As principais portas de entrada dos negros na sociedade Serrinhense foram a 30 de Junho, o futebol e o Só Falta Você
Tasso Franco , Salvador |
08/01/2026 às 09:08
As portas de entrada dos negros na sociedade Serrinhense: a 30, o futebol e o Só Falta Você
Foto: BJÁ
17. OS NEGROS E MESTIÇOS
A história da Serrinha antiga está completando neste 2026 mais de 310 anos de existência porque, antes mesmo da compra do Sitio Serrinha por Bernardo da Silva, em 6 de setembro de 1723, documento que existe dessa época, um marco, portanto, o povoado vai começar a se formar a partir dessa data com a mudança da família de Bernardo da Fazenda Tambuatá para o sitio Serrinha.
Tudo o mais que se sabe, ou boa parte do que se sabe, no genérico, está no documento de alienação das Terras dos Tocós escritura pública que dona Isabel Guedes de Brito passou em 31 de maio de 1717, em Salvador, ao capitão Antônio de Affonseca Correia, morador em Cachoeira dos sítios Massaranduba, Serra Grande e Dois Irmãos.
Neste documento registra-se os limites das terras, por um lado a estrada da Massaranduba onde morava o capitão João Alves Filgueiras, para o Tambuatá, onde morava Bernardo da Silva e daí, como pião, corria rumo direito para chegar a nascente no Morrinho, que está entre o Saco Grande e a Fazenda da Serra e Serrinha.
Quem construiu a casa de morada dessa Fazenda Serra e Serrinha também chamada de Cittio Serrinha e quem morava nela antes de Bernardo, pouco se conhece. O documento da compra do sitio (na época escrevia com c) passado em cartório registra que o negócio foi feito com Joanna Guedes de Brito, herdeira da Casa da Ponte, proprietária de todas as terras dessa sesmaria até o Itapicuru, “em que está de renda Gaspar Pinto”.
Então, na Fazenda Serra e Serrinha quem morou antes de Bernardo foi Gaspar Pinto que, pouco ou nada se sabe da família dele.
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Hoje, vou escrever sobre os negros e mestiços que ajudaram a construir o povoado de Serrinha, o arraial, a vila, a cidade e o município, pois, sem eles seria impossível domar a terra nas áreas rurais e erguer as casas e os estabelecimentos de comércio.
Mas, de onde teriam vindo essas pessoas se não existem registros oficiais delas, seus nomes, suas origens, etc?
Ora, se já é difícil escrever sobre a história antiga de Serrinha devido a falta de documentos primários, salvo algumas escrituras que estão arquivadas no IGHB e no Arquivo Público do Estado, há documentos de compras de escravos através de recibos e outros, tudo o mais trata-se de suposições, embora, claro, suposições com fundo de verdade, uma vez que, os tropeiros existiram, os curraleiros idem, vaqueiros, aboiadores e os artífices - pedreiros, carpinteiros, ferreiros, etc.
Comecemos a partir da compra do Cittio Serrinha por Bernardo da Silva, em 1723. Quando ele se mudou com a família do Tambuaté resolveu construir uma casa maior, uma capela e um tanque (da Nação) em área adjacente a capela e a casa (onde se situava o antigo Mercado Municipal.
Bernardo não era pedreiro nem seus filhos. O capitão Apolinário, o mais velho, cuidava da fazenda, um era padre, as meninas donas de casa, então, ele contratou pedreiros, auxiliares e carpinteiros para esse trabalho.
Eis a questão: donde vieram essas pessoas se o povoado ainda era somente uma rancharia?
Supõe-se, portanto, que vieram da Água Fria e de localidades da estrada das boiadas – Ouriçangas, Pojuca, etc – e que, concluídas essas obras se estabeleceram em Serrinha.
Mas levantar uma casa tem a parte complementar – o madeirame, as portas, janelas, vidros, tramelas, ferrolhos, etc – e, claro, foram necessários a contratação de marceneiros e ferreiros.
A construção – o levante – era com adobes (tijolos largos de barro) – mas o telhamento era com telhas cozidas e a casa era caiada. Ou seja, alguém fabricava as telhas e a cal vinha de algum lugar.
