Cultura

ROSA DE LIMA COMENTA MERIDIANO DE SANGUE, DE CORMAC McCARTHY

A caça aos escalpos dos Apaches nas regiões fronteiriças mexicanas é apenas um dos muitos exemplos de violência semelhante em todo o continente norte-americano.
Rosa de Lima ,  Salvador | 20/06/2026 às 09:41
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  Em 1837, autoridades mexicanas nos estados de Sonora e Chihuahua, no norte do país, começaram a oferecer recompensas em dinheiro por escalpos de apaches. O resultado imediato foi um massacre. O perpetrador, John Johnson, hasteou uma bandeira branca de trégua sobre seu acampamento, um convite simbólico para receber um grupo de apaches para uma feira comercial. Conforme as vítimas desavisadas se aproximavam, Johnson acendeu o pavio de um canhão escondido sob sacos de mercadorias. Quando a fumaça se dissipou, quase duas dúzias de apaches jaziam mortos ou agonizando. Johnson e seus companheiros prontamente cortaram os cabelos dos corpos e resgataram os prêmios na capital do estado por somas principescas. Apesar da traição, os homens se tornaram celebridades no México e nos Estados Unidos.

  Essa é uma passagem da realidade histórica da conquista do Oeste norte-americano e estados do México reveladora do massacre das comunidades nativas o que também aconteceu na América Espanhola e no Brasil. Os chamados povos indígenas foram dizimados pelos brancos conquistadores que possuíam armas e tecnologias mais avançadas do que as dos nativos – apaches, navajos, sioux, astecas, tupinambás, etc – que foram trucidados. Alguns resistiram, mas, no geral, a dominação foi completa.

  A caça de escalpos – matar e levar como prova ao couro cabeludo da pessoa retirado a faca – se tornou um negócio nos EUA e grupos mercenários promoveram massacres. O mais prolífico desses agentes foi um irlandês-americano chamado James Kirker, que liderou um massacre de mais de 150 apaches em 1846 e, ao final, matou pelo menos 320 índios durante suas campanhas de caça a recompensas. Mas havia outros também, incluindo vários Rangers do Texas que abandonaram sua profissão pelo comércio mais lucrativo de escalpos.

  Contam os historiadores que, satisfeitos com os resultados letais, os oficiais do estado de Chihuahua codificaram uma nova recompensa por escalpos em 1849. Anúncios apareceram em periódicos, mas os boatos espalharam a notícia com ainda mais eficiência. Aventureiros ávidos acorreram à região em busca da riqueza e da glória que advinham do assassinato de indígenas. Alguns homens, que já se dirigiam para o oeste no início da Corrida do Ouro, desviaram-se para o México ao ouvirem a notícia. O programa de recompensas de Chihuahua oferecia aos caçadores de fortuna 150 ou 200 pesos mexicanos por cada Apache, dependendo da idade e do sexo (homens valiam 50 pesos a mais do que mulheres e crianças). Hoje, isso equivale a cerca de US$ 8.200 por escalpo. Era muito mais do que a maioria dos garimpeiros jamais ganharia nos campos de ouro da Califórnia.

  Foi aí que John Joel Glanton entrou em cena. Ele tinha uma reputação sinistra no Texas, onde os moradores de San Antonio o conheciam como um beberrão e assassino — alguém que “atirava em homens por esporte”. Deixando para trás os bares turbulentos da cidade de Alamo, ele seguiu para o México em 1849, atraído pela oportunidade de matar índios por dinheiro. Embora tenha encontrado um fim precoce e bastante irônico em 1850, quando índios Yuma do sul do Arizona o emboscaram e mataram em uma travessia de balsa no rio Colorado, as breves façanhas de Glanton na caça a escalpos o tornaram um herói local e consolidaram seu lugar na história macabra da guerra de escalpos.

   Mais de um século depois, a lenda de Glanton ressurgiu dramaticamente. Em 1985, a Random House publicou Meridiano de Sangue; ou, A Vermelhidão da Tarde no Oeste, de Cormac McCarthy . O romance figura entre os faroestes mais famosos já escritos, e seu autor, notoriamente recluso, tornou-se um dos romancistas americanos mais aclamados de todos os tempos. McCarthy (1933–2023) baseou a maior parte dos eventos de Meridiano de Sangue , bem como o horripilante antagonista conhecido como Juiz Holden, em Glanton e seu bando de caçadores de escalpos.

    O livro publicado no Brasil com o título “Meridiano de Sangue”, Cromac McCarthy (Editora ALFAGUARA, RJ, 342 páginas, tradução de Cássio de Andrade Leite, R$69,90 na Amazon) é forte, nauseabundo diante tamanha violência na “guerra” dos escalpos. Na real, não houve uma guerra do ponto de vista clássico com tropas dos dois lados a se enfrentarem em condições de igualdade, mas, aconteceram algumas resistências de grupos nativos mais organizados, e que também passaram a comprar armas (rifles) e usá-los em suas defesas (e nos contra ataques), mas, os massacres foram inevitáveis.

   O livro contém 23 capítulos e Mc Carthy descreve a mitologia do Oeste americano , uma terra sem lei ou melhor onde a lei predominante era a violência, a bala, e a trajetória de um rapaz sem nome e sem família, abandonado a própria sorte nesse mundo brutal, quando é recrutado por uma Companhia de Mercenários a serviço de governantes locais, atravessa regiões desertas entre o Texas e o México com a missão de matar o maior número possível de índios e trazer de volta seus escalpos, como prova.

  A caça aos escalpos dos Apaches nas regiões fronteiriças mexicanas é apenas um dos muitos exemplos de violência semelhante em todo o continente norte-americano. Autoridades implementaram leis de escalpo e pagaram recompensas na Nova Holanda holandesa no século XVII. Governadores no Canadá francês e na Louisiana continuaram essa prática durante grande parte do século XVIII. Colônias britânicas como Nova Escócia, Massachusetts, Nova Hampshire e Pensilvânia implementaram "leis de escalpo" com uma frequência alarmante.

  Em meados do século XIX, americanos na Califórnia e no Oregon formaram dezenas, senão centenas, de "companhias de voluntários" para matar e escalpelar o máximo de indígenas que conseguissem encontrar. Embora a intenção de exterminar os indígenas fosse a mesma em todos os lugares, os resultados variaram ao longo do tempo e do espaço. Menos de cem escalpos foram trocados por recompensas nas colônias da Nova Inglaterra. Na Califórnia, a guerra de escalpos eliminou quase 90% de algumas populações tribais.

  O livro produzido por Cormac McCarthy contém essa narrativa e quem se dispuser a lê-lo já fica sabendo, de antemão, o que vai encontrar pela frente. O leitor, ademais, como conteúdo literário não ganha grande coisa – o autor é bastante coloquial nos seus textos – porém fica conhecendo uma realidade histórica que é pouco tratada quando o tema é a conquista do Oeste. Eu mesma conhecia pouco esses crimes dos escalpos.

 

*** A colunista Rosa de Lima se ausentará por dois meses em gozo de férias.