Esporte

HISTORIANDO COPAS,6: NAÇÃO INTEIRA CHOROU 1950, por ZÉDEJESUSBARRETO

A série é de autoria do jornalista ZédeJesusBarreto
ZedeJesusBarrêto ,  Salvador | 24/04/2026 às 10:19
O gol fatal de Giggia e Uruguai bicampeão do Mundo, em 1950
Foto: AP
   Naquele fim de tarde do 6 de julho de 1950, o menino Dico, um preto magrinho de canelas secas, aos 9 anos, chegava de um baba de rua à sua casinha, na cidade de Bauru, interior paulista, e se deparou com o pai Dondinho aos prantos, no canto da sala, o rosto colado no rádio de válvulas sobre a mesa.

    A Seleção Brasileira acabava de ser derrotada pelo Uruguai, de virada, diante de mais de 200 mil pessoas no Maracanã,com um gol de Giggia aos 34 minutos do segundo tempo, na final da Copa do Mundo, a primeira no Brasil. Dondinho, um ex-jogador profissional, exemplo de vida para o garoto, estava desolado, inconsolável. Como todo o Brasil, em lágrimas, a final, pela derrota ‘inexplicável’ .Dico se aproximou e disse “Não chore não, pai, eu vou ganhar uma Copa pra você”.

  Oito anos depois, na Suécia, aos 17anos, o menino Dico – já então conhecido como Pelé, coroado Rei nos gramados europeus – ganhava pra Dondinho a Copa, a primeira do Brasil e a primeira dele, Pelé, enfiando na final 5 x 2 nos suecos, com um gol dele, de cabeça, no finalzinho, para depois cair aos prantos nos ombros de Gilmar e Nilton Santos, feito criança. 

  Pelé ainda venceria pra o pai Dondinho mais duas Copas, a de1962 no Chile e a de 1970, o tri no México. Anos depois, o Rei Pelé já de chuteiras penduradas e trabalhando como comentaristade tevê numa Copa do Mundo, no avião que levava radialistas, jornalistas e convidados para o evento esportivo, despertou do cochilo, na poltrona, com um amigo jornalista cutucando seu braço, dizendo “tem um senhor sentado ali atrás querendo muito lhe conhecer”. 

  Sem pestanejar, ao seu jeito humilde e atencioso de ser, o Rei levantou-see foi ver o homem. Quem seria?Ao bater os olhos, reconheceu, era Giggia, aquele mesmo uruguaio que em 1950 fez seu pai Dondinho chorar. O velho Giggia, eterno ídolo dos uruguaios, levantou-se, abraçaram-se emocionados e choraram, ambos, um no ombro do outro, silentes e cientes da grandeza daquele encontro.

  Reconhecimento, respeito, agradecimento... merecimentos da Deusa Bola.

  Como aconteceu o ‘Maracanazo’ Não, não merecíamos perder aquela Copa, tampouco aquele jogo.Tínhamos uma equipe extraordinária, com jogadores fora do comum, como o meia atacante Zizinho, completo. Mais um goleiro da estirpe de Barbosa, o zagueiro Juvenal,um meio de campo fantástico, de Bauer, Danilo, o monstro Jair da Rosa Pinto, o ponta Friaça, o artilheiro Ademir ‘Queixada’, com Baltasar no banco... não, não dava pra perder.

  No quadrangular final do torneio, o Brasil goleou a Suécia com um espetacular 7 x 1; dias depois massacrou a ótima Espanha por 6 x 1, um show de bola. Por outro lado, o Uruguai tinha empatado com a Espanha, 2 x 2, jogo duro, e passado, na marra, pela Suécia, 3 x 2, com um gol chorado de desempate aos 42 minutos do segundo tempo. Não, não dava pra perder... 

