Cultura

MUSEU DO RECÔNCAVO WANDERLEY PINHO E OS FANTASMAS DE UMA ÉPOCA (TF)

A visita é aconselhável ser feita pela Baía de Todos os Santos donde se realiza um belíssimo passeio
Tasso Franco ,  Salvador | 24/01/2026 às 12:14
Museu Wanderley Pinho
Foto: BJÁ
   ENGEHNHO DA FREGUESIA

  O açúcar foi o motor da economia baiana entre os séculos XVI a XVIII com seus engenhos concentrados no Recôncavo devido ao clima e solo favoráveis. O número de engenhos variou bastante ao longo dos séculos e estima-se em 120 (sec XVI e XVII) e no auge (sec XVII e XVIII – 200).

  Planta nativa do sudeste asiático e importada pelos portugueses para Ilha da Madeira e Canária a cana chegou ao Brasil com   Martin Afonso de Souza para a Capitania de São Vicente, próximo a Santos, por volta de 1534, e a Bahia com os primeiros colonizadores e o donatário Francisco Pereira Coutinho. “O primeiro engenho teria sido de João Velosa que se fixara em Pirajá”. Recôncavo – Milton Santos pág.25

  Baseado no latifúndio, o plantio da cana e a produção do açúcar eram realizados pelos escravos africanos, que produziram grande riqueza para os senhores de engenho e a coroa portuguesa. A partir do século XVII, a concorrência com o açúcar holandês produzido no Caribe e a descoberta de ouro em Minas Gerais levaram à perda do monopólio e ao declínio da produção açucareira na região. A história é longa e há uma bibliografia imensa para quem quiser se dedicar ao assunto. 

   Falaremos apenas de um exemplar dessa história a Casa Grande e Senzala do Engenho da Freguesia, em Candeias, hoje, sede do Museu Wanderley Pinho, que visitamos, ontem, com um grupo de amigos. 

  O museu foi instalado na casa grande com uma exposição permanente onde podem se ver peças do mobiliário da família e foram colocadas em áreas distintas peças relacionadas com a escravidão; e noutra área uma expo intitulada “Encruzilhadas” com curadoria de Ayrton Heráclito e Daniel Rangel, com foto, esculturas, óleos e outras expressões artistas de baianos e estrangeiros com tema focado na cultura afrobrasileira, desde Juarez Paraíso a Aristides Alves.

   O Museu Wanderley Pinho foi restaurado recentemente pelo governo do Estado com recursos do Prodetur, R$42 milhões, mas o projeto em sua amplitude ainda não foi concluído. 

  Por enquanto só estão abertos a Casa Grande e a Capela, as áreas da senzala e do engenho propriamente ditos (a fábrica do açúcar) já passou por reformas e estão descaracterizados pelo que se vê no teto (fora do contexto) e outras estruturas, mas, segue fechados e não há visitação pública nem se sabe o que se instalará por lá e qual a linguagem a ser utilizada.

   O engenho da Freguesia dada do século XVIII (1760) e tudo o se fala anterior a essa data são suposições. Frei Jaboatão, um dos maiores memorialistas da Bahia antiga, diz que havia por lá, em 1618, uma vivenda. Os primeiros indícios de engenhos (Caboto e Freguesia)  surgem com o capitão-mor Cristovão da Rocha Pita (1760) e um dos seus herdeiros Antônio da Rocha Pita Argolo, conde de Passé, funde os dois engenhos num só, o Freguesia.

  O Conde de Passé morreu em 1877 e o engenho passou a pertencer ao Barão de Cotegipe, seu filho, o poderoso politico baiano João Maurício Wanderley, escravista que lutou contra o fim da escravatura, cuja filha, se casa com João Ferreira de Araújo Pinho, governador da Bahia, em 1908.

  A essa altura, a escravidão formal acabara em 1888 e a cana-de-açúcar ainda tinha valor para a economia, porém, muito menos, e o engenho acabou (a fábrica, a moenda) e o local passou a ser entreposto de fornecedor de cana.

  O museu, hoje, leva o nome de José Wanderley de Araújo, neto do Barão de Cotegipe e filho de João, historiador, político, prefeito de Salvador, nos 400 anos da cidade, idealizador da Avenida Centenário que corta a sesmaria de Diogo Alvares e Catarina Paraguaçu ao meio, entre a Graça e a Barra, o qual, ao contrário do avó, não era escravista e defendeu no Congresso Nacional a proteção do engenho como patrimônio Histórico e Artístico, pelo IPHAN.

   No governo Luís Viana Filho (1967-1971), o governador, que era um intelectual e homem de cultura, o estado adquiriu o espólio (a área) do Engenho da Freguesia e instalou o Museu do Recôncavo dando o nome de Wanderley Pinho, uma homenagem ao historiador José. 

   Por ironia do destino, a história tem esses detalhes que que são muito difíceis se serem apagados, afinal de contas, José era neto do velho Barão de Cotegipe, e seu pai, João, renunciou ao governo da Bahia na “guerra” com JJ. Seabra. São os espctros, os fantasmas de uma época. (TF)


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