gol de Kaká no final do primeiro tempo), Dida garantiu atrás com grandes defesas. Na sequência, fizemos 2 x 0 sobre a frágil Austrália, gols de Adriano e Fred. Fechamos a fase classificatória goleando o Japão, 4 x 1, nossa melhor partida na competição - dois gols de Ronaldo, um de Ronaldinho e outro de Juninho Pernambucano.
Nas oitavas, uma mangaba: - 3 x 0 sobre Gana – gols de Ronaldo ,Adriano e Ze Roberto. A despeito do placar, sofremos atrás e não fomos vazados por conta de outra grande atuação de Dida. Daí, veio o apagão contra a França.
O tetra matreiro italiano
A final foi França x Itália, em Berlim, 9 de julho, mais 70 mil presentes, joguinho murrinha, com direito a prorrogação, empate de 1 x1, a decisão em cobrança de pênaltis. A França, depois de passar pelo Brasil, tinha atropelado a seleção portuguesa do CR7, treinada por Felipão; e a Itália, com uma defesa quase intransponível (sofreraapenas um gol na competição), tinha detonada a Alemanha, os donos da casa, por incríveis 4 x 1.
Itália e França fizeram uma final parelha, de muita cautela. Zidane, de pênalti, cometido pelo becão Materazzi, abriu o placar aos 7 minutos. O mesmo Materazzi empatou de cabeça, aos 19 minutos, escorando escanteio cobrado por Pirlo. O ‘melhor’ aconteceria no finalzinho do tempo regulamentar, quando Zidane, sem bola, deu uma cabeçada de UFC na titela de Materazzi, que teria lhe provocado, dito alguma ofensa.
O italiano fingiu desmaio, o francês foi expulso, a Itália venceu nos pênaltis, merecidamente, seu quarto título mundial. Os italianos tinham um timaço: o lendário goleiro Buffon, o zagueiro Canavarro (eleitoo craque da Copa), o apoiado Gatuso, o craque Pirlo, mais De Rossi, Del Piero, Totti, Inzaghi... uma geração vitoriosa.
Tic-tac, jabulani e vuvuzelas
Copa do Mundo não é só que acontece nos gramados. É também uma celebração, uma grande festa de misturas, culturas, fazeres criativos, congregação humana em torno da deusa bola. Diante dela, de seu encantamento, somos todos iguais, somos todos crianças (texto de abertura de capítulo 19 ‘Espanha vence a Copa da África do Sul’, do livro‘Historiando as Copas’)
A Copa na África do Sul foi um acontecimento, com muitos significados. Expôs ao mundo o tamanho do estrago humano e social do ‘apartheid’, o regime infame racista que sequelou a nação e deixou feridas não cicatrizadas. Homenageou heróis daliberdade, da igualdade, como o carismático líder Nelson Mandela (1918 / 2013), o pai‘Tatá’, o Mandiba, que foi presidente do país (de 1994 a 1990) e venceu o Nobel daPaz em 1993. E o célebre bispo Desmond Tutu, primaz da Igreja Anglicana da África Austral, Nobel da Paz em 1984.
Ambos marcaram presença na Copa, aclamados. Foi a Copa de exuberância das diversidades, de celebrações, festejos, ritmos,manifestos e manifestações, emoções fora e dentro dos estádios, nas ruas, nas comunidades periféricas e dentro das quatro linhas.
A Copa da Jabulani (celebração, em dialeto Zulu), uma pelota treiteira, com 11 cores, alta tecnologia, cheia de sinuosidades, delícia dos atacantes, um terror para os goleiros. A copa das vuvuzelas, cornetas coloridas de som estridente que, das arquibancadas dos belos estádios (cinco novos, construídos para a Copa) atordoavamatletas, árbitros e, sobretudo, os profissionais e as transmissões de rádio e TV.
A África do Sul era a maior economia da região subsaariana do continente africano, às voltas com graves problemas no campo da segurança pública, da infraestrutura, educação e saúde. A copa aconteceu no inverno local, meses de junho e julho. Joseph Balatter era o todo-poderosos da FIFA e o treinador do escrete sul-africano era obrasileiro Carlos Alberto Parreira. Joel Santana, nosso ‘papai Joel’, tinha passado por lá ,com seu inglês macarrônico.
O tal VAR, (pra uns um avanço e pra outros um estrupício aos imprevistos do jogo), foi criado pela FIFA a partir de um lance acontecido no jogo Alemanha 4 x 1 Inglaterra, pelas oitavas de final. O meia inglês Lampard chutou forte, a bola bateu no travessão, quicou meio metro dentro do gol e os árbitros de campo não viram, por conta de velocidade do lance, não deram o gol evidente que a Tv mostrou depois. Daí,inventaram o VAR, que ajuda a arbitragem mas quebra uns encantamentos únicos do futebol ... Deixa entalado o grito de gol, por exemplo, à espera de um ‘foi/não foi’.
