(Por Limiro Besnosik)
Ainda repercute na Câmara de Salvador a entrevista exclusiva concedida ao BJá pelo presidente do Olodum, João Jorge Rodrigues (VEJA NA ÍNTEGRA NA COLUNA CARA A CARA), onde ele aponta uma postura de isolamento das lideranças negras baianas.
Para a líder da oposição, vereadora Vânia Galvão (PT), "é uma luta nossa a inserção do negro em todos os setores da vida da sociedade; propiciar maior integração por parte do poder público, pois
nossa realidade é muito cruel no isolamento de determinados segmentos da
cidade".
De acordo com o também petista Gilmar Santiago o racismo continua sendo um elemento estruturante das relações sociais no País, mas não se pode negar a luta histórica do movimento negro em combater essa discriminação. O vereador cita o Olodum como uma das instituições que buscam forma de ampliar o espaço do negro na sociedade de forma efetiva.
Terra da felicidade?
Segundo Vânia, apesar do jeito baiano de ser, tão apregoado