Cultura

VIDA DE GORDO: JEFFINHO E NANINHO VÃO AO PELOURINHO. POR OTTO FREITAS

VIDE
| 01/01/2012 às 23:01
Cantina da Lua: onde Jeffinho fez sua primeira dieta e mestre Clarindo Silva
Foto: Edson Ruiz
 

  Jeffinho é um amante adorador do Pelourinho. Muitos dos seus quilos vieram dessa inesgotável fonte de cultura, de vida, de gastronomia e de prazer. Afinal, como já disse o antropólogo Vilson Caetano, professor da Escola de Nutrição da UFBA (revista Muito/A Tarde, de 6/11/2011), "não comemos apenas ingredientes, mas símbolos, valores e histórias".


  Nos anos 1970, Jeffinho já era cliente assíduo dos PFs (pratos-feitos) da Cantina da Lua, de Clarindo Silva, no Terreiro, e d' O Tempo, no largo do Pelourinho, onde Joaquim, com seu chapeu de palha e suas guias de santo, servia as mesas em alguidares. Na Cantina da Lua, a estrela do cardápio simples era um fabuloso angu debaixo do qual certamente havia carne.


  Certa feita, a turma de Jeffinho entrou de dieta, para lhe emprestar apoio moral. Clarindo logo improvisou um prato exclusivo, à base de legumes cozidos sem sal e frango grelhado. Se alguém tinha crise de hipoglicemia, era imediatamente socorrido por um espumante suco de laranja, preparado às pressas pelo mestre Clarindo, sempre atento às necessidades dos clientes. 


   Com o tempo, a Cantina da Lua tornou-se um centro cultural, boêmio e gastronômico, reunindo figuras populares e famosas. Foi inclusive quartel general do filme Tenda dos Milagres, de Nelson Pereira dos Santos, rodado no Centro Histórico com a participação de muitos baianos, atores profissionais e gente do povo. 


  Jeffinho também era freguês do absinto servido no bar da Galeria 13, no Maciel de Cima, onde Deraldo, como um mecenas, abriu espaço para inúmeros artistas novos. Além de local de apoio à produção do filme, muitas cenas de Tenda dos Milagres foram rodadas na galeria, com a virtuosa figuração de Jeffinho, junto com alguns de seus camaradas, como Bunda Podre, Dom Franquito e Pedro Bó.


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  O Centro Histórico de Salvador, do Campo Grande ao largo de Santo Antonio Além do Carmo, parece ter a ruína como karma: o Pelourinho foi abandonado pela nobreza que o construiu; maltratado e discriminado pelas elites modernas; desprezado e desrespeitado pelo poder populista e ignorante.  Mas ele resiste, com a força da sua importância histórica, cultural e imaterial, e o amor de todos os que o adoram e respeitam.


  Hoje, após o boom que o tornou atrativo turístico mais importante de Salvador, o Pelourinho vive mais um tempo de decadência. Muitos partiram, sem compromisso. Lojas, bares e restaurantes fecharam as portas. Como a Cantina da Lua, muitos outros tantos ficaram, ainda resistem e insistem, apesar das adversidades.


  É o caso do tradicional restaurante Uauá (fundado em 1979, em Itapuã), há quase 20 anos no Pelourinho (1993). Ele preserva a cultura da terra do forró, do bode e dos umbus. É um símbolo da força e da perseverança de dona Joana, senhora majestade do sertão da Bahia, admirável e altiva matriarca dos Loiola das Queimadas, onde a luz da caatinga embriaga, de emoção e de cachaça, almas ansiosas e sensíveis.


  Jeffinho jamais abandonou o Pelourinho, que é de muitos heróis anônimos da resistência, que é da humanidade. Não sabe o que é beleza quem nunca viu o amanhecer do dia através dos janelões do castelo de Esmeralda que se abrem sobre os telhados brilhantes do Pelourinho, onde a vida corteja a primeira luz de sol.


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  Jeffinho continua atrás dessa luz, a qualquer tempo e estação - ultimamente na companhia de Naninho, irmão e parceiro no querer sincero por esse lugar e no apego à velha boemia. Jeffinho e Naninho costumam seguir o vento que dobra a esquina da rua das Laranjeiras, até encontrar o paredão da Ordem Terceira do São Francisco.

No Ponto Vital, que ficava bem na esquina, o próprio Vital lhes ensina as origens de cada prato do cardápio, enquanto Adelson, sempre prestativo, mantém os copos cheios de felicidade, pinga boa e aquela gelada para refrescar a boca de pimenta.


  Vez por outra, depois de Vital, Jeffinho e Naninho, já meio bem embriagados de tudo, encerram o expediente com a suculenta malassada de dona Celina - ou pode ser também uma rabada com agrião em dona Alaide do Feijão.


  Teve um dia que Jeffinho começou a ver telhados em pé; queria, de qualquer jeito, dependurar-se na torre da igreja de São Domingos. Como sempre, Jeffinho exagerou na alegria, na bebida e na comida exótica de Vital, variando entre a frigideira de maturi, a feijoada angolana e o caldo de carangodé.


   Até hoje alega ter sido vítima de uma overdose involuntária da sibutramina contida nos remédios que tomava para emagrecer. Mas, por garantia, Jeffinho nunca mais misturou sibutramina com caldo de carangodé.  



* Otto Freitas (otto.freitas@terra.com.br) é jornalista, formado pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Atua na imprensa baiana há mais de 30 anos, em revistas, jornais e TV; comunicação corporativa e jornalismo digital.