Os quatro elementos que sustentaram a economia de Serrinha no tempo dos meus avós: os burros, os cavalos, os jumentos e os bois
Tasso Franco , Salvador |
22/01/2026 às 09:39
O burro carregou a Serrinha nas costas durante muitos anos
Foto: Seramov
O burro era a Hilux do tempo dos meus avós (1880-1960). E o cavalo o Corolla da Toyota. Faço essa analogia em tom humorístico para traduzir uma situação que a realidade da época se impunha, sobretudo no período que vai de 1880-1935, quando esses animais eram os utilitários – de carga e passeio – da população serrinhense até que, na década de 1930, com a construção da Transnordestina no governo Vargas que ligava o Brasil de Norte a Sul, entre o Rio Grande do Sul e Ceará, surgiram os primeiros automóveis e a vida das pessoas, do comércio, serviços e indústria se modificaram.
No período de 1880-1935 – algo em torno de 55 anos e também antes disso desde a fundação do povoado a partir de 1723 - o burro e o cavalo – com suas variantes a mula, a égua, os jumentos macho e fêmea – foram os motores que movimentaram e sustentaram as estruturas econômicas da localidade nos deslocamentos das pessoas e das cargas, portanto, dos negócios, sem os quais seria impossível a localidade progredir.
Tudo o que se produzia – carnes, cereais, artesanatos, etc – era transportado pelos burros e cavalos bem como os deslocamentos das pessoas da sede da vila e depois cidade para as fazendas, para os povoados e distritos. Na inicial, entre os anos de 1723-1880, eram os tropeiros que abasteciam o povoado, arraial e depois vila e tudo que saia e chegava a localidade era levado ou trazido nas patas e lombos dos burros e cavalos.
E quem quer que fosse a capital Salvador se deslocava montando (a) num burro. O primeiro capelão que veio rezar missa chegou montado num burro. E o juiz de paz, Pai Geza, tinha um burro enorme para ir aos distritos.
Havia um outro meio de transporte os carros-de-bois que atuavam mais no âmbito das fazendas e também eram importantes nesse processo. O burro e o cavalo, no entanto, tinham mais mobilidade, eram mais rápidos, mas eficientes, daí o meu comparativo com a Hilux e o Corolla.
Meu pai, por exemplo, usou durante muitos anos sobretudo entre 1940-1960 cavalos para se deslocar da sede (Serrinha) para sua fazenda Capitão (Teofilândia) que distava 20 km percorrendo essa distância em pouco mais de 1 hora, com paradas na Bola Verde e no Escorrego. Levava consigo dois alforges com comida e correspondência que moradores dessas regiões residiam em São Paulo e mandavam noticias e dinheiro para seus parentes. Trabalhava na fazenda dois dias e retornava para a sede colocando o cavalo no sitio do meu avô que ficava no fundo de sua residência.
Essa era uma prática comum de todos aqueles que lidavam com a cidade-campo, quer fossem produtores rurais de maior porte ou menor porte. As pessoas que se deslocavam de suas propriedades rurais de pequenos e médios portes para a feira livre da cidade, aos sábados, levavam consigo as mercadorias que iriam vender – cereais, carnes, artesanato, galinhas, perus, etc – utilizando essas montarias e as carroças.
Presenciei muito a chegada de jegues carregados de potes e moringas de barro que vinham dos povoados para serem vendidos no Largo da Federação. Serrinha, por posto, possuía, inclusive, estacionamentos para esses animis em determinadas áreas da cidade, da iniciativa privada, e as pessoas pagavam uma taxa do seu uso.
Embora Serrinha já tivesse uma ferrovia desde 1880 a estrada de ferro só ligava a sede a dois dos seus povoados – Lamarão e Barrocas – e em deslocamentos para Salvador e/ou noutra direção até Juazeiro. Os negócios, no entanto, eram com Salvador sobre o embarque de cereais, fumos e carnes de charque.
O trem, no entanto, tinha um dono (o governo federal) e uma estrada fixa nessas duas direções. Tudo o mais que se fazia em termos de transporte dependia dos burros e cavalos. Se fosse para levar os fardos de fumo para a gare do trem se utilizava carroças. Se fosse para receber uma autoridade e os políticos se utilizavam as carroças. Quando Ruy Barbosa esteve em Serrinha na campanha politica de 1915 foi recebido na gare do trem e seu deslocamento para o centro da cidade se deu numa charrete.
A charrete que conduziu Ruy entre a gare do trem e o centro da cidade pertencia a José Cordeiro de Almeida e estava ornamentada com rosas e puxada por uma parelha de burros e subiu a rua da Estação, em passo lento, acompanhada de uma Guarda Branca e de senhorinhas, entre elas, Pipe, Anatildes, Hilda e Zulimira todas da família Paes.
Na gestão de Antônio Pinheiro da Motta (1912 a 1915), 7º intendente, este determinou a construção do primeiro matadouro público da cidade, do calçamento da Rua da Estação, e havia problemas com o recolhimento do lixo nas residências, feiras livres e mercados, e o Conselho, então, autorizou a “abertura de crédito suplementar de 400 mil réis para que fossem utilizados na compra de um burro e carroça para recolhimento dos detritos”.
E assim foi feito e o recolhimento do lixo por carroças puxadas a burros durou mais de 30 anos, entre 1912-1942 quando passou a ser substituído por veículos automotores.
