Cultura

ROSA DE LIMA COMENTA QUINCAS, JUIZ DO SERTÃO, POR VERA SPÍNOLA

Excelente trabalho de Vera Spínola, bisneta do biografado e bacharela em letras
Rosa de Lima , Salvador | 03/01/2026 às 10:08
Quincas, Juiz do Sertão, de Vera Spínola
Foto: BJÁ
Seguimos com comentários sobre a literatura regional, produzida na Bahia, diga-se, com um incremento significativo nos últimos anos, o surgimento de feiras literárias no interior do estado, a expansão do ensino superior com várias universidades – só existia a federal (UFBA) até a década de 1980/1990 – e tudo isso foi motivando o aparecimento de novos autores, editoras, pontos de leitura e vendas. Ademais, o uso da internet e sua expansão ajudaram e muito nesse processo sobretudo para os independentes.

  O livro que vamos comentar nesta semana e que abre o ano de 2026 se intitula “Quincas, Juiz do Sertão (a história do conselheiro Joaquim de Souza Spínola – Caetité, Bahia, 1848; Salvador, Bahia, 1906), de autoria de Vera Spínola (CARAMURÊ Publicações, 2025, coordenação editorial Fernando Oberlaender, 316 páginas, R$70,00 portal da editora e/ou Livraria Escariz).

  A autora é bisneta do personagem, doutora em Administração e bacharela em Letras pela UFBA e produziu uma obra em que, o centro, o foco, é seu bisavô o advogado Joaquim Antônio de Souza Spínola, produtor rural e empresário no campo da mineração de diamantes, sonhador, resiliente ao extremo, juiz, pai, com dedicação à família e sua heroica esposa Sisenanda Moreira, conselheiro presidente do TJ, homem de convicções arraigadas, amante da terra e dos povos dos sertões - da Chapada Diamantina a Caetité – digno, pois, da biografia que foi escrita por Vera que é, também, ou contém muitas passagens importantes da história da Bahia. 

  A autora, portanto, vai falando do personagem desde a sua formação acadêmica, do casamento e sua trajetória na Chapada Diamantina mesclando a ambientação da vida do Império, do Segundo Reinado, de como operava a política, o mandonismo dos coronéis, a escravidão, toda uma cultura própria da Bahia numa época em que muitas das questões eram resolvidas a bala ou na ponta do punhal. 

  É nesse ambiente que Antônio de Souza Spínola, o juiz Quincas, vai atuar, sem transigir, sem se amofinar. E, por conseguinte, sonhador que era, um empresário minerador que nunca deu certo como almejava ou esperava, até saldar as suas eternas dívidas que contraiu em negócios, seguindo assim até o fim da vida.

  Haja, pois, melhor exemplo de resiliência com uma capacidade enorme de se recobrar, se reinventar, e até nós, os leitores, em determinado momento ao lermos os textos de Vera ficamos penalizados com ele achando que, após mais uma tentativa de ter sucesso no garimpo de diamantes, não iria mais tentar, o danado do Quincas não desiste. Ou melhor, nunca desistiu.

   O livro é uma saga, uma subida ao Himalaia e as passagens da vida do casal descritos pela autora são exemplos de força, resistência, coragem, num tempo em que para se deslocar do sertão para a capital o transporte era feito com uso de burros e cavalos. E, a prova mais eloquente dessa aventura na terra foi a viagem que Sisenanda fez, em 1885, grávida de quase 9 meses quando viajou 18 dias entre Salvador - via Cachoeira - até Caetité, predominantemente a cavalo. 

  - Sisenanda sentiu certo alivio ao avistar a casa do Barão (de Caetité, em estilo barroco) comentada por Quincas, que nascido em Caetité, tinha algumas lembranças do lugar. Estavam próximos do destino.

   E assim, 21 dias da chegada a Caetité, num domingo – relata a autora – Sisenanda deu à luz a uma menina de traços finos, boca bem desenhada, nariz afilado. Tornar-se-ia uma linda mulher. Foi batizada como Othilia, em memória da falecida irmã de Quincas, esposa do muito citado Xiquinho. Em 29 de maio, comentou: “Minha menina Othilia completou hoje 40 dias”.