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Agora vou encurtar a história para chegar no tempo dos meus avós (1880-1960) e observem que, entre a chegada de Bernardo (1723) e o inicio de nascimento dos meus avós (1880) se passaram 173 anos e a Serrinha, a essa época, já era uma vila.
Isto é, tinha várias casas, a inauguração da estrada de ferro, armazéns de cereais, igreja, etc, portanto, chegaram e se multiplicaram o número de artífices e artesãos.
Meus avós nasceram na década da abolição da escravatura (1888) pelo decreto imperial da princesa Isabel, mas, antes disso teve todo o movimento abolicionista, as leis do Ventre Livre e Eusébio de Queiroz e os fazendeiros locais e alguns comerciantes compravam e vendiam escravos que, ficaram libertos, a partir de 1888.
Se admite que muitos negros fugiram dos engenhos de açúcar do Recôncavo e subiram para o Norte em direção a Jacobina, São José das Itapororocas (hoje, distrito de Maria Quitéria, Feira), Candeal, Serrinha via Praiano, Baunilha, Bela Vista onde chegou a ter um possível Quilombo chamado Flor Roxa.
Foi esse grupo de pessoas – negros e mestiços – que formou a base intermediária para sustentar a Serrinha vista na pirâmide, no topo os fazendeiros; do meio para cima os comerciantes, etc; e do meio para baixo os artífices e os auxiliares.
Tudo isso se misturava e se entrelaçava, havia preconceitos diversos, porém, em Serrinha, não houve registro de casos mais graves de racismo e de discriminações. Nas escolas municipais já partir das primeiras décadas do século XX, mantidas pela Intendência (Prefeitura) admitia-se brancos, pretos, mestiços, pobre e intermediários. Os ricos – assim chamados – alguns deles colocavam os filhos para estudar em Salvador nos internatos de freiras e padres e para terem diplomas de doutor.
E como a sociedade se comportava a partir do tempo dos meus avós?
Dentro do padrão nacional da época do Império, porém, como já falamos nos capítulos anteriores, Serrinha não teve nobres. Isto é famílias com títulos de barões, marqueses e condes.
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A grande novidade desse período, a partir de 188O, foi a inauguração da estrada de ferro que demorou 28 anos para ser concluída entre Salvador e Juazeiro. Dom Pedro II contratou os serviços de uma empresa inglesa (Bahia and San Francisco Railway Company) e a obra começou na Estação da Calçada, em Salvador, em 1859 e o primeiro trecho até Alagoinhas (Estação São Francisco) foi concluído em 1863.
Os ingleses deixaram a obra em 1867 exatamente quando se fazia a ligação Alagoinhas a Serrinha e o Império avocou para si essa responsabilidade o trem chegando a Serrinha, em 1880. E vai chegar em Juazeiro em 1887.
O que quero mostrar para vocês é que com a construção da ferrovia, ao menos, em se tratando dos negros e mestiços, dois movimentos importantes aconteceram. O primeiro foi a presença de mais negros e mestiços na vila, pois, Serrinha serviu de base para dar prosseguimento da estrada até Vila Nova da Rainha (Bonfim/Juazeiro), com oficina, açude, caixa d’água, máquinas, etc, e tudo isso precisava de gente especializada que a vila não possuía e veio de fora.
O segundo movimento foi a presença do operariado, organização social de trabalhadores que começou na Inglaterra (1ª revolução industrial 1760-1840) com as fábricas de tecidos e a vila de Serrinha conheceu na 2º revolução industrial (1850-1945).
E que operariado era esse?
Mecânicos de trens, engenheiros, maquinistas, foguistas, peões, técnicos diversos, topógrafos, etc, muitos dos quais eram negros e mestiços e, com o passar dos anos, vão se fixar em Serrinha para sempre. Lembrando que no território de Serrinha foram implantadas três estações de trens – Lamarão, Serrinha e Barrocas.
Nunca fiz um estudo sobre esses pioneiros, mas, creio, que foi a partir do trem que os negros e mestiços passaram a ser identificados com registros de trabalho, nome, filiação, local de residência, etc. Era uma praxe da Leste Brasileiro herdeira da San Francisco Company.
