Os textos de Lourenço nos remete a esse olhar do livre pensar sem amarras, sem tutelas, permitindo que cada qual elabore seus conceitos e ele os dele que são primorosos, reveladores e livres dos plantonista do politicamente correto.
Rosa de Lima , Salvador |
10/01/2026 às 08:58
Livro de Lourenço Mueller, Tudo tem a ver com tudo
Foto: BJÁ
O arquiteto baiano Lourenço Mueller surpreende também com sua pena literária. Não conhecia nada de sua escrita até que chegou às minhas mãos “Tudo tem a ver com tudo: umas histórias e uma tese (Editora Autografia, 2024, Rio de Janeiro, capa caricatura do autor por Cárcamo, 123 páginas, AMAZON, r$24,90) uma sutil autobiografia, algo inteligente na Província da Bahia.
Digo isso porque o autor fascina os leitores com análises sobre o tempo de sua pessoa (tem 80 anos de idade), Salvador e os movimentos que aconteceram na cidade, tudo com finíssima ironia, ou como está no descritivo da publicação “tudo tem a ver com tudo”.
A questão primordial, creio, é que nem sempre conseguimos enxergar o processamento dessas mudanças, que são muitas, e ainda temos a nos perseguir (nos dias atuais) ou a tentar nos ensinar caminhos e conceitos que não são os corretos ou corretos são na visão dos ideólogos de plantão. E nossas goelas não suportam esses ingredientes, nos engasgamos, embora muitos deles (a maioria) não entendam assim.
Então, a leitura dos textos de Lourenço nos remete a esse olhar do livre pensar sem amarras, sem tutelas, permitindo que cada qual elabore seus conceitos e ele os dele que são primorosos, reveladores e livres dos plantonista do politicamente correto.
Lourenço inicia sua obra falando do tempo: “Sou daquele tempo em que se começou a construir no Brasil uma capital nascida do zero e u’a música popular que se transformou em tudo que se pode pensar em termos de amor e dor, de filosofia e gozação e de quase tudo que é poético. Sou desse tempo moderno e daquele pós-moderno. () E o que se pode depreender desse fato? Nada. Absolutamente nada: Natanael Abdias Damasceno dos Anjos, vulgo Nada. As coisas, todas as coisas, podem até ter vida inteligente, mas nada significam”.
Eis, pois, nos parece o âmago do pensamento do autor, de um niilismo que aflora nos textos iniciais, permeia o livro de ponta a ponta até o final. Ótimo. Aprecio os niilistas e muita gente pode pensar que sou daquelas que Nada acredita. Mas, o Nada dos niilistas tem profundidade e se concentra numa crítica social relevante. Um conceito filosófico com análises provocativas sobre o cotidiano humano. E, no Brasil, o filósofo Luís Felipe Pondé é uma das eminências pardas sobre o tema.
Voltando a Lourenço na inicial do seu trabalho ele pondera: - Boas ideias estão condenadas a nunca serem discutidas sequer. Mas eu continuo insistindo nelas... e em homenagem aos nativos e seus primeiros dono, a BTS (Salvador) deveria se chamar, oficialmente, Kirimurê. Pelo menos nesses textos, vamos chama-la assim.
- Mas a Bahia é um desperdício de cultura e história, uma vergonha de gestão. Repito, Einstein escreve que só existem duas coisas infinitas, o universo e a estupidez humana, e não está muito seguro do primeiro. Confirmaria a segunda hipótese se se tivesse conhecido os governantes dessa terra.
- Fui criado entre negro. Nunca soube que tivesse tido uma ama de leite, mas tive criadas, hoje chamadas babás, até os cinco anos. Convivi com empregadas e cozinheiras negras ou mulatas ao longo da infância e da adolescência fui aluno do mestre Bimba, eu e mais três colegas, meninos de 15 anos, além de ‘Zinha” ter sido uma das minhas musas multiétnicas, negra linha, u’a missa, era a babá do meu sobrinho, apesar do apelido, nada tinha de prostituta e era u’a majestade no porte. E quando digo musa, quero dizer enredo de punheta, já que eu era muito verde para provar aquela uva de dezoito anos, em verdade um vinhedo inteiro, negro roxo. Tentar tentei, mas não deu: apenas três anos mais tarde, servindo ao exército, com um pimpão a la Elvis, soube que era queria “me dar”; domésticas gostam de soldados, mas nunca mais a encontrei, essa sorte eu não tive.
