Trata-se de uma raridade da literária baiana o livro de Luiz Carlos Facó intitulado “Tanto no Céu; quanto na terra – uma peça em dois atos” (EDITORA Paginae, 2011, capa e editoração eletrônica Couto Filho, 82 páginas, à venda no portal Shopee Brasil R$30,00) que narra uma história bem baiana que se passa no Céu, segundo o autor em território destinado a oriundos brasileiros natos ou adotivos e qualquer semelhança com fatos reais acontecidos na Terra, particularmente no Brasil, é fruto de mera coincidência”.
Os personagens da obra são o narrador (Facó); Carybé, pintor e muralista argentino radicado na Bahia; Mirabeau Sampaio (pintor) e Norma sua esposa; Quincas Berro d’Água – funcionário público, personagem de Jorge Amado; Camafeu de Oxóssi, capoeirista; Jorge Amado – escritor; Pierre Verger, fotógrafo francês; Frida Kahlo, pintora mexicana; Mãe Menininha do Gantois (mãe de santo do candomblé), ekedes, filhas de santos, figurantes e bailarinas.
Uma narrativa no estilo crônicas de costumes que o autor considera uma “comédia de maus costumes” e ao ser exibida no Teatro Rio Vermelho, duas encenações, foi retirada de cartaz devido censura, pois, comenta passagens do episódio que ficou conhecido no Brasil como “escândalo do mensalão” e faz abordagens sobre o movimento cultural da Bahia (sem movimento) o que teria desagradado os poderosos.
Há dois momentos no livro dignos de destaques. O primeiro deles é o descrito pelo autor como teria surgido a ideia (e a encomenda) da peça teatral, gênero literário que não estava nos seus planos de abordagens e porque e como decidiu fazê-lo; e ainda nessas preliminares, antes de comentarmos a peça propriamente dita, seu conteúdo, o autor faz comentários em “Bem Nascidos” quando narra sua trajetória de vida e família e a ambientação cultural na cidade do Salvador, no final do século passado e no inicio do século XXI, que são reveladores de muitas personalidades, da história e de como se processavam as ideias e elas se interrelacionavam com os poderes e a população.
Bem interessantes esses pontos de vista. Diz o autor que, depois de escrever o romance “Amor entre pó de arroz e batom” recebeu a proposta de um amigo conhecedor da arte teatral, em 2004, de escrever uma peça teatral. “Minha resposta foi um abrupto, enfático e redondo não, sem outras considerações. Contudo, a insistência dele nos dias que se seguiram, até quando ele me disse que era um desafio a minha capacidade intelectual, aceitei a incumbência”.
- No afã de cumprir o acordo, resolvi escrever uma peça de costumes. Uma sátira. Uma comédia. No entanto, as ideias não me vinham. Rareavam. Até quando, sobejado pela sorte, me deparei com as noticias sobre o mensalão através da imprensa, e, delas disse: - Eis ai o tema propício ao meu intento. Expostas em manchetes, entrevistas, quer dos denunciadores quer dos denunciados. Uma mixórdia que não distinguíamos os mocinhos dos bandidos, uma mistura igual à farofa que acompanha o peru de Natal, pois dela participaram ministros de estado, deputados, empresários, banqueiros, publicitários, empreiteiros, arrivistas, doleiros, arapongas, esposas de autoridades, prostitutas e o ‘escambau a quatro”.
Abre-se a cortina num espaço onde abrigam um sofá, algumas cadeiras, um banquinho e um cavalete sustentando um quadro inacabado – uma madona – uma mesa onde repousam paletas, espátulas, tintas, pincéis e uma espécie de telefone. O sofá é ocupado por Mirabeau e Carybé que conversam sobre o fim do Carnaval e a ressaca quando Mirabeau fala que a “preguiça se abate sobre todas as cabeças”. Norma intervém: - Não diga essa palavra compadre (preguiça). Não sabe que é proibida pronunciá-la por aqui? Convém evita-la já que designa um dos 7 pecados capitais.