   A história deste juiz, no entanto, se inicia em Recife, aos 18 anos de idade ao prestar exames na Faculdade de Direito quando ainda funcionava em Olinda onde estudaram e se formaram, entre outros, Luís Viana (1846-1920) futuro governador da Bahia de 1896 a 1900; José Maria da Silva Paranhos (Barão do Rio Branco), Ruy Barbosa , Tobias Barreto (1839-1889), Anfilófio Freire de Carvalho e Castro Alves, que a frequentou, mas não concluiu devido a doença.

   Graduado em Ciências Jurídicas e Sociais, em 1871, ele e irmão Arisdies retornam a Bahia (Lençóis) onde moravam seus pais que haviam deixado Caetité indo residir na Chapada Diamantiva em busca da fortuna em diamantes. E é nesta viagem de retorno que conhece a jovem Sisenanda no vapor de Cachoeira, com quem vai se casar. O próprio romance (literário) do século XIX é encarnado neste casal que se apaixona como as flores do lácio, na metáfora de Olavo Bilac.

  E, o mais prosaico, Quinca, a partir de 10 de abril de 1877 começa a escrever um diário sobre sua vida e cita, na inicial: “No dia 16 de outubro de 1876 às nove horas da manhã, na Boa Vista (fazenda) nasceu o meu primeiro filho a quem dei o nome de Antônio César. No dia 29 de novembro do mesmo ano faleceu de bronquite na Boa Vista, sendo batizado dois dias antes pelo doutor Deocleciano e Francisco Teixeira, meus cunhados. Foi sepultado no dia seguinte em Lençóis”.  

  A família era católica e Quincas, a essa altura, já exercendo aas funções de promotor interino e casado com Sisenanda, fato que aconteceu em 24 de abril de 1875, lembra no diário (2 de maio): - Comprei ou antes arrematei em leilão a livraria do finado Doutor Teixeira, constando de 300 volume ou pouco mais, por 380$000. Para isso vendi minha mula Paquita, presente de Xiquinho, por 140$000 e tomei um empréstimo a Felogênio de 226$000.

   Ou seja, o promotor além de cuidar das questões jurídicas em Lençóis, se preocupava e atuava para saldar dívidas de seu pai. Relata dia 11 de julho 1877: - Vejo-me rodeado de dívidas e cobranças que não me deixam um momento tranquilo, e melhor não escrever muita coisa que se não deve confiar no papel. () Conclui hoje o negócio de tio Ataíde com credor do casal de meu pai, do qual ele cobrava. Dei a ele duas ordens para receber no Curralinho 1.432 cabeças de gado de dois anos acima () Por intermédio do meu padrinho Felisberto remeti a Álvaro 200$000, a importância de 3 animais que recebi do senhor Reimão – um burro, que Deocleciano me deixou; uma mula que vendi a Felisberto e um cavalo velho russo que ainda está em meu poder.

   O leitor pode até achar estranho negócios dessa natureza, mas, estamos falando do século XIX e bois, mulas, burros, etc, tinhan um enorme valor. Era as caminhonetes e hilux da época.

   Em março de 1878, Quintas é nomeado promotor público da Comarca das Lavras Diamantinas por ato do presidente da Província, Barão Homem de Melo. Oito meses depois foi nomeado juiz municipal e órfãos de Lençóis. Antes de assumir o posto fez uma viagem até a Cidade da Bahia (Salvador) com Sisenanda e mais 6 pessoas.

   Uma epopeia, da Boa Vista (Lençóis) a São Félix (margem do Paraguaçu) a cavalo atravessando Pega – margem do Utinga; Muriçocas, Vila do Urubu, Pedrinhas, matas de Orobó; Casa Branca do Liberino; Serra dos Cachorros; Santa Quitéria; Corredor do Inferno; Manecas; Jurema; Cabeça e Negro; Passagem – proximidades de Andaraí; Santo Antônio do Argoim; Cabaceiras do Paraguaçu; Brejo; Muritiba, São Félix e finalmente Cachoeira; daí a Salvador.

   Não dá para contar tudo o que se passa na biografia sobre Quincas senão os leitores ficarão sem vontade de comprar o livro. Fico por aqui, recomendo-o. Há inúmeras passagens e movimentos políticos em Caetité, onde Quinca foi atuar até ser transferido para o Recôncavo e depois nomeado como conselheiro do Tribunal de Apelação e Revista, em Salvador, novos tempos do governador Rodrigues Lima, seu conterrâneo de Caetité.

  Muito mais história nesse novo período de vida a partir de 1893 até sua morte, em 1906. Uma belíssima obra que, como já dissemos no decorrer do comentário, tem muitas informações (também) sobre a história da Bahia.