Apreciei, em especial a “Invasão de Território” conto a Luara Batalha, pela sutileza do texto e o encaminhamento da narrativa.
Um livro bem baiano. Coletânea de contos organizada por Matheus Peleteiro intitulada Soteropolitanos (Edição do Autor, 2020, 162 páginas, capa Suzana Lopes, Livraria LDM R$30,00) contendo 28 contos de autores baianos (ou que vivem na Bahia) ambientados em Salvador, o que é mais apreciável ainda, com textos que vão de Kátia Borges a Gustavo Rios; de Achel Tinoco a Iggor Chiacchio.
Como diz o organizador Matheus Peleteiro em nota “a presente obra surge com o intuito de evidenciar a vastidão das variadas narrativas que figuram o presente tempo, trazendo ao público uma miscelânia de autores, alguns estreantes e outros com mais tempo de estrada, que vivenciam ou vivenciaram as maravilhas da cidade do Salvador. É evidente que a antologia não visa catalogar todas as centenas de vozes que ecoam através da prosa soteropolitana, afinal, a concretização de um trabalho como um objetivo como esse representaria numa enciclopédia, que dependeria de uma milagrosa assunção de todos os autores e uma quantidade bíblica de folhas”.
A seleta, portanto, contém textos de Kátia Borges (Desde que começamos a contar os mortos); Catharina Azevedo (No intervalo); Luara Batalha (Invasão de Território); Breno Fernandes (O sal da terra); Amós Hebert (O sonho da Nossa Senhora); Anna Luiza Rocha (O fio); Edgard Abbehusen (Só o amor une pessoas especiais); Daniel Pasini (Duas identidades); Paulo Bono (Meu tio Geraldo); Rodrigo Melo (Você nem gozou); Jaisy Cardoso (Contorno); Gustavo Rios (Quijote ao sol); Gabriel Lima (Pituba); Tony Lopes (Três olhos tristes); Victor Mascarenhas (Um cidadão do bem); Murilo Melo (O casamento do astronauta); João Mendonça (Todos os esquadrões do mundo); Laize Ricarte (Helena não fala); Júlia Grilo (Daniel e Oswaldo); Clara Cerqueira (Eu nunca mais beberia); Gabriel Veronez (Entreato);Hosanna Almeida (Dorinha chanceler); Matheus Peleteiro (A falta); Achel Tinoco (Clínica do povo); Clarissa Macedo (À espera); Mauricio Requião (Souvenir); Franciel Cruz (O plágio, o rio e a dor); Iggor Ciacchio (A morte de uma puta mulher ou o anel e o broche).
Peleteiro atesta que a seleção dos contistas se deu de forma natural com resultado excelente cabendo aos leitores o julgamento do exposto. Creio, em olhares atentos aos textos, que temos diante de nós, diferentes visões sobre personagens que habitam a ficcional Salvador com pitadas de realismo, linguagens diversas, às vezes lugares comuns; noutros refinamentos literários. Enfim, um mosaico com múltiplas ideias, de agradável leitura e contextos variados.
Claro que cada leitor (a) terá sua percepção distinta uma da outra, o que é natural e até salutar, pois gosto não se discute ainda mais quando se trata de literatura. Apreciei, em especial a “Invasão de Território” conto a Luara Batalha, pela sutileza do texto e o encaminhamento da narrativa.
- De onde estou, observo aquele que sempre invade o meu território. Alia, parado com um estranho cabelo cuja cor varia entre o preto e o azul. Não gosto de gente de forma geral, mas como também não moro só, preciso aceitar alguns visitantes. Mas, esse, em especial, passou de todos os limites com seja comportamento, e preciso mostra a minha indignação com a sua presença.
Também gostei bastante de “Duas Identidades”, de Daniel Pasini, creio, na mesma linha de textos sobre o comportamento humano (vide Luara Batalha), texto levíssimo, suave e com final de contista profissional, que surpreende os leitores.