O astro Maradona era o treinador da Argentina na Copa, uma celebridade, a fazer caras e bocas para as câmaras e tascar beijinhos no rosto dos seus comandados. Emc ampo, os hermanos vizinhos levaram uma goleada 4 x 0 dos alemães - basicamente, os mesmos alemães que venceriam a Copa de 2014, no Brasil (1 x 0 na final em cima daArgentina de Messi), e nos enfiaram 7 x 1. Lembram?**DungadasO gauchão Dunga, nosso treinador, chegou com moral na África.
Tinha vencido aCopa América e também a Copa das Confederações. Birrento, deixou de fora de seuelenco o ‘bruxo’ Ronaldinho Gaúcho (‘fora de foco, fora de forma’), o centroa vanteAdriano (‘com problemas extra campo’) e dois garotos que arrebentavam no Santos, Neymar e Ganso (‘ainda muito verdes’).
No mais, já no ambiente da Copa, quis blindar os jogadores e bateu de frente com os interesses da Globo, ‘a TV da Copa’, que exigia exclusividade e privilégios. Se deu mal.Em campo, sucumbimos diante de uma Holanda forte, agressiva, com jogadores manhosos e catimbeiros, como Robben e Sneijder.
E nos perdemos sem laterais, em falhas do goleiro Júlio Cesar, destinos do apoiador aloprado Felipe Mello, que terminou expulso, e levamos 2 x 1 de virada da madura ‘laranja mecânica’. Elano, Robinho, Ramires, Kaká e Luis Fabiano foram nossos destaques.
Uma nova escola estilosa
A Espanha conquistou sua primeira Copa, na África, sob comando do treinador Del Bosque, por conta de dois fundamentos básicos: - Primeiro que tudo a excelência da qualidade técnica de uma geração de craques, os meio-campistas Xavi, Iniesta e Busquets, o goleiro Casillas, os defensora Sergio Ramos, Puyol, Xabi Alonzo, Piquet; osavantes Villa, Pedro, Torres...
Em segundo lugar, o revolucionário e vistoso sistema de jogo que se chamou à épocade ‘tic-tac’ e virou uma febre, mudou o jeito de se jogar futebol mundo afora. Mas, convenhamos, nada muito diferente daquilo que já pregava o nosso genial treinador Gentil Cardoso, pela década dos 50 - “quem se desloca recebe, quem pede tem apreferência”. Ou o ‘toco y me voy’, argentino. Ou as famosas triangulações exigidas pelo Mestre Tim, um habilidoso e inteligente meia que se tornou um extraordinário treinador.
O ‘segredo’ consiste em valorizar a posse de bola, trocando passes. O óbvio‘só joga quem tem a bola, quem não tem corre e cans a’. Então, com a bola vamos jogar, sem a bola temos de correr atrás pra recuperá-la o mais rápido possível.Dizem que a Hungria de 54 já jogava assim. O Brasil tricampeão no México deu aula. A Holanda de Cruijff, do Carrossel de 74, aprimorou, chegou quase à perfeição do sistema.
Foram os holandeses Cruijff e Rijkaard que implantaram esse estilo, esse sistema de jogo no Barcelona da Espanha, e o sistema de jogo virou uma ‘escola’ espanhola de jogar bola. O ex-jogador espanhol, do Barcelona, e depois um dos maiores treinadoresda história, Pepe Guardiola, é o maior exemplo seguidor e propagador do estilo. Um vencedor.
A final, Espanha 1 x 0 Holanda, foi uma partida de mais de 120 minutos. Gol de Iniesta, já na prorrogação. Não foi um jogo limpo. Os holandeses decidiram enfrentar o tic-tac espanhol marcando duro, no pau mesmo, tentando impor uma disputa mais física, pesada, usando de contragolpes, pondo correria. Os espanhóis encararam. Muitasjogadas violentas, a arbitragem inglesa deixando correr frouxo.
Casillas garantiu atrás eprevaleceu a técnica. Ainda bem. Arriba España!
Se ligue:A resenha e curiosidades, com contextualização no tempo e espaço, detodas as copas (de 1931 a 2022) estão no livro ‘Historiando as Copas’, deZédejesusbarreto, editora OjuObá/2023. À venda (impresso e online) pela Amazon.Indispensável pra quem gosta ou pesquisa, estuda e acompanha o futebol.