Cultura

AGENTE SECRETO CHEGA A NETFLIX E ABRE JANELA DO DEBATE MAIS AMPLO (SO)

Um bom filme, porém, de dificil entendimento; recomenda-se, antes de assistir, ler uma sinópse
Tasso Franco , da redação em Salvador | 09/03/2026 às 17:45
Wagner Moura como protagonista principal
Foto: BJÁ

  Vi o filme "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho, na Netflix, ontem, e confesso que a expectativa de grandeza produzida pela mídia nacional em torno da película e o desempenho de Wagner Moura, o protagonista principal, não me impressionaram. 

   Pelo contrário, se diluíram no decorrer da movimentação do enredo algo que ficou a desejar em se tratado de um episódio (entre outros já relatados) envolvendo a última ditadura militar no Brasil, porém, o novo é o tratamento dado pelo diretor, de mostrar um traço dessa ditadura (os esquecidos pela história, os sem documentos), que se configura o melhor.

   Creio, também, que são nesses momentos que Wagner Moura atua representando 3 a 4 campos da existência humana, como pai e filho, sereno, equilibrado, com uma interpretação que valoriza o pensar.

  Temas e episódios envolvendo a ditatura recente (1964-1984) em que muitos participantes dos dois lados ainda estão vivos, tanto daqueles que a combateram; quando de possíveis torturadores, de dirigentes governamentais e empresários especuladores é sempre objeto de atenção especial, contestações e análises as mais diferenciadas. 

  Em “O Agente Secreto” quando o diretor mostra um posto de gasolina (São Luís) nos arredores de Recife e o corpo de um assassinado coberto da papelões, supostamente folião do famoso Carnaval pernambucano, e o professor (Wagner Moura) vai abastecer o veículo que dirigia, se surpreende com aquela cena macabra.
 
  Instantes depois a Policia Rodoviária chega ao local, com sirene aberta, e ao invés de verificar o que aconteceu com o morto e ouvir a versão do dono da bomba, ignora-o e vai revistar o carro do professor.

  E o que acontece? O telespectador se põe num clima de tensão, de que algo vibrante vai acontecer, e não acontece nada. Os policiais levam apenas um resto de maço de cigarros do professor e vão embora. O corpo permanece no chão, agora, cercado de cachorros e o dono da bomba o enxotando-o.

  Daí ele segue para Recife, um mascarado (careta) o incomoda na passagem, e vai aportar na pensão de dona Sebastiana. O roteiro dá a entender que ele estava voltando a Pernambuco ameaçado de alguma coisa (essa tensão é permanente), mas, o telespectador que não leu a sinopse do filme ou conhece a narrativa do professor perseguido por um empresário beneficiário da ditadura, fica sem entender nada. 

  O que só vai acontecer, se isso de fato acontecer, na segunda parte da película e o encaixe entre a paixão do filho do professor criado pelos avós em Recife, os desenhos de tubarão, o filme tubarão, a lenda da perna cabeluda de Pernambuco (o tubarão que devorou um cidadão e ao morrer deixou os dentes uma perna mal assombrada que, em tempos pretéritos, saia pulando por um parque de devassos na capital pernambucana, assombrando todo mundo). Já e de algum tempo um tema dos cordelistas e do folclore pernambucano que até bloco de Carnaval tem.

  Essa relação para quem não é pernambucano é complexa no entendimento dos telespectadores, um traço bem sugestivo da cultura popular de Pernambuco, e demora-se para perceber que, sendo o avô do filho do professor, operador de cinema, ele evitava que o menino visse o filme Tubarão que assustava as pessoas. 

 Enquanto isso, quem está assistindo o filme sente pouca vibração no enredo e sua ligação com a ditadura até que as várias pontas começam a se interligar a partir do momento em que o professor revela sua identidade (não era Marcelo), e surge em retrô seus algozes que lhe roubaram, em SP, onde atuava, inventos relevantes (como o carro voador, etc) e ele é obrigado a retornar a Recife para se livrar de um possível assassinato.

  Depois, já em Recife, trabalhando no Instituto de Identificação é perseguido por dois assassinos de aluguel que vão atuar com o beneplácito da Policia local, que além de pouca objetividade no roteiro, acabam terceirizando o serviço. 

   O final dessa segunda parte me pareceu algo mais emotivo. O pistoleiro de aluguel, no cartório onde são distribuídas carteiras de identidade, ao conferir Marcelo (ou Armando) por uma fotografia, chama-o pelo nome como se fossem amigos de infância. 

  O protagonista procura a polícia e na incompetência do plano o pistoleiro mata os policiais e foge baleado sem cumprir o seu objetivo de matar o protagonista.

  Achei confuso esse desenrolar das cenas o pistoleiro matando o encomendador do crime e fugindo impune. O professor também morre. Mas, como morre? Não ficou claro.

  Que o Agente Secreto é um a obra de arte, sem dúvida, com produção primorosa remetendo ao ano de 1977. A interpretação de Wagner Moura é excelente assim como a de Udo Kier, Luciano Chirolli, Tânia Maria e Maria Fernanda Cândido, Hermila Guedes, Alice Carvalho. A fotografia e o figurino são impecáveis.  
 
    Em tese, é um filme que remete ao passado (1977) e revela a dureza social e as perseguições políticas da época da ditadura, mas, de difícil entendimento. A última parte, então, quando o filho do professor, médico, atuando em Recife é entrevistado por uma pesquisadora pernambucana que mora no Sul (papel também interpretado por Wagner Moura) ele mostra desconhecer a história do pai, a história real (de perseguido e morto pela ditadura) e até a história familiar, considerando que seu verdadeiro pai é o avô, que o criou. É um excelente desfecho para intelectuais. Um cinéfilo médio não entenderá nada. 

 Kleber Mendonça Filho vai revelando em seus filmes como se tentou apagar a memória de brasileiros que combateram a ditadura, o que já tinha realizado em “Ainda Estou Aqui” e “Retratos Fantasmas”, filme anteriores do diretor recifense.

  O professor (Marcelo, Wagner Moura) ao passear por ruas e prédios como a Praça do Sebo e o cinema São Luiz, também o foco de Kleber em “Retratos Fantasmas” – o diretor expõe ao Brasil e ao mundo emblemas no combate a ditadura. E respirar esse ar e passar nesses locais, elevou a interpretação da Wagner Moura.
 
   O “Agente Secreto” tem, pois, um enredo mais refinado do que “Ainda Estou Aqui”, mais indireto, mais subliminar, por isso mesmo o entendimento é mais difícil. Mas o cinema não é TV, não é entretenimento. É arte, é colocar as pessoas para pensarem, refletirem, discutirem.