Tasso Franco, 80, é jornalista, escritor, pintor, músico e estudante de psicologia
Tasso Franco , Salvador |
27/01/2026 às 08:04
Adélia e Juciara se dirigindo à praia da Pedra do ET
Foto: Seramov
Num domingo de verão que não me recordo o ano, sei que foi numa temporada recente – ando me esquecendo das datas e dos lugares como os antigos taxistas da Barra - a senhora Adélia Santana residente na Eduardo Diniz Gonçalves acordou cedo para ativar os preparativos de ida a Praia da Pedra, atrás do Restaurante Barravento.
Dirigiu-se nas primeiras horas da manhã após o café matinal a Mercearia do Netinho na Francisco Otaviano para comprar um galeto assado grande, pançudo, dois tubos de refrigerantes de dois litros cada um deles, pães de sal, uma bisnaga de mortadela, um punhado de farofa, meia dúzia de picolés de coco e morango tudo para ser devidamente consumido por seus filhos menores Juracy e Jurandir, e também pela quase mocinha Juciara, como era de lei, passando o dia na praia e só voltando para casa no escurecer.
Cutucou Valdir – seu esposo – antes de se deslocar ao Netinho, o qual dormia em ronco de assovio, diria, até de se sorrir, puxou o dedão encardido do seu pé direito dando um solavanco e berrou a pulmões plenos de fôlego: “Vamos acordar distinto senhor preguiça do mundo, que hoje é dia de levar as crianças à praia”.
Adélia se lembrava que no tempo de seus avós nascidos e criados na rua das Palmeiras, ela própria alcançou o Clube Palmeiras da Barra onde muito dançou e paquerou. Por lá, conheceu Anacleto E se animou por ele, um tempo, mas depois sentiu fraqueza na sua pegada; depois por Gilmar cabelereiro, muito gabola para seu gosto; e, finalmente, estacionou e se apaixonou por Valdir, alfaiate de linha e dedal, primoroso, bigodinho de Cantinflas na face, esguio, bom de patinar em danças no salão e espada da boa, rija, com quem se casou anos depois e teve três filhos que os chama de divindades, amores, flores, um monte de adjetivos e substantivos grandiosos.
E, assim, também se lembrava do tempo antigo quando o mar batia no quintal dos Santana a ponto do velho Domingos, a pedido da esposa Pulquéria, ter construído uma paliçada onde hoje é a rua Miguel Burnier para evitar que a maré alta da água e a espuma branca invadissem seu fogão de lenha ou molhasse a madeira rachada que comprava para cozinhar.
Bons tempos arguia Adélia consigo mesma quando Valdir em salto lento da cama ergueu os braços para estirar o esqueleto, arregalou os olhos ainda inchados de tanto dormir, procurando saber ser ela já tinha feito o café e o que havia para comer.
- Fiz o meu e das crianças e creio que sobraram dois ou três dedos no quente-frio. E, se mais queres – apontou com seus dedos e unhas pintadas de vermelho - o pó tá no armário, o coador na geladeira e a panela no fogão.
- Sim, senhora, respondeu Valdir escovando os dentes e avisando que ela seguisse com as crianças para a praia, iria em instantes e levaria um cooler com as geladas, solicitando que Adélia ligasse para sua irmã Andrela, boa parceira de copos e apreciadora do puro malte.
Nisso, nesse papo de ajustes, Adélia gritou para Jurandir pegar a boia do Logan na garagem do veículo, levar a corda azul de nylon para amarar no tornozelo de Juracy, apelidado de Cy, moleque sempre arisco à beira mar e passasse no posto da Marquês de Abrantes para enchê-la, uma vez que estava murcha.
Jurandir saiu em disparada para a garagem a fim de cumprir o pedido da mãe, Cy encheu balde de plástico com uma pá, um ancinho e outros brinquedos praieiros, Juciara se besuntou de um protetor solar e enfeitou os lábios com batom vermelho cor idêntica que sua mãe usava nas unhas, combinadas.
Enfim, estavam prontos, arrumados. Adélia pegou numa alça da sacola contendo os petiscos, o frango já recheado dentro dos pães de sal, Juciara segurou na outra alça dividindo o peso do objeto e seguiram para a praia da Pedra, um pulo andando, só atravessar a Miguel Burnier, a Oceania, descer na escada na lateral do Barravento e sentir a areia do mar nos pés.
Adélia – meus distintos leitores - é vaidosa. Usava uma saída de praia tipo pareô cobrindo quase todo seu corpo, porém, o tecido transparente permitia verificar suas formas físicas de bom volume, seios fartos, com maiô discreto cobrindo as saliências do bumbum. Portava uma sandália tipo havaiana presente que lhe dera outra irmã chamada Ademari, a Cheiro, que Juciara com seu olho crítico dizia que a decoração da sandália parecia uma barata voadora.
Já na praia da Pedra, a boia cheia de ar, inflada, Adélia amarrou a corda no contorno da boia e a outra ponta no seu tornozelo e Cy, saltitante, de imediato caiu no mar bravio da Oceano Tenebroso.
Enquanto Cy corria em disparada Adélia gritava para ele ter cuidado e não se separar da boia.
- Fique entre a pedra do ET - que dá nome a praia – e a do Escorrego, e não avance a terceira, a Pontuda, pois adiante o mar é aberto, violento.
