Esporte

HISTORIANDO AS COPAS 14: OS XABUS DO MESTRE TELE EM 1982 E 1986

A Argentina sagrou-se campeã - venceu a final (3 x 2) contra a Alemanha no Estádio Azteca, com mais de 115 mil presentes. O gênio Maradona, no seu auge, foi o craque da competição,
ZedeJesusBarrêto , Salvador | 23/05/2026 às 13:08
A seleção era boa mas deu xabu
Foto: DIV

 O técnico Telê Santana, reconhecido como um dos maiores treinadores da história, não conseguiu vencer uma Copa. À frente da Seleção Brasileira, encantou o mundo em 1982, na Espanha, e competiu bem em 1986, no México, mas não ganhou, não foi feliz, deu xabu na reta final das duas competições. Por ‘mala suerte’ ou fado, destino, calhou nas encruzilhadas do futebol. Telê tinha mente de um mestre angoleiro de capoeira. Pregava e exigia de suas  equipes, de seus comandados um jogo de técnica, eficiência, lealdade e beleza.Gostava de atletas com boa técnica individual e espírito coletivo, de jogo limpo ,ofensivo e bonito, futebol bem jogado.

 Conseguiu isso nalguns times que treinou, foi vitorioso, e sobretudo com aquela seleção de 1982/Copa da Espanha, quando juntou um elenco de craques - Zico, Falcão, Sócrates, Leandro, Junior, Luizinho, Éder, Cerezzo... –, venceu jogos mostrando um futebol vistoso, dominante, mas caiu na reta de chegada. A louvada ‘Seleção de Telê levou 3 x 2 da tinhosa Itália, na até hoje  chorada ‘Tragédia de Sarriá’, em Barcelona .

Quatro anos depois, com aquele grupo de 82 já envelhecido e algumas caras novas, Mestre Telê, novamente à frente da Seleção, voltou a perder, caiu fora da Copa no México. Dessa vez fomos eliminados em cobrança de pênaltis (tiros livres da marca penal) para a boa França de Michel Platini, Tigana, Giresse... Dessa vez sem tragédias, como fosse sina. Foi a Copa de Diego Maradona, aquela com direito até a gol de mão do 10 Diego, ‘La mano de Dios’.

Um diferenciado Telê Santana, o ‘Mestre Telê’, nasceu em Itabirito, Minas Gerais, em 1931, e nos deixou em 2006; fechou os olhos em sua BH, a Bel’zonte, vítima de um AVC. Um leal amante eterno da ‘deusa bola’. Jogou pelo Atlético Mineiro, São Paulo e foi ídolo, fez nome no Fluminense do Rio, anos 50 do século passado, onde atuou por quase uma década, ao lado de Castilho, Pinheiro, Altair, Leo Briglia, Valdo, Escurinho... Era um ponta direita incansável, de ótima técnica individual, inteligência, leitura de jogo e espirito coletivo, que corria o campo inteiro todo tempo, marcava, compunha o meio-campo e fazia seus golzinhos. Um ‘Fio de Esperança’’, assim o apelidou o escritor Nelson Rodrigues, tricolor apaixonado. Telê jogou de 1951 a 1963 e atuou como técnico de 1969 a 1996. Além da Seleção, treinou o São Paulo, Fluminense, Atlético MG, Botafogo, Grêmio, Palmeiras,

Flamengo... e o Al Ahli, nas arábias. Conquistou mais de 50 títulos, inclusive dois Mundiais de Clubes e duas Libertadores da América pelo Tricolor Paulista, onde é reverenciado ‘ad aeternum’.

Um país em lágrimas

A ‘Tragédia de Sarriá’/ Barcelona, aconteceu numa tarde de segunda-feira, dia 5 de julho (era o dia da ‘Volta da Cabocla’ na mística Salvador da Bahia), com 44 mil presentes nas arquibancadas (o estádio foi depois demolido), e o Brasil inteiro liga dono rádio e na tevê, comemorando antecipadamente o título de tetracampeão nas ruas. No final da partida (3 x 2 Itália), choro e lamentos. Uma derrota que marcou profundamente a alma de Telê. Por tudo. Pelo placar inimaginável em campo, mas também pelo reconhecimento internacional, pela arte exibida pelo escrete. Uma ‘gloriosa derrota’, poderíamos assim dizer. 

Na concorridíssima entrevista coletiva, apó sa partida, Telê foi acolhido e despediu-se com todos de pé, aplaudindo-o. Um afago de gosto amargo. Até hoje se discute e se procura explicar aquela derrota. O Brasil vinha de boas exibições, bons resultados até ali. Ganhou, é certo, com dificuldade e ‘uma mãozinha’da arbitragem da URSS (2 x1), na estreia, mas logo deslanchou, fazendo gols e dando espetáculo: aplicou 4 x 1 na Escócia, goleou (4 x 0) a Nova Zelândia e fez uma exibição de encher os olhos (3 x 1) contra os então Campeões do Mundo, a Argentina de Kempes, Passarela e do jovem astro Maradona (que perdeu a cabeça e foi expulso).A despeito do alerta do olheiro Zezé Moreira – ‘cuidado com os italianos’ -, o clima entre os atletas no dia do jogo, segundo depoimento do meia Sócrates, um dos lideres do grupo, era de que ‘somos os melhores e vamos ganhar’. 

