Cultura

O FUNDO DO POÇO DE SALVADOR e uma comparação com La Paz (TF)

Uma cidade que se parece muito com Salvador e vivem dois momentos diante da violência
Tasso Franco , da redação em Salvador | 04/04/2015 às 11:12
O câmbio é feito na rua em La Paz em diversas tendas como esta
Foto: BJÁ
   Uma das questões mais difíceis de ser entendida é a transformação do comportamento de parcela da população de Salvador que pratica atos de violência, tais como aconteceu, recentemente, na Ribeira, com oito delinquentes queimando um coletivo e quase matando um cobrador. 

   E, não pára por aí. Um PM assassinado em Cosme de Farias por bandidos que atuam armados naquele bairro. Nos finais de semana, 20 a 30 assinatos, mais de 20 veiculos furtados/roubados por dia, assaltos a ônibus diários, um clima de medo por onde se anda.

   A classe média vive encurralada, segregada. Ninguém pode ir tomar um sorvete na Ribeira sossegado. Tem milhares de familias que, hoje, vivem da casa para os shoppings e não se arriscam a conhecer a Lapinha, andar pelo Campo Grande, passear no Pelourinho e assim por diante. 

   O Centro Histórico, na atualidade, está basicamente sendo sustentado e frequentado pelos turistas e a população mais pobre. Os restaurantes e museus vivem à mingua de baianos. Quando por lá aparecem, só em eventos especiais, como a festa ao 2 de Julho.

   Andar de ônibus em Salvador é sinal de intranqulidade. Durante mais de 10 anos de minha vida, entre os anos 1960/1970 andei de ônibus morando na cidade-baixa, em Roma e depois na Calçada, estudando no João Florêncio, à noite, e usando os ônibus da Sul América sem nunca ter sido assaltado. Quando iamos à cidade de troleibus ou no expresso das lotações da Ribeira, a mesma coisa. Podiamos voltar tarde da noite, nada de assalto. 

   Hoje, santo pai, não se pode ir da Barra ao centro histórico com tranquilidade.

   Estou nesse momento em La Paz, a capital da Bolivia. A cidade se parece muito com Salvador: 2.5 milhões de habitantes, uma cidade alta (Los Altos) e uma cidade baixa (La Paz), dois municípios autônomos, mas, interligados. Como Lauro de Freitas e Salvador.

   La Paz tem a forma de uma concha com duas mãos unidas pela base.  Fica num vale cercado de morros onde estão as favelas com ruas calçadas e casas e apartamentos em alvenaria. Como faz muito frio durante todo o ano não existe barracos. Há, no entanto, uma pobreza muito parecida com Salvador - ambulantes, pedintes e batedores de carteiras.

   O sistema de transporte público parece caótico. Mas, todo mundo se entende. É constituido por linhas de teleférico do morro a parte baixa, micros - ônibus antigos Dodge, GM, Chevrolet, Ford, etc -, ônibus em áreas da classe média - Miraflores, San Pedro, etc - e vans. Os táxis não têm taxímetros. O acerto das corridas é feito no entendimento. Uma corrida do aeroporto ao centro custa 70 bolivianos - R$35,00.

   O teleférico custa 2 bolivianos (R$1,00) e pode ser usado por turistas numa boa; e as vans, micros e ônibus 1,5 boliviano (R$0,75). As vans param onde os passageiros dão sinal com as mãos, embora haja pontos específicos de paradas. Os micros, idem.

   Aparentemente, com a cabeça que a gente tem do Brasil, dá medo tomar uma van com pessoas que não se conhece. Os micros, idem, acomodam 25 pessoas. As vans, 14 pessoas. A diferença é que não há assaltos no transporte público. Pode-se cojer (colher) - como eles falam - um transporte coletivo em qualquer ponto da cidade, sem sobressaltos. 

   E usar uma das três linhas do teleférico para ter uma visão panorâmica da cidade da altura de app uns 200 metros ou mais, junto com os moradores. Não há uma pichação em nenhum desses pontos.
La Paz saiu, recentemente, de eleições governamentais e municipais. Não se vê um cartaz preso em postes, nem muros pichados. 

   Voltando a Salvador fiz esse comparativo com La Paz porque estou acompanhando daqui esses atos de criminalidade na Bahia, incluindo aí a morte do prefeito Fernão, de Macajuba, pra mostrar que duas sociedades parecidas têm comportamentos diferenciados. 

   A Bolivia é mais pobre do que o Brasil. La Paz - em alguns aspectos - é mais pobre do que Salvador. No entanto, nesta cidade há um respeito enorme pela coisa público, pelo transporte coletivo, pela presenvação das escolas, um carinho enorme com a Universidade, o respeito das pessoas nas ruas, tudo o que falta, hoje, em Salvador. Os alunos das escolas públicas e particulares usam fardas, a maioria com jovens e crianças usando gravatas.

   Os turistas aqui andam pelo centro histórico sem a necessidade de PMs escoltando-os como acontece em Salvador. Quem cuida da vigilância no centro é a Guarda Municipal, desarmada. As bancas de cambio ficam na rua. Pequenas tendas onde trocamos reais por bolivianos, sem a necessidade de seguranças, nada. 

   Em Salvador, até nos shpoppings, as casas de câmbio têm seguranças armados. Já imaginaram na Avenida Sete com tendas de câmbio no meio da rua? 

    É isso, quando dissemos no atentado da Ribeira que estamos no fundo do poço em Salvador não é exagero. (TF)