- Mestre Bimba conseguiu manter, suja e decadente, no Centro Histórico, uma “academia” de capoeira. A maior parte de seus alunos era branca de classe média, mas no Nordeste de Amaralina, onde o mestre mantinha uma casa de Candomblé e jogávamos capoeira aos sábados e domingos, a maioria era negra e mulata, meus camaradas de roda. Hoje, vendo antropólogos brancos, e mesmo negros, explorando esse pedaço da nossa formação, percebo quanto estão distantes das nossas realidades história e quotidiana.
Eis, para a apreciação dos nossos leitores, alguns pequenos trechos do livro de Lourenço onde se pode perceber como sua verve é solta tratando os assuntos – a capoeira, a classe média, os antropólogos, o cenário do centro histórico – da maneira que ele presenciou e participou sem artifícios e sem recheios de grandeza e beleza, tão comuns de vermos quando se fala de Salvador.
Pelo contrário, o autor ao situar que Bimba mantinha uma “academia” – entre aspas – “suja e decadente” no CH expõe a realidade da época e quem frequentou a “academia” de mestre Pastinha no Largo do Pelourinho sabe que esse era o cotidiano.
- Tento reconstruir um pouco o cenário de uma época pouco estudada em Salvador, nas décadas de minha infância e adolescência. Não havia motéis, o sexo não autorizado era praticado com as prostitutas nos “castelos”, que nada tinha de castelo, eram tugúrios no Centro Histórico, tristes e feios. Ou com as “graxeiras”, as flores sem cheiro, como eram chamadas as empregadas domésticas. Ou, como sempre, nas coxas das namoradas. Havia também uma categoria chamada de “programista” moças da classe média que saiam com os que já tinham carro na época.
A pena de Lourenço percorre muitos mares de Salvador e da Bahia, e cira desde Diógenes Rebouças – o maior urbanista baiano; a Fernando Pedrão e o carnavalesco Osmar. São textos livres como situa o autor “ficção e reflexão” e na parte 2, creio, a mais relevante do livro dedilha alguns acordes sobre as novas formas de pensar, mais antenada com a atualidade nessa sociedade que se sustenta (em parte) através das tecnologias da informação, dados, uma montanha de dados, havendo uma mudança no uso da cidade, nas suas praças e ruas, uma mudança radical no comportamento das pessoas.
- Certos autores – explica o autor – assumem importância especial numa problematização desta sociedade pós-moderna. Os mais discutidos, Peter Hall acena com a possibilidade de uma nova idade do ouro das cidades; Boaventura de Souza Santos faz renascer a utopia socializante, conduzindo-nos pela mão de Alice para o desafio de uma nova subjetividade; Steven Johnson inaugura uma percepção instigante sobre o papel da interface na cultura que transparece no ciberespaço; Howard Rheigold revela as novas práticas agregadoras de comunidades virtuais; William J. Mitchell em “City of Bits” visualiza uma única cidade global cujas atividades se redesenham através da eletrônica.
Lourenço cita ainda David Harvey, Gilles Deleuze, Donna Haraway, Felix Guattari, Jane Jacobs, Berger e Luckmann and Kevin Lynch e admite que “a cidade toda, ou quase toda, pode virar um meio, um media, com uma semântica diferente de tudo o que já houve, espaços e tempos subvertidos e outra lógica, outra linguagem e outra realidade, uma realidade virtual”.
O que o autor – em tese – discute na sua essência: é o que nos aguarda (e já está acontecendo) com mudanças de outra ordem.
Lourenço trata, por fim, da cidade iminente, da aparente, da subjacente, da decadente, da emergente e da imanante. E conclui: - O homem continuará atravessando períodos de esplendor ou miséria, de paz ou de guerras, com a coragem e a astúcia que lhe permitiu sobreviver, para o bem ou para o mal, até agora.
Diria, “mutatis mutandis”.