Cy dava ouvidos ao que a mãe falava, creio, e obediente mergulhava entre a primeira e segunda pedras protegido pela boia.
O prazer, a alegria, se estampava no rosto de Adélia com aqueles três meninos na praia, sua paixão, sua existência, o que lhe dava ânimo para enfrentar a vida laboral como técnica em enfermagem com emprego garantido na estrutura estatal, o que também lhe assegurava o plano de saúde - “graças a Deus” - e bicos que fazia nas horas vagas dando injeções e cuidando de idosos.
Acompanhava, preocupada, a decadência da profissão de alfaiate, que já foi uma coisa boa, de dar dinheiro e assegurar prestígio, mas, com as confecções baratas vindas da Ásia, as encomendar caíram, o marido andava deprimido e também fazia bicos tocando rebolo quando amealhava trocados complementares para o sustento da família. Ainda bem que moravam em casa própria herdada do velho Domingos de pai para filhos.
Nesse divagar de ideias chega a praia sua irmã Andrela, a melhor escova e cabeleireira à domicilio da Barra, vistosa como uma sereia, portando um cooler repleto de puro malte e ostentando uma glamurosa saída de praia amarela estilo macramê, com frisos dourados e usando um chapéu de pano.
- Tia, tia, gritou Jurandir quando viu a donzela: “Pai vai adorar essas latinhas geladas”.
E Valdir também chegou à praia trazendo consigo um pequeno isopor azul com mais puros maltes, latões suados, e saquinhos de batatinhas fritas para as crianças, além de um acarajé completo para a sua querida Adélia, que tanto gosta do bolinho de fogo da baiana que os vende ao lado do Barravento.
A família em lazer estimulante e integral assim poderia ser descrita a cena por algum escritor que soubesse manejar a pena com maestria, interpretar o retrato do amor e da felicidade dos pobres, de prazer, de captar esse espírito todos juntos, divertindo-se na obra de Deus e entregues a uma alegria contagiante e pura.
Tia Andrela acomodou a sua toalha na areia, fez um montinho usando os pés para servir de travesseiro, retirou a saída da praia e deitou-se para bronzear as costas e a Cordilheira dos Andes, assim parecia ser o seu bumbum, acomodando um fio dental entre as montanhas que não se via qual a cor dele.
- Irmã - ponderou Adélia – afaste esse cálice do tinto saboroso e pecador, de olhares tentadores.
- Assim na terra como no céu – pilheriou Valdir – abrindo um latão com o polegar e levando-o para a cunhada se refrescar por dentro e retornando para junto de Adélia, também abrindo mais latões para si e outro para a esposa.
Nesses momentos, Valdir superava a depressão, esquecia a tesoura, as agulhas e as linhas, bebericava o puro malte com sofreguidão e prazer, brincava com as crianças e apreciava a cordilheira da cunhada, pois, embora amasse Adélia, tinha uma paixão platônica pela cunhada, o que é natural entre famílias, sobretudo as mais pobres da Bahia (e nas ricas também) e zombava com esse inusitado.
Nisso, quero dizer no decorrer da conversa e do olhar para o mar, surgiu uma onda mais forte do nada, provavelmente de um vento que soprou de Ondina por trás do Morro do Cristo, Adélia sentiu um solavanco no tornozelo onde estava amarrada a corda ligada a boia usada por Cy, se levantou assustada olhando mais atentamente para o mar, e viu a boia chegar a beira da praia sem Cy.
Foi um Deus nos acuda. Adélia partiu mar a dentro feito uma flecha tupinambá, gritando por Cy, Valdir se levantou como se fosse um leão, a tia suspendeu a cordilheira e sentou-se atônita na toalha, mas, para a sorte de todos, Cy estava agarrado a pedra Pontuda, na boca do mar aberto, ao que se podia ver protegido por um ser estranho, que um vendedor de queijo coalho e habitué do local, disse ser o ET da Pedra.
Adélia jogou a boia para Cy que foi resgatado sem ferimentos e o ser estranho desapareceu mar à dentro levado pelas fortes ondas.
A família ficou um pouco abalada, mas continuou na praia a se distrair, em círculo, a saborear os petiscos trazidos por Adélia, o pão recheado com frango, enquanto a tia Andrela, a verdadeira sereia da Barra, caiu n’água e nadou com peixes a espera de algum ET, tubarão ou “véi” da lancha, mas, eles não apareceram.
Valdir filosofou – Meu Deus, que perdição, que perdição.
Já estava o sol a se por na Ilha de Itaparica, na ponta de Cacha Pregos, que se vê da Praia da Pedra e os mais afortunados do mirante do Barravento, quando a família Santana levantou panos e velas, recolheu possíveis detritos colocando-os na sacola, inclusive os latões vazios e retornaram para casa. Valdir, por ordem de Adélia a levar a corda em mãos e a boia no pescoço.
A reportagem do Correio do Povo reportou no dia seguinte que o salvamento do garoto Cy fora mais uma ação do ET da Pedra. Não a primeira e única, pois, já havia salvo outros tantos naquele local.
Na segunda, Valdir voltou as linhas e as agulhas, Adélia deu plantão no Hospital São Judas Tadeu, Andrela agendou uma escova para madame Roza no Morro do Gato, na sexta, e a vida seguiu adiante, os meninos de férias esperando a escola em tempo integral do governo reabrir.
Vê-se, pois, que Salvadores não é só festas, pão e circo.