Economia

CHAPADA DIAMANTINA: O OÁSIS DO SEMIÁRIDO BAIANO, POR WALDECK ORNELAS

Waldeck Ornélas é especialista em planejamento urbano-regional. Autor de Bahia Urgências do Presente.
Waldeck Ornelas , Salvador | 27/04/2026 às 15:13
Parque Municipal do Garimpo em Mucugê
Foto: PMG
        No Nordeste, o Semiárido sempre foi considerado uma área problema. Na Bahia, então, isto sempre foi uma máxima, na medida em que esse bioma ocupa a maior parte do território baiano. Atualmente consideram, legalmente, que o Semiárido abrange 85,6% de todo o território estadual e metade da população.

Conservador, prefiro valer-me da definição original do Polígono das Secas dos primórdios da Sudene (Decreto-Lei nº 63.778, de 11 de dezembro de 1968), que se baseava exclusivamente em fundamentos técnicos e científicos, sem as injunções políticas que, sobretudo a partir da Constituição de 88, ganharam proeminência em um Congresso sempre permissivo, ante a ganância despertada pela criação do Fundo Constitucional do Nordeste (FNE), a única vitória que a bancada regional obteve na Constituinte. Como consequência, o Semiárido tem sido estendido cada vez mais… para os lados e para o Sudeste.

Fiel a esse viés, refiro-me aqui a uma das áreas consideradas “zonas de exceção” do Semiárido original, por ter uma precipitação pluviométrica anual superior a 800mm: a Chapada Diamantina.

Esta região central da Bahia, valendo-se do seu microclima ameno, combinado com a altitude elevada, desenvolveu uma economia singular em nosso Estado. Aí tem se consolidado uma sólida e sustentável dinâmica econômica, apoiada em vários segmentos.

O vetor do turismo tem seu marco principal a partir da criação do Parque Nacional da Chapada Diamantina, em 1985, movimento de que participei ativamente. Alcançou um novo patamar com a implantação do Aeroporto Horácio de Mattos (1998), em Tanquinho, distrito de Lençóis, cuja gestão acaba de ser assumida pela mesma concessionária do aeroporto de Guarulhos (SP). Localizado à margem da BR-242, Tanquinho vai receber agora o Terminal Turístico e Rodoviário da Chapada Diamantina. Ainda faltam, contudo, serviços de saúde mais robustos nas sedes municipais.

Cidades históricas e tradicionais – Lençóis, Mucugê, Rio de Contas e a vila de Igatu –, remanescentes do garimpo do diamante e do ouro formam um mosaico inicial a que vêm se agregando outras localidades, como o Vale do Capão, atraindo visitantes para suas trilhas desafiadoras. Toda a região é muito rica em atrativos naturais. Trata-se de ambiente para o ecoturismo, que não pode tornar-se turismo de massa.

A agricultura e a agroindústria, por sua vez, têm revelado boas surpresas, dando vida nova à região. Pela qualidade dos seus produtos, já existem indicações geográficas para a cachaça de Abaíra e os cafés especiais da Chapada, distinguidos com selos de origem. Os municípios de Mucugê e Ibicoara destacam-se dentre os maiores produtores nacionais de batata inglesa. Uma moderna vinícola se apresenta, em Mucugê, como das melhores do país. O cultivo de frutas vermelhas – morango, mirtilo, amora, framboesa – é a nova frente de expansão, baseada na pequena propriedade e no associativismo.

Tendo desenvolvido uma agricultura requintada e com um turismo qualificado, a Chapada Diamantina tornou-se um oásis no centro da Bahia.

O sistema rodoviário regional conta, ao norte, com a BR-242, e ao sul com a BR-030. Se a BR-242 é o caminho a partir de Salvador, a BR-030 o é a partir de Brasília. No limite leste, a BA-142 atende a Andaraí (e sua Vila de Igatu), Mucugê, Ibicoara (e seu distrito de Cascavel), Barra da Estiva, Ituaçu e Tanhaçu, e seu distrito de Sussuarana, já na BR-030. Ainda existem pontes onde só passa um veículo por vez. No eixo oeste, a BA-148 interliga Boninal, Piatã, Abaíra, Jussiape e Rio de Contas, indo alcançar a BR-030 em Brumado, depois de passar por Livramento de Nossa Senhora e Dom Basílio. Falta, no entanto, uma ligação pavimentada entre Mucugê e Abaíra, para interligar a região pelo interior, integrando os circuitos do diamante e do ouro.

O acesso à região, no entanto, é prejudicado pelo fato da BR-242 – verdadeira rota Transbahia – mesclar o tráfego turístico com o de transporte de carga, por fazer a ligação do Oeste baiano – gênese do Matopiba – com os portos do litoral, sem receber a atenção necessária para oferecer adequadas condições de segurança e fluidez. Impõe-se prioridade e urgência em uma concessão rodoviária.

Em Mucugê – cidade tombada pelo Patrimônio Histórico –, a Prefeitura tem uma política de melhorias habitacionais digna de ser copiada, que patrocina a conservação do telhado e da fachada das casas para as pessoas de menor renda. Assim, a cidade está com seu casario sempre bem conservado. Tendo despertado a atenção do mercado imobiliário, foi feita a atualização do plano diretor de desenvolvimento urbano, para acautelar contra a descaracterização.

A Bahia tem a sua economia fortemente concentrada nas extremidades do vasto território: a Região Metropolitana de Salvador (indústria, serviços, turismo), o Oeste (grãos), Norte (fruticultura irrigada) e Extremo Sul (celulose, pecuária, turismo) e conta com, no máximo, duas dezenas de importantes centros comerciais e de serviços, não tendo ainda conseguido espraiá-la significativamente. A Chapada Diamantina é muito bem-vinda a esta constelação.

Ampla e diversificada base agrícola, ecoturismo, agroturismo e enoturismo, esta é a agenda da Chapada Diamantina.