  E nos bastava um mísero empate para sermos os campeões.Mas perdemos. A derrota ficou marcada como o ‘maracanaço’.*Naquela partida, jamais esquecida, narradores e narrativas contam que a seleçãobrasileira dominou, atacou todo tempo, comandou as ações dentro do campo inimigo, finalizou 27 vezes e os uruguaios pouco avançaram. Foi um massacre no primeir otempo, mas a Celeste resistiu, suportou o assédio, heroica, goleiro e defensores se desdobrando e os brasileiros desperdiçando chances.

   Os locutores se esgoelavam nos microfones, a era do rádio.O gol da seleção brasileira só veio acontecer aos dois minutos da segunda etapa; oponta Friaça aproveitou bem um rebote, após bombardeio do ataque brasileiro. Golfeito, os brasileiros relaxaram, ora, bastava o empate, já venciam e dominavam o jogo.

  Daí...O primeiro gol do Uruguai, traiçoeiro, veio aos 21min, num contra golpe pela direita puxado pelo meia Julio Perez, que enfiou um passe profundo nas costas do lateral Bigode. O veloz Giggia disparou, foi no fundo e cruzou pra trás, na medida para o voleio do craque Schiaffino, balançando as redes do grande Barbosa. 

  Soberbos, empurrados pela torcida, mesmo sabendo-se campeões com o empate, os brasileiros foram pra cima, queriam vencer, gostavam de atacar. Então, aos 34 min, aconteceu o lance fatal. O meia Schiaffino achou Giggia novamente disparando imparável pela direita, nas costas do marcador Bigode; já próximo da linha de fundo, quando o zagueiro Juvenal saiu na cobertura do lateral, Giggia ao invés de cruzar a bola para a frente da pequena área, como fazia sempre e como o goleiro Barbosa imaginou que faria, enfiou um chute cruzado, meio mascado, por baixo, que entrou entre o goleiro e a trave, fazendoos 2 x1 da virada, calando o Maracanã e levando os brasileiros, do Oiapoque ao Chuí, às lágrimas incontidas. 

  Um chororô nacional.Teria sido o único chute de Giggia contra o gol brasileiro em toda a partida. O time brasileiro foi inteiro ao ataque, na pressão, os uruguaios fechadinhos atrás, o capitão Obdúlio Varela aos berros, comandando a resistência, e o goleiro Máspoli pegando tudo. O fim.

  Sim, o Uruguai tinha uma boa equipe, merecia respeito, os atletas em campo fizeram valer a mística da Celeste Olímpica. Extraordinária atuação do goleiro Máspoli, do astro Schiaffino, do veloz Giggia, do guerreiro capitão Obdúlio Varela, da zaga, do meia Perez... Valeu a estratégia do treinador Juan Lopez, mas sobretudo prevaleceu a garra,a aplicação, o denodo feroz de todos em campo.

   Uma vitória da alma uruguaia, ferida.

   Dias depois do jogo, alma lavada, descansando de férias nas praias do Rio de Janeiro,o capitão Obdúlio Varela resumiu tudo numa entrevista:- Jogaríamos 10 partidas contra aquele Brasil e perderíamos nove. Mas aquela, naquele dia, tínhamos de vencer.

  Os uruguaios entraram em campo, naquela final, mordidos, babando, com ódio, precisavam lavar a honra. Às vésperas, os brasileiros (não os atletas, mas os políticos, a mídia esportiva - radialistas, jornalistas...) ignoravam, faziam beicinho pros uruguaios, pois já ‘éramos campeões’. Comemoramos antecipadamente o título (que não veio) nos microfones, nas ruas, nos palácios, palanques, redações, com jantares, entrevistas, premiações, promessas, manchetes, fotos da ‘equipe campeã’ estampadas, faixas de campeão e bandeirolas vendidas nas ruas, uma farra.

  Eles, os uruguaios, observavam tudo, na moita, quietos, remoendo. Cada manifestação daquela servia de motivação. Acumulavam força. Dizem que chegaram a por as páginas esportivas dos jornais no chão e as pisoteavam, jurando vingança. Deu no que deu. Que bela lição da bola! Não se ganha de véspera, nem no gogó.