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FOTOGRAFIAS – Há, algumas fotografias que são emblemáticas dessa história dos negros e mestiços de Serrinha. Três delas são ligadas ao trem. A primeira de 1880, inauguração da estação, a essa época Serrinha já era município emancipado de Irará (1876) e a Câmara de Vereadores presidida por José Joaquim de Araujo (Capitão Zezinho). Na foto, vê-se que a elite da vila compareceu vestida a caráter os homens de paletó e gravata, a maioria de linho branco, todos de chapéu. As mulheres de vestidos longo em branco. Havia, ainda, algumas crianças e alguns negros.
A segunda foto é do inicio do século XX, o padre Carlos Ribeiro, usando uma batina bege, posa em frente a uma locomotiva ao lado de 7 pessoas sendo que 5 delas são negras, das quais, um está de paletó sem gravata e as outras três com fardas da Leste – quepes, gravatas, etc, o que significa dizer que eram maquinistas, foguistas e guardas da estação. Os outros dois são brancos, provavelmente, o chefe da estação e seu auxiliar imediato.
A terceira foto é de 1950, explosão da máquina 500, onde aparece um grupo de 12 pessoas, muitos dos quais negros e moradores do Cruzeiro, pessoas pobres diante dos trajes que vestem. Nesta explosão foi ferido um baleiro chamado Pedro, preto, que sobreviveu, mas ficou mancando de uma perna.
Conheci bastante Pedro Baleiro, pois, na década final de 1950 trocava revistas na porta do cinema e lá estava Pedro vendendo balas. Posteriormente, se tornou comerciante na praça Luís Nogueira. Sempre que ia a Serrinha trocava dedos de prosa com Pedro. Faleceu velhinho e constituiu família.
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Ainda sobre fotos, a mais importante de todas quando falamos de negros e mestiços é a fotografia produzida em 19 de abril de 1896 de inauguração da Philarmônica 30 de Junho onde se vê 18 músicos, 5 diretores (entre eles Aurélio Dionisio de Almeida, de terno branco e chapéu à moda francesa) e o maestro, sendo que, dos 18 músicos, entre 6 e 8 deles são pretos e mestiços.
Sabemos que uma filarmônica é uma entidade cultural, sem fins lucrativos, constituída por pessoas de uma comunidade e que exerciam profissões diversas no seu dia a dia. Um dos primeiros maestros da 30 se chamava Vianinha e era alfaiate, proprietário da Alfaiataria Viana. Em 1925, meu pai quando começou a tocar clarineta era auxiliar de tipógrafo. E vários músicos que conhecemos nas décadas de 1950 eram barbeiro (Simão, preto, tocava caixa); Ernestro, preto, tipógrafo (tocava prato); Panema (preto, sapateiro) tocava bombardino; etc.
A pergunta é: quem eram esses pretos e mestiços da foto de 1896 e o que faziam em Serrinha?
É difícil saber e não tenho conhecimento se os arquivos da 30 registraram seus nomes e profissões. Mas, o significativo a destacar é que naquela época, apenas 8 anos após o fim da escravatura, os negros e mestiços procuravam se inserir na sociedade local e a 30 de Junho foi a porta de entrada.
Que visibilidade maior e inserção daria um negro do que ser músico, desfilar com a 30 e participar de um concerto? Eis a relevância.
A 30 seguiu com essa dimensão e uma família de negros tem uma forte relação com a entidade, os irmãos – José, Panema, Alfredo e Nelson – todos músicos e benfeitores, sobretudo José (Zé) Ramos. Nelson, tocava trombone, se tornou músico profissional e tocou nas orquestras de Azevedo e Celso.
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Outras fotos relevantes estão relacionadas com a inauguração da Praça Manoel Victorino, em 1917, na gestão Luis Ozório Nogueira. Nessas fotos pode-se ver a Serrinha em peso na inauguração e muitos negros e mestiços. A praça, se constituiu no primeiro espaço democrático racial da cidade.
Bem, uma outra questão que não consegui desvendar está relacionada com o profissional da fotografia que atuava em Serrinha no final do século XIX e início do século XX.
O “Jornal da Serrinha”, fundado em 1917, já publicava algumas fotos (poucas) mas não dava crédito ao fotógrafo.
Sabe-se, no entanto, que a fotografia surgiu na França no segundo decênio do século XIX e chegou ao Rio de Janeiro, em 1850. Daí para Serrinha não demorou muito, pois a foto da 30 é de 1896.