Eis, portanto, a primeira crítica à baianidade (a preguiça) vista com um costume dos baianos. E o autor, através de Norma, acrescenta a observação de que, quem assim procede e “precisar de uma certidão negativa de pecados para resolver qualquer pendência, eles certamente a negarão”. No que, Carybé (retornando a palavra com tom de indignação) diz: - às favas com tanta frescura. Já não aguento mais tais arrochos” e emenda com criticas ao maramos nas atividades culturais da cidade dizendo que “nos teatros não existem novos lançamentos, bons espetáculos e, muito menos, o surgimento de jovens talentos () A Sinfônica Celeste terminou sua temporada. () As praças celestes estão vazias, de gente de música e alegria. Nem um afoxé, nem o Filhos de Gandhy tem saído às ruas. Até os candomblés deixaram de bater: Mãe Menininha do Gantois, Mãe Creusa e as demais fecharam seus barracões”.
Mirabeau, calmo e disposto ao diálogo, diz: - É a crise, meu amigo, que assola essa parte do céu. Os juros estão exorbitantes. () A cachaça importada lá da Terra, do nosso Brasil, aqui é vendida mais cara que uísque envelhecido. Não vê como andam rindo Clemente Mariani, Fernando Góes e Miguel Calmon? (banqueiros). Carybé: - Estão com as burras cheias. O povo que se foda. Norma: - Que é isso, Carybé? Deixe de indecências. A qualquer hora você será chamado ao Tribunal dos Pecados para explicações.
A conversa segue com Carybé se queixando que foi tomar um empréstimo no Banco da Bahia, mas, os juros eram muito altos, e falar de preguiça era pecado capital, mas, a escorcha capital não era, e ademais que seus quadros não estavam vendendo. Mirabeau, revela, no contraponto que “os meus vendem, por preço vil, é verdade () e bons preços só conseguuem os artistas do infinito desenvolvido, Da Vinci, Rafael, Boticelli...com quadros disputados na Daslu Celestial, por milhões de patacas celestial.
O autor, então, apimenta o cenário com a observação que os artistas locais estavam no limbo desde que o PT que “reúne hostes de peraltas, aquele da estrela vermelha, assumiu o poder e instalou um propinoduto celeste. A conversa dos atores é encaminhada para o campo político e Norma adverte para ter cuidados no que falam para que não fossem parar no purgatório. “Lá eles confiscam até os seus pincéis. E, depois, babau...
Chega ao cenário Quincas Berro d’Água e a conversa volta a ser amena com o escrachado pedindo que lhe fosse servida uma pinga, da boa, e Carybé, pede noticias de Jorge Amado: - Conte-nos como vai o Jorge Amado. Tem visto ele, não tem? Aquele descobridor de mulheres fogosas, dengosas, sestrosas, de ancas largas e seis fartos, é incapaz de nos procurar. O ‘sacana’ depois que aqui chegou, só vive metido com intelectuais de ‘bosta’.
A conversa é entremeada entre o trivial (o sabor da cachaça e sua origem) e a politica Quincas revelando que Jorge “está retado porque proibiram a circulação do seu livro só por causa daquelas ‘trepadinhas’, sem consequência () Ademais, anda com saudade enorme do ‘Partidão’, o da sua juventude (aquele partido era puro, idealista. O que governa este pedaço do céu é uma antítese. Uma vergonha. Eu digo, uma esculhambação, uma excrescência”.
Mirabeau repele Quincas: “Não entendi a sua irritação. Há bem pouco tempo, você proclamava a necessidade de ter um santo sindicalista na presidência. () Que tudo ia melhorar. Quincas responde: - Porque só agora entendi, que santo de casa não faz milagre.
Bem, não vou contar todo o enredo da peça senão perde a graça para quem vai adquirir o livro. Posso dizer, no entanto, que o autor segue apimentando o diálogo com críticas ao modelo intelectualizado baiano de viver, ora nas asas dos governos; ora mais livre e aos governos petistas até a era Dilma Rousseff com citações do episódio do mensalão onde, entre outras, “patacas celestes” eram carregadas em cuecas, malas, sacolas e baús.
O segundo ato se passa no barracão do candomblé do Gantois quando Mãe Menininha voltou a bater, Camafeu de Oxóssi como uma espécie de anfitrião recebendo convidados, a turma já citada no primeiro ato e mais a pintora mexicana Frida Kahlo, e o autor segue com sua crítica de costumes apimentando ainda mais as tintas com a evocação de Exú, diálogos surrealistas, enfim, o próprio Exú dizendo que um pedaço do céu virou um caos administrativo.
Quem quiser, portanto, conhecer um livro que considero uma raridade, pois, não conheço outra peça que tenha colocado esses personagens em cena num modelo tão crítico e pertinaz a realidade de uma época, do que “Tanto no Céu quanto na Terra”.