- Minha mãe tinha duas identidades. Na primeira, a mais habitual, ela era uma mãe de três filhos que ajudava o marido nas contas da casa fazendo transporte escolar numa kombi azul enquanto cursava letras na UFBA à noite. A segunda era secreta, só os filhos conheciam. () Morávamos numa casa de madeira que estalava às 11 e às 23h. Existia certo ar de suspense e mistério naquele lugar, que se aprofundaram com o tempo na minha memória.
“Três olhos tristes”, de Tony Lopes, encheram meus olhos de entusiasmo. Para mim, o melhor, um despertar, uma relação muito forte do autor com o personagem, uma escrita refinada.
- Sempre tem uma primeira vez. Em tudo. Desde aquele primeiro choro até um grito de dor. O primeiro beijo. O primeiro orgasmo. A primeira decepção. No entanto, entre o começo e o fim de uma história existem muitos começos e outros tantos fins. () Com Luiz Carlos sempre começava mal. E quase sempre terminava da mesma maneira. Mas a vida real não segue a lógica dos números ou das palavras. Existem os encontros e os desencontros. As curvas e as retas e o sempre presente imponderável.
Há, pois, nesse conto algo que Nassin Nicholas Taleb chama da “A lógica do Cisne Negro” ou como estamos sempre à mercê do inesperado.
Também apreciei bastante o conto “A Falta”, de Matheus Pelegrino, explorando um tema bem focado em personagem do centro histórico da cidade que perambula entre o Carmo e o Pelourinho, cenas do cotidiano com sua filosofia e poesia embutidos no texto, típico de autores que já têm mais intimidade com a literatura. E a personagem central do conto se sente desprezada, invisível, no mundo real da cidade do Salvador habitada por tanta gente e visitada por muitos de fora.
- Eu abaixo a blusa e mostro os meus seios leitosos a qualquer um que encontre na rua. Acho que assim consigo provar que estou dando de mamar a crianças e fazer jus a alguns trocados. () Eu sei, são peitos magros e desnutridos, e, ao exibi-los, corro o risco de parecer uma mentirosa desesperada, mas eu não sou mentirosa! Tenho sim, quatro filhos por aí! Quer dizer, três, desde que Angélica, que me ajudava a conseguir as coisas e me fazia companhia, faleceu, dois dias antes de completar catorze anos. Agora, são dois meninos e uma bebê.
Eis, pois, a abordagem do autor na revelação da tragédia citadina comum em Salvador ao situar que a personagem tem “quatro filhos por aí!”. Quer dizer, três desde que Angélica, que me ajudava a conseguir as coisas e me fazer companhia, faleceu, dois dias antes de completar catorze anos. Agora são dois meninos e uma bebê. (). Aqui, agora, enquanto essa dor de dente me faz gemer e os meus olhos lacrimejam, sinto uma saudade danada dela, que era a única pessoa no mundo que conversava comigo, me ouvia e me ajudava a arranjar comida ou cobertor mesmo quando eu não tinha condições sequer de ficar em pé. () ...depois de sua partida, virei uma animal. Que falta de minha filha faz.
Já outros contos com citações mais diretas e realistas à cidade – Pituba, Jardim Apipema, Av Contorno – são emblemáticos, porém, falta uma pegada mais criativa o que é essencial a um contista. O livro, no entanto, tem todos os méritos pois o foco principal não era esse, de uma seleta de excepcionais contistas, mas, de contistas que estão se encaminhando no mundo literário e ainda têm uma longa estrada a percorrer.
Vale, também, pelo inusitado do tema central a cidade do Salvador, diferente do que foi publicado recentemente em “A História por trás da história” organizado por Katiana Rigaud, mais abrangente, sobre a Bahia, uma publicação valiosa. Há momentos em “Soteropolitanos” que se entrelaçam a ficção com a realidade e lembram narrativas dos escritores russos do século XIX, Tchekhov, Dostoievski, Gógol, mestres que escrevam contos e crônicas de São Petesburgo, entre outros.
“Soteropolitanos” que vai completar 6 anos de editado valerá uma nova publicação, atualizada, em 20230, assim há de ser, imagino. Só imagino, pois, sei o quando custa em trabalho fazer isso.