Benito Mussolini, o ditador da Itália, ordenou que o time vencesse a copa
ZedeJesusBarrêto , Salvador |
13/04/2026 às 10:40
O Troféu do Duce
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A primeira Copa do Mundo na Europa, em 1934, foi disputada em gramados italianos, verdadeiras arenas romanas. Tempos dos fulgores fascistas na ‘bota’, sob a batuta do Duce Mussolini, que imperou na Itália de 1922 a 1943. O Duce ordenou e a Itália venceu, na bola e na tora.
Os italianos tinham uma seleção muito boa, diga-se, jogavam o melhor futebol europeu, à época. A seleção e o troféu foram usados como instrumento de propaganda do fascismo, conquistas de um regime que tinha o apoio das massas, bom que se diga.
Duce, do latim Dux, Ducis, significa o líder, o chefe, o comandante, o guia; corresponde ao Führer na Alemanha, o Caudillo na Espanha. Benito Mussolini, à frentedo Partido Nacional Fascista, significava tudo isso. Um ‘mito’ de uma Itália poderosa ,sob um regime autoritário, totalitário, empolado.
Vencer a Copa em casa tornara-se uma meta, uma obrigação, uma ordem mesmo, questão de honra para o poder eorgulho da nação.
Pra se ter uma ideia, Mussolini mudou leis italianas para que bons atletas ,descendentes de italianos que tivesses nascido em outras nações fossem naturalizados italianos e ficassem à disposição do treinador Vittório Pozzo, um bom estrategista, disciplinador rigoroso que exigia espírito de sacrifício de seus comandados.
- Nessa esteira de jogadores naturalizados estava o brasileiro Filó, batizado no Brasil como Anfilófio Guarisi. Filó jogou no Corínthians e, pela seleção italiana, foi o primeiro brasileiro Campeão do Mundo, em 1934.
Vagas e birras
A primeira Copa do Mundo europeia, na Itália, foi atraente, pra eles. Estavam programadas 16 vagas e 32 seleções se inscreveram, concorreram. Então, a FIFA criou um regulamento de torneio com partidas eliminatórias. Se um confronto terminasse empatado, as duas equipes voltavam a campo 24 horas depois para o jogo de desempate.
Foi numa dessa que a Espanha, único rival à altura da Itália, se deu mal. Depois de umempate em 1 x 1 no primeiro embate, os espanhóis apostaram no time reserva para a decisão, 24 horas depois, com um time mais inteiro, descansado... e deu Itália, que venceu por 1 x 0 com sua equipe titular, mesmo no limite físico.
O ídolo e artilheiro Giuseppe Meazza, autor do gol, por exemplo, deixou o campo desmaiado e saiu carregado como herói pelos companheiros.- O Uruguai, primeiro campeão do mundo em 1930, em casa, boicotou a competição, não foi à Itália em protesto formal por conta da ausência da maioria das seleções europeias na Copa de 1930, a primeira, realizada no pais sul-americano.
A Argentina, então vice-campeã mundial, apresentou-se com um ‘arranjadinho’ deúltima hora, porque os principais jogadores argentinos se recusaram a viajar à Europa; resultado, não passaram da primeira fase, levaram 3 x 2 da Suécia.
Intrigas e carteado
Pra variar, a Seleção Brasileira chegou enfraquecida, mais uma vez, por conta de bairrismos e intrigas ‘políticas’, domésticas. Dessa vez, uma rixa entre a Confederação Brasileira de Desportos, a CBD (tida como amadora) e a Federação Brasileira de Futebol, a FBF, dita ‘profissional’. A FBF proibiu que os atletas dos clubes filiados atendessem a qualquer convocação. A CBD convocou os que pode e aliciou outros, como o astro Leônidas da Silva, então no Vasco da Gama.
Ao lado de Waldemar de Brito (o descobridor de Pelé, anos depois), eram as grandes esperanças brasileiras.Ainda atordoados, na rebordosa da longa e cansativa viagem, fisicamente abaixo dos europeus, os brasileiros logo perderam para a boa equipe da Espanha, 3 x 1. Levamos três gols em 30 minutos de jogo. No segundo tempo, com o talento individual de Leônidas, até chegamos a equilibrar as ações e fizemos um gol (Leônidas, o autor).
Zamora, o ótimo goleiro espanhol, garantiu atrás.- Conta-se que os jogadores brasileiros costumavam varar a noite em rodas de carteado, apostado. Tanto que a chefia da delegação, em nota oficial, decidiu limitar o tempo do carteado na concentração a uma hora e meia, apenas, “para não cansar os jogadores”.
Éramos mais que amadores.
Final antecipada
O grande jogo da Copa foi sem dúvida o Itália x Espanha, um duelo de latinos tido como a verdadeira final, antecipada. Para muitos, a Espanha era melhor, mas... num adecisão de 210 minutos, os italianos foram heroicos, ganharam.
- No tempo normal, 1 x 1, mais prorrogação, não saíram do empate, e 24 horas depois voltariam a campo, pro tudo ou nada. Os espanhóis entraram com 9 reservas, apostavam estrategicamente num time mais descansado, melhor fisicamente. Os italianos voltaram com os mesmos 11 titulares. Obedecendo as ordens do Duce Mussolini (era ‘vencer ou morrer’), os italianos, mesmo aos pedaços, venceram, 1 x 0, gol do ídolo Meazza, que no final quedou desfalecido, carregado pelos companheiros, quase que santificado.
Outros atletas italianos também desmaiaram em campo, pelo sacrifício do triunfo.- Na semifinal, com o time fisicamente no bagaço, a Itália venceu (1 x 0) a fraca Áustria, debaixo de muita chuva, campo enlameado, com a torcida milanesa, italiana, escorraçando os austríacos, que dias antes tinham vencido a Hungria, 2 x 1 , na bola ena porrada, uma partida violentíssima.
Três jogadores deixaram o gramado bem machucados, após uma briga generalizada.- Na final, no Estádio do Partido Nacional Fascista, em Roma, mais de 73 mil presentes, com uma arbitragem sueca (no apito, Ivan Ehlind) já dengada e jurada, a exausta Itália derrotou a Tchecoslováquia por 2 x 1, de virada, gols de Orsi (1 x 1) aos 35min dosegundo tempo) e Schiavio (aos 5 min da prorrogação)
Itália campeã, Ave Mussolini, o Duce! Os italianos se esbaldaram em festas e comilanças intermináveis.- Sob o comando do lendário Vittório Pozzo, em campo: Combi, Monseglio e Allemandi; Ferraris, Monti e Bertoloni; Guaita, Schiavio, Meazza, Ferrari e Orsi. O timecampeão, da final.
- O mundial da Itália teve 70 gols marcados em 17 partidas – uma média de gols acimade 4. E uma média de público de 23.235 pessoas/jogo.- O atacante italiano Luigi Bertolini chamou a atenção por jogar com um lenço amarrado na cabeça, protegendo a testa. Exímio cabeceador, vaidoso, dizia proteger acabeça dos golpes na bola de couro, pesada e em gomos costurados, dolorosa.
Nota: Tem muito mais.“Historiando as Copas’, de zedejesusbarreto, lançado em 2023 pela OjuOBáEditora, à venda pela Amazon – uma resenha contextualizada de todas as 22 ediçõesda Copa do Mundo, da primeira (no Uruguai, em 1930) à derradeira, em 2022, a Copade Messi no Catar/Mundo Árabe. Recomendamos. É uma obra indispensável aos quegostam e lidam com o futebol.**Zedejesusbarreto /abril2026