O transporte da carne entre o bairro do Matadouro (hoje, Novo Horizonte), neste local e nos matadouros anteriores, no Largo da Matança e na Rua do Clube, para o centro da cidade, sobretudo o Mercado Municipal construído em 1950, durante muitos anos também utilizava carroças puxadas a burros.
E o abastecimento das casas de água de gasto e dos armazéns e indústrias era feito por aguadeiros que se utilizavam de jegues e barris.
Ou seja, em resumo, a Serrinha foi movida por esses animais (o que de certa maneira era o meio de transporte de outros municípios do sertão da Bahia, salvo aqueles que tinham rios) e mesmo com a chegada dos automóveis - de passeio e utilitários, as mudanças foram se processando a partir da segunda metade dos anos 1930, de maneira lenta, gradual, inicialmente com os Ford de bigode (carros de passeio), depois com jeeps Willys (após a II Guerra Mundial) que eram carros de passeio, táxis e utilitários; as caminhonetes e os caminhões Chevrolet e mais adiante, a partir a implantação da indústria automobilística em SP, anos do governo JK, a chegada dos carros da Volkswagen e outros.
Aos poucos, já que esse processo de mudança maior só vai acontecer a partir dos anos 1960-1970 e está fora do meu roteiro, do tempo dos meus avós, fico apenas até o ano 1960 quando ainda predominavam os burros e cavalos, mas, já rodavam muitos veículos automotores na cidade.
E, meus avós, por lembrança, não tiveram veículos automotores, não aprenderam a dirigir automóveis e nem os usaram, faziam os percursos de suas casas para o comércio, etc, a pé, e meu avó Jovino, que era roceiro, literalmente, morreu em cima de um burro.
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Há, em Serrinha, na Praça da Estação um monumento dedicado ao trem, obra do artista visual Maninho, porém, falta à cidade um monumento que preste homenagem ao burro, ao cavalo, ao boi e o vaqueiros, pois, foram esses quatro elementos os motores de sua economia em determinado período da história e até mesmo nos dias atuais, afinal de contas, Serrinha é a capital nacional da Vaquejada que nasceu como uma festa do homem do campo (produtor e vaqueiro), do cavalo e do boi e se transformou ao longo dos anos, mas, mantém essa característica.
A associação boi, cavalo, burro, terra, pecuária, agricultura, riqueza, cultura, negócios, etc, estão relacionados na nossa raiz e nada foi planejado para que isso acontecesse.
Foi um processo evolutivo natural que foi se organizando na medida das necessidades. Quando primeiro chegou o boi surgiu a necessidade de ter o homem vaquejando-o e apareceu o vaqueiro; adiante idealizou-se o carro-de-dois e moldou-se o carreiro; e como os carros tinham rodas e aros de ferro, surgiu o ferreiro; e assim, por diante.
A mesma coisa aconteceu com a chegada do automóvel. Lá um dia Graciliano de Freitas foi ao “Pau Ferro”, sua fazenda, usando um Ford de Bigode e o carro quebrou. Para resolver o problema importou um mecânico de Alagoinhas e esse mecânico ficou morando em Serrinha após consertar o Ford e surgiu, assim, o primeiro mecânico e oficina da cidade. Mas os veículos tinham pneus que furavam e surgiram os borracheiros, depois os eletricistas, os bombeiros para bombas de gasolina e assim por diante formando uma cadeia produtiva sem essas bobagens do que se diz hoje de “planejamento estratégico”.
O conhecimento exige estudos e tem fases e inúmeras regras e equações enquanto a novidade mesmo planejada chega de forma aleatória especialmente no Brasil onde os prazos das obras nunca são cumpridos. Porém, a novidade chega assim mesmo, mais cedo ou mais tarde.
O trem estava previsto para chegar em Serrinha por volta de 1875 e chegou em 1880. Foi uma novidade fantástica e toda comunidade se deslocava para a gare a fim de conhecer (e usar) o trem. Com o passar do tempo houve uma adaptação da comunidade ao trem e virou uma rotina.
O primeiro impacto e a primeira vitima do trem foi o burro, pois, os tropeiros que abasteciam Serrinha desapareceram. Ora, uma tropa de burros saindo carregada de Salvador até Serrinha via Água Fria demorava, no mínimo, uma semana, e o trem encurtou esse tempo para 6 a 8 horas.
Depois vieram os automóveis outra grande novidade. Diferente do trem os carros tinham pneus de borrachas e rodavam em todas direções, a mobilidade, portanto, era maior, e isso vai impactar na diminuição do uso do burro e do cavalo, ao longo dos anos, no território da comunidade.
Igualmente ao trem, os veículos automotores foram novidades, depois adaptados às condições locais e se tornaram rotina. Assim é o processo natural que se deu na escala burro-trem-automóvel e suas variantes motocicletas e bicicletas.
Assim andou e se formatou Serrinha. A inversão desse processo não se dará mais salvo, evidente, num evento como a vaquejada ou outra festa folclórica, mas, seria anormal se hoje, uma pessoa fosse a uma festa na AABB montada num burro e chegasse na portaria do clube perguntasse ao porteiro onde estacionaria seu veículo.
*** Próximo capitulo as figuras folclóricas, o lobisomem, o nêgo d’água e outros.