Todos reconhecem os riscos para a saúde gerados pelo uso da sibutramina, principalmente problemas cardíacos e alterações no sistema nervoso central. Tanto que, entre as restrições estabelecidas agora, o paciente e o médico terão de assinar termo de responsabilidade para usar a substância.
Em homenagem à decisão da Anvisa e solidariedade aos gordos que andam se atolando na sibutramina, esta coluna acata sugestão de internauta-leitor e transcreve alguns trechos de um artigo, publicado ainda em 2008, por Gustavo de Almeida, no seu blog Eclipse, com o título "A Vida Depois da Sibutramina". Mais atual do que nunca.
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"Nesta terça-feira, completa-se uma semana que passei a fazer parte do mesmo time que os consumidores de maconha, cocaína, heroína, crack, ecstasy e LSD. Sim, nesta terça-feira faz uma semana que sou um adicto. Um usuário de drogas. Mais precisamente a sibutramina, droga lícita vendida nas farmácias com retenção de receita médica...
Esta droga dá poder, um poder incomensurável, uma força que eu jamais imaginei ter: a força de agüentar o horário das 17h às 19h sem comer um sanduíche, um salgado ou besteira qualquer. Sim, é o remédio para emagrecer que treina você para ser faquir. Dá a quem toma poderes incríveis, que eu jamais imaginei. Calma. Posso ser preso por apologia às drogas.
A sibutramina é uma droga que se compra com receita médica, como eu já disse. Não chega a ser tarja preta, mas se não houvesse receita, a coisa desandava. Quem, afinal, não gostaria de ter o poder de enganar de verdade o estômago, de maneira a impedir que ele seja ferroado pela fome nos horários-chave? Quem não quer ter o poder do faquir, controlar os próprios estímulos nervosos da parede estomacal? Entre isso e voar, muita gente, aposto, escolheria tomar sibutramina. Até porque deve ser difícil voar com barriga ou acima do peso.
A sibutramina, em uma semana, já me deu vitórias espetaculares. Já entrei na cantina do meu trabalho várias vezes sem pedir duas coxinhas com catupiry. Já fiquei, de madrugada, com uma fome leve, vendo um amigo comer uma pizza calabresa e minha mulher comendo um penne à putanesca. E eu lá, impávido. Tal e qual um Rajneesh, passando um tantinho de manteiga numa torradinha de alho e achando que aquilo equivalia a comer um avestruz inteiro...
O problema é que, obviamente, não se pode tomar sibutramina pelo resto da vida. Não é como cachaça. Hehehe. Tou brincando. Mas, enfim, uma hora vou ter que parar. A barriga vai dar uma diminuída, vou recuperar minhas sete calças perdidas, vou festejar mais uma vitória parcial sobre a balança - e festejar no melhor estilo Pedra-de-Sísifo, claro. E aí? Há vida depois da sibutramina?...
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A força de vontade é algo que precisa de ajuda. Principalmente em se tratando de estômago, este ser que comprime algo em nós com um ferrão, beliscando e exigindo "Pão! Pão! Pão!" durante nossa curta caminhada até a cozinha.
Não sei o que farei depois que acabar meu tratamento com sibutramina. Espero estar uns 15 quilos mais leve, claro. Mas precisarei reajustar rotinas. É claro que eu não como em quantidades para ter engordado tanto, mas devo ter um tipo de síndrome metabólica que faz o cidadão inchar. Algo que começa com o engorduramento do fígado.
No fim, com várias calças no armário prontas para usar, restará eu e minha força de vontade. Sozinhos, os dois. Como numa ilha. Eu vou começar a conversa, e minha força de vontade vai responder, porque ela cuida muito de mim. E me ama, eu sei.
Eu: - Hum, acho que um cachorro-quente cairia bem.
Força de vontade: - Gustavo, você acabou de perder quinze quilos. Larga disso, garoto.
Eu: - Cara, mas imagina só: pão francês quentinho, salsicha, catchup, mostarda, maionese....
Força de vontade: - Larga disso, larga disso....o pior mesmo é o pão francês quentinho.
Eu: - Pior, por quê?
Força de vontade: - Ah, você sabe...
Eu, sorrindo e gesticulando com as mãos: - Umas batatinhas palha...
Força de vontade: - Carboidrato com proteína engorda tanto....
Eu, quase me afogando em saliva e com os olhos em chamas: - Com uma tirinha de bacon em volta da salsicha...
Força de vontade: - Você está abusando.
Eu, à beira do colapso: - E uma colherada de maionese para arrematar. Ah, e mostarda escura.
Força de vontade: - PQP. Mostarda escura. Ok, corta a maionese e o bacon, manda para dentro que a vida é curta.
E o telefone tocará. Será a sibutramina pedindo para voltar? Ainda bem que nunca tomo remédio de barriga vazia".
* Otto Freitas (otto.freitas@terra.com.br) é jornalista, formado pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Atua na imprensa baiana há mais de 30 anos, em revistas, jornais e TV; comunicação corporativa e jornalismo digital.