Sim, éramos bons e até jogamos melhor que os italianos, mas... naquele dia, caímos numa arapuca de um bom esquema defensivo, da pegada forte e contragol pes rápidos, estratégia bem armada pelo treinador Enzo Bearzot; e, naquela peleja dura, cometemos erros primários de passes, posicionamento e marcação, vacilamos diante do esperto ‘bambino d’oro’, Paolo Rossi – que até aquele momento da competição fazia uma copa apagada, mas marcou os três gols que detonou o Brasil. Rossi seria o artilheiro da competição, marcando mais três, decisivos, do titulo da Itália. Depois, sumiu.

*O fato é que jogamos bem, atuamos a maior parte do tempo no campo defensivo  italiano, desperdiçamos chances incríveis de marcar, o goleiro Zoff inspirado; tivemos um pênalti claro em Zico não marcado e alguns dos nossos destaques - como Leandro, Cerezzo, Luizinho, Junior... – cochilaram em lances capitais, erros fatais. Coisas do futebol, aquilo que o grande Nelson Rodrigues chamava de atos do ‘Sobrenatural de Almeida’. No mais, reconheçamos, a Itália foi pragmática e tinha um timaço, bons jogadore0000000s, a exemplo de Zoff, o carrapato Gentille, Scirea, Cabrini, Tardelli, Conti, Causio, Grazziani e ... um tal de Rossi ‘el bambino d’oro’.

O xabu de 86 no México

 

Após o impacto do ‘Desastre de Sarriá’, a CBF decidiu por uma mudança total, era preciso uma renovação geral. O ‘mestre’ Evaristo de Macedo assumiu o comando e ousou, experimentou, lançou mão de uma garotada, mas... como os resultados não apareciam, o marrento Evaristo acabou batendo de frente com a mídia esportiva,  acartolagem da CBF, e pediu o boné, saltou fora.

 Chamaram de volta, às pressas, o mesmo Telê Santana, que àquela altura trabalhava no futebol Árabe. Telê fez uns remendos possíveis, chamando alguns jogadores de confiança, então envelhecidos e sem boas condições físicas, daquele grupo de 82 – Zico (já baleado),Sócrates (já flanando), sem Leandro (que queria ser zagueiro e não mais lateral), Junior já atuando pelo meio de campo, Falcão, Oscar, Edinho... –, e agregou algumas caras novas de talento, como os avantes Careca e Muller, o meio-campista Valdo, o zagueiro Julio Cesar, o lateral Branco... Arriscou, era o que tinha.No começo, sem brilho, vencemos apertado (1 x 0) a Espanha e a Argélia, ganhamo sbem (3 x 0) da Irlanda e embalamos com um triunfo convincente sobre a Polônia, pelas oitavas de final (4 x 0). 

Mas logo à frente engasgamos com a boa equipe da França de Platini, num sábado, 21 de junho. Um jogaço! Careca abriu o placar mas, no finalzinho do primeiro tempo, Platini empatou, escorando na pequena área um bom contragolpe francês pela direita. Na segunda etapa tivemos a chance de vencer, mas Zico (que acabara de entrar, meio frio, voltando de lesão no joelho) perdeu um pênalti – telegrafou, bateu fraco e ogoleiro Bats adivinhou o canto, catou.

 E a classificação foi mesmo decidida na cobrança de penalidades, e desperdiçamos duas – Sócrates, displicente ou já sem pernas, chutou fraco pra defesa do goleiro, e o zagueiro Julio Cesar mandou uma bomba, balançando a trave. Do lado francês, sorte: a cobrança de Bellone foi na trave, e a bola voltou batendo nas costas do goleiro Carlos antes de entrar. Voltamos pra casa. E Telê desistiu de seleção.

Curiosidades- Os argentinos, então campeões do mundo, jogaram a Copa de 82 com a mente na guerra que os alucinados militares, no poder, acharam de aprontar contra os ingleses, nas Malvinas, extremo-sul gelado do planeta. 

A Argentina rendeu-se, muitos jovens mortos, um trauma.- Em 86, quatro anos depois, veio a vingança em campo dos ‘hermanos’, com o genial Maradona irado, arrebentando e sacaneando os ingleses. Fez gol de mão, saltando com o goleiro, e um golaço, tido até hoje como dos mais bonitos lances individuais de todas as copas – livrou-se, driblando em velocidade, de uns cinco marcadores, desde antes da linha de meio de campo, até desviar do goleiro, já na pequena área inimiga.

- A Argentina sagrou-se campeã - venceu a final (3 x 2) contra a Alemanha no Estádio Azteca, com mais de 115 mil presentes. O gênio Maradona, no seu auge, foi o craque da competição, liderando em campo uns 10 jogadores medianos; Valdano e Burruchaga eram os mais destacados. Carlos Baiilardo foi o treinador. - Maradona, depois da ‘glória’ e vingança contra os ingleses, faria outro gol de placa na semifinal contra a Bélgica e decidiu o jogo da final contra a Alemanha.

 Foi dele o passe precioso para Burruchaga, em contragolpe de velocidade, desempatar (3 x 2), aos 38minutos do segundo tempo, quando os alemães pressionavam, eram superiores em campo.- O Mundial de Maradona, no México, teve 132 gols marcados em 52 partidas, uma média de 2,5gols/jogo.

Nota: Tem mais. “Historiando as Copas’, de zedejesusbarreto, lançado em 2023 pela OjuOBá Editora, à venda pela Amazon, é uma resenha contextualizada de todas as 22 edições da Copa do Mundo de futebol, da primeira (no Uruguai, em 1930) à derradeira, em2022, a Copa de Messi no Catar/Mundo Árabe. Recomendamos. É uma obra indispensável aos que gostam e lidam com o futebol.**