  Curiosidades e destaques- Cinco anos depois, as sequelas da guerra ainda ardiam, sobretudo na Europa, feridas não cicatrizadas. Das 34 seleções inscritas nas eliminatórias, seis desistiram logo, nem fizeram o primeiro jogo. Outras não quiseram ou não tiveram condições de viajar ao Brasil. Assim, apenas 13 seleções participaram da copa no Brasil.*

  - A Itália, bicampeã em 1934 e 38, chegou enfraquecida, pela ausência dos jogadoresdo Torino, então um dos grandes times da Europa; todos os atletas do clube tinham morrido num desastre de avião, em 1949. E os italianos foram eliminados pelos suecos.

  - A poucos meses da Copa, a bagunça brasileira era tamanha – com obras dos estádiose cronograma atrasados, planejamento caótico –, que foi necessária a presença providencial, entre nós, do presidente da Federação Italiana de Futebol e dirigente daFIFA Ottorino Barassi. Assumiu o comando do Comitê Organizador Mundial e pôs ordem na casa, evitando um fiasco.

- A competição começou com o Maracanã ainda em obras finais, andaimes, tijolos e montes de areia à mostra. O Estádio Octávio Mangabeira, na Bahia, por exemplo, ficou de fora. A Fonte Nova (como o povo sempre chamou), em Salvador, só foi inaugurada, com o nome do governador, em 1951.

  Dizem que, no jogo final, mais de 20 mil pessoas teriam entrado sem pagar ingressos para ver o Brasil x Uruguai. O público real presente, de mais de 200 mil torcedores, nunca foi checado e precisado. Até porque, no momento em que o time brasileiro entrou no gramado quase todos os fiscais das catracas abandonaram seus postos de trabalho pra ver o ‘espetáculo’, das arquibancadas. A galera invadiu, óbvio. Eita, Brasil!

  Dos 22 atletas brasileiros convocados, oito eram do Vasco da Gama, tido como o melhor time brasileiro à época – Barbosa, Augusto, Ademir, Alfredo, Danilo, Chico, Elye Maneca (bom meia-atacante que depois jogou no Bahia)

  - O grande destaque brasileiro foi o centroavante Ademir, que tinha o apelido de Queixada por conta do formato de seu rosto. Pernambucano, alto e forte, era veloz, tinha boa técnica, chutava bem com as duas e, desbravador, gostava do corpo a corpo,não temia zagueiros. Artilheiro nato, fez 9 gols na competição, mas não conseguiu marcar contra o Uruguai.

  - Na segunda partida brasileira, ainda na fase de grupos, no Pacaembu/SP, empatamosde 2 x 2 com a Suíça, num prenúncio do que aconteceria na final. Nossa seleção venciapor 2 x 1 e dava olé nos suíços pra deleite da torcida paulista, esnobando, de ‘saltinho’. Num descuido, aconteceu o contragolpe aos 43 minutos, faltando dois para o apitofinal, e os suíços empataram. ‘A bola pune’, diz o jargão do futebol

 - A grande zebra da competição foi o triunfo do time amador dos EUA, 1 x 0, sobre a prepotente Inglaterra. O gol foi marcado por um lavador de pratos de um restaurantede Nova Iorque, de nome Gaetjens.- E ainda teve a zebrinha, Suécia 3 x 2 Itália. Os italianos, mesmo com desfalques, chegaram bancando pose de bicampeões, falando em tri, cheios de topetes. Dançaram.

  Na Copa de 50 foram marcados 88 gols em 22 jogos, uma média de 4 gols/jogo. E umaboa, alta média de público, 60.770 pessoas/jogo.

  Nota: Tem mais.“Historiando as Copas’, de zedejesusbarreto, lançado em 2023 pela OjuOBáEditora, à venda pela Amazon, é uma resenha contextualizada de todas as 22 ediçõesda Copa do Mundo de futebol, da primeira (no Uruguai, em 1930) à derradeira, em2022, a Copa de Messi no Catar/Mundo Árabe.Recomendamos. É uma obra indispensável aos que gostam e lidam com o futebol.**