sexta-feira, 15 de outubro de 2021
Cultura

ROSA DE LIMA ANALISA ESCRAVIDÃO VOLUME II, POR LAURENTINO GOMES

Livro trata escravidão no período da descoberta ouro em Minas Gerais até a chegada da corte portuguesa ao Rio, em 1808
Rosa de Lima ,  Salvador | 16/09/2021 às 10:28
Escravidão, Volume II
Foto: BJÁ
    

  O Volume II da trilogia que o jornalista Laurentino Gomes está escrevendo sobre a "Escravidão" - Da corrida do ouro em Minas Gerias até a chegada da corte de dom João ao Brasil (Globo Livros, 512 páginas, SP, julho de 2021, R$59,00 na Livraria Escariz, Shopping Barra, SSA) revela que, entre 1700 e 1800, 2 milhões de homens e mulheres foram desligados de suas raízes africanas e transportados para o Brasil. O motor da escravidão nesse período foi a descoberta de ouro e diamantes em Minas Gerias e depois em Mato Grosso e Goiás. No Volume I. Laurentino havia abordado o periodo entre o primeiro leilão de cativos em Portugal (1444) até a morte de Zumbi dos Palmares (1695).

Maior território escravocrata do hemisfério ocidental, o Brasil recebeu aproximadamente 5 milhões de cativos africanos - 40% do total de 12.5 milhões embarcados para a América ao longo de três séculos e meio. Tal empreitada envolveu negociantes e financistas de Portugal, Espanha, Inglaterra, Holanda, Suiça, Alemanha e reis africanos de vários territórios que viviam em permanente estado de guerra. Portanto, ao analisar a escravidão para a América como um todo, Gomes relaciona todos esses agentes e os ativos negociáveis da época (o homem africano como principal) e neste volume II a corrida ao ouro e aos diamantes de MG, MT e GO.

Não havia inocentes e a escravidão só prosperou de forma mais acentuada porque houve uma colaboração de etnias dominadoras da África que avançaram para o interior deste continente em busca de novas presas. O europeu - por ser o dono das novas tecnologias da época - navios negreiros, pólvora, canhões, armas de fogo manuais e outros - foram os agentes influenciadores da predação, responsáveis maiores pela escravidão, os quais subornavam os reis africanos com moedas, espelho, missangas, cachaça, fumo, ouro, diamantes, nesse período de um século (1700/1800).

Laurentino é um mestre na escrita de fácil compreensão e um pesquisador dedicado e arguto, minucioso, e ao abordar esse período traz à luz negócios escravocratas que eram realizados para o América Central, Caribe, e Estados Unidos. Adiciona esses pontos porque a escravidão para a América não pode ser vista apenas em relação ao Brasil ou aos EUA, uma vez que todo o sistema se relacionava num comércio internacional envolvendo várias nações. O Brasil, portanto, não é um caso isolado embora os livros (I e II volumes) deem mais atenção ao que se passou nas terras brasileiras e nos paises exportadores dos nativos - Angola, Benin, Congo e outros.

Neste segundo volume o autor cita algumas passagens pela Bahia, porém, a concentração maior dos fatos está em Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás, graças as descobertas do ouro e dos diamantes e das entradas e bandeiras paulistanas, desbravadoras do interior, do porto de Valongo, no Rio, a essa altura o centro do poder político e (parte do) econômico, uma vez que Salvador havia perdido a condição de sede da Colônia, em 1763, e o poder da emergente São Paulo. 

Por posto, o autor dá muito mais destaque a Inconfidência Mineira por sua magnitudade e se situar no centro do poder mineral (econômico), do que a Conjuração Baiana também conhecida como a Revolta dos Alfaiates, em Salvador. Esse destaque tem sentido na medida em que o movimento político em Minas Gerais foi mais organizado, enquanto o baiano de menor dimensão, embora, ambos, têm grande relevância porque se deram no final do século XVIII, em parte no rastro da Revolução Francesa de 1789, o ápice da mineira em 21 de abril de 1792, quando Tiradentes é esquartejado; e a Baiana, de 1798, com 4 negros enforcados na Praça da Piedade, em Salvador.

Gomes revela algumas peculiaridades, entre elas, as revelações sobre o traficante negro João de Oliveira (também citado por Pierre Verger) que desembarcou em Salfvador no dia 11 de maio de 1770, com três marcas no rosto do povo iorubá, uma das mais numerosas etnias africanas entre as pessoas cativas da Bahia, ao lado quatro embaixadores de ologun (rei) de Onim (atual Lagos) e um navio com 122 africanos cativos - 79 homens e 43 mulheres - com o propósito de abandonar o tráfico e se convertar ao catolicismo e morar na Bahia. 

Ao chegar em Salvador, no entanto, João foi preso e todos seus bens sequestrados e os embaixadores postos em cárceres. Na prisão, Oliveira escreveu - segundo o autor - um diário pessoal que se tornaria um dos documentos mais preciosos e surpreendente de toda escravidão no Brasil. Nascido na Nigéria - segundo hipótese levantada por Verger - João Oliveira passou a traficar escravos com o propósito de deixar de ser escravo e comprr a sua alforria no Brasil. Foram 37 anos traficando escravos com seu amo e ao chegar a Bahia, com esse propósito, foi acusado de sonegar impostos e preso. Oliveira, posteriormente, foi solto e os seus bens confiscados lhe foram devolvidos. Viveu o restante dos seus dias em Salvador.

Essa é uma das muitas históricas contadas neste Volume II - e mais, a de Chica da Silva, de vários quilombos e quilombolas - do Ambrósio, do Quariterê, etc - as narrativas dos jesuistas, em especial o missionário João Antonil, a atuação do marques de Pombal, José de Carvalho e Melo e a expulsão da Companhia de Jesus, a capitania de Minas que produzia 11.500 quilos de ouro por ano e mantinha a coroa portuguesa em pé, a Fundação da Companhia Geral de Comércio de Pernamuco e Paraíba, encarregada de fornecer mão de obra escravizada para a região Nordeste, a proibição de tráfico na Inglattera, em 1807, que teve forte influência no fim da escravidão.

Lembrando que o Brasil foi o último país da América a decretar o fim da escravidão (formal), em 13 de maio de 1888, mas ela se manteve viva apesar da luta dos abolicionistas e alguns republicanos, na República Velha e até os dias atuais têm reflexos na sociedade brasileira.

O livro de Laurentino Gomes é sequencial. Para se pegar o fio da meada é necessário ler o Volume I para que o leitor possa ter uma maior comprensão da trilogia. O Volume III - da chegada de Dom João VI e instalação da corte no Rio, em 1808, até a queda da monarque (novembro de 1889) e o fim da escravidão (13 de maio de 1888), incluindo a Guerra do Paraguai onde muitos negros lutaram (e morreram) com a bandeira da Tríplice Aliança (Brasil, Argentina, Uruguai) e teve forte influência no fim do regime escravocrata, será publicada em 2022.

São livros, portanto, fundamentais, para compreender a história do Brasil com uma visão mais atualizada dos fatos, sem influência do historicismo colonial, com novos dados e visões diferenciadas, revelações sugestivas (Tiradentes, por posto, era dono de escravos) e pesquisas em fontes primárias, o que dá mais autenticidade. No Volume II, por exemplo, o leitor vai entender com o regime escravocrata se modificou no Brasi graças ao escravismo urbano (o nascimento e crescimento de cidades), bem diferenciado, ainda que muito cruel, do praticado nos primórdios dos engenhos de canaça-de-açucar do Nordeste.