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Há, ainda, no tempo dos meus avôs, um momento digno de nota que foi a organização social dos negros numa agremiação carnavalesca o “Clube Social e Carnavalesco Só Falta Você”, 1944, à frente o incansável Zé Ramos e sua esposa Marieta.
Esse mesmo Zé Ramos reunia os pretos em torno de sua liderança para estimular a autoestima e ele, que era apelidado de “Coqueiro”, por sua altura (tinha quase 2 metros), participou dos times de futebol e da seleção da Serrinha, como goleiro.
O futebol, por conseguinte, foi outra porta de entrada para os negros na sociedade local e dezenas deles participaram das equipes com destaque para Alberto Ramos (o Albertão) que foi campeão baiano pelo Botafogo, em 1949, e era sapateiro na Serra.
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Os movimentos finais dessa crônica são registros da compra de escravos e o que aconteceu após a abolição (1888) com as adoções de negros por diversas famílias.
A abolição, como sabemos, extinguiu a escravatura de maneira formal, porém, os negros não tiveram suporte nem do Império (que logo caiu) e da República nascente. Foi um salve-se quem puder e as organizações sociais e os movimentos politizados só começaram a ganhar força e dimensão na segunda metade do século XX.
Em Serrinha, há muitos registros da compra e venda de escravos, antes de 1888.
Já no tempo dos meus avós, eles estavam adultos no inicio do século XX e não tiveram escravos. Meu avô Jovino, no entanto, adotou uma menina preta, natural da Fazenda Alto que era vizinho da sua fazenda Guariba (área conhecida em Serrinha como Matão) para morar com a família e fazer companhia a meu pai, que nascera em 1910.
Essa negra que tinha o apelido de Didi morou conosco a vida toda. Era mais velha do que meu pai, provavelmente, nasceu em 1905, e meu avô a tinha como filha, porém, não a registrou assim. Foi uma agregada à família que passou a morar com meus pais a partir de 1940, quando nasceu meu irmão mais velho.
Ajudou a cuidar de todos os filhos do casal e tinha seu quarto, sua penteadeira, uma renda extra de flores que cultivava no jardim e faleceu na década final dos anos 1980, velhinha e solteira.
Meus pais adotaram uma outra menina, também preta, chamada Elisa, para serviços auxiliares na casa (não sabia cozinhar) arrumadeira, etc. Quando ficou adulta meu pai levou-a para trabalhar no “Serrinhense” ensinou-lhe a arte da tipografia e se tornou uma profissional nesse segmento, seguindo depois com a gráfica de Lafayete. Elisa se casou e teve um filho, padre Alexandre Aquino (Tande), coordenador pastoral da Diocese de Serrinha.
Por fim, já na década de 1990, meus pais adotaram mais uma negra chamada Neide Ferreira que morou com meus país até seus falecimentos (1994 e 2001) seguiu morando no casarão e depois se casou e reside na zona rural de Serrinha.
Essa foi uma prática que muitas famílias adotaram e não dá para falar de todos, mas, posso citar ao menos três casos que conheci de perto, convivi, foram meus colegas de baba (jogo de futebol), os irmãos Carlos e Celso, adotados por tia Pequena de Basílio, filha de Basílio Cordeiro que morava na praça Luis Nogueira (hoje, Hotel Diamantino) dois negros retintos, bons de bola. Um deles, Celso, meu irmão levou para a PM, mora em Salvador e tem família; o outro, Carlos, foi embora para o Rio de Janeiro, aposentou-se na Marinha, nunca mais retornou a Serrinha. Ambos, devem ter algo em torno de 80 anos de idade.
Outro que jogou bola conosco no Largo da Usina foi Miro Pezão adotado pelo fazendeiro Nozinho do Lamarão, que morava nesta praça. Miro também foi embora para o Rio de Janeiro, onde reside.
E um terceiro foi José Fernandes (Negão) adotado pelo casal Lauro Murta e Nyanza que foi nosso colega no ginásio, ingressou na Petrobras quando adulto, se mudou para a região de Alagoinhas, se aposentou na empresa, mas, já faleceu.
São muitas as histórias e se mais não conto deixou para os leitores contarem.
*** Próximo capitulo, a educação, a carta de ABC, a palmatória.