Trata-se de uma nova versão do livro de Mary Shelley, romantizada e com imagens fantásticas da vida e da morte
Tasso Franco , da redação em Salvador |
30/01/2026 às 11:44
Frankestein e a interpretação biblica
Foto: DIV
O filme Frankestein do experiente cineasta mexicano Guillermo del Toro, autor, entre outras películas da A Espinha do Diabo (2001) e O Beco do Pesadelo (2021) concorre a 9 estatuetas do Oscar, inclusive na categoria de melhor filme. Assisti-o no canal Netflix e apreciei muito as imagens, a fotografia, o claro escuro e até a ternura em que coloca o monstro (ou assombração) que tem caracterizado esse personagem da literatura inglesa, com a apresentação de um similar , Victor Frankenstein (Oscar Isaac) um cientista egocêntrico, que dá vida a uma criatura em um experimento que acaba levando à destruição.
Nesta nova adaptação do clássico da britânica Mary Shelley (1797 a 1851), del Toro confere história um romantismo gótico, um deleite visual e emocional que reflete o carinho e o fascínio que o diretor tem pela criatura. É um filme que não reflete a imagem clássica de um monstro, tanto que o telespectador se sente como se estivesse um filme de ficção sem esa característica, sem suspenses, e a interpretação de Jacob Elordi é sublime.
Del Toro transforma o clássico em espécie de fábula divinatória com referências bíblicas, como na sequência da leitura da história de Adão e Eva feita pela criatura, e também por sua pose em formato de cruz ao ser eletrocutado por raios e, posteriormente, ganhar vida.
Visualmente, diria, que Frankenstein é merecedor de todos os elogios, do início ao fim, desde as cenas do navio encalhado no gelo ao reaparecimento do monstro nas sombras gélidas do mar do Norte, com vida e morte se entrelaçando.
- A violência, por vezes chocante, nunca é gratuita. Ela se torna expressão dos males humanos e das feridas da criação. Quando a criatura se entrega à raiva, não é sua monstruosidade que transborda, mas sua humanidade. É o gesto mais humano possível: sofrer, amar e, por fim, destruir, escreveu um dos comentaristas do filme.
O próprio del Toro e parte do elenco, como Mia Goth, chegaram a firmar em entrevistas que Frankenstein não é um filme de terror. E é possível compreendê-los, ao menos em parte. O filme nasce do terror, mas é também uma obra de fantasia, ficção científica e drama.
A crítica internacional destaca que Del Toro criou sua obra mais humana — e talvez a mais pessoal — desde A Forma da Água. É o gesto de um homem apaixonado por tudo o que é imperfeito, que finalmente encontra em Frankenstein a oportunidade de declarar esse amor.
Victor Frankenstein ergueu um monstro, Guillermo del Toro escreve uma carta de amor no formato de um filme que pulsa com a ternura e a melancolia de quem acredita que até as criaturas merecem ser amadas.
Belíssimo filme e com certeza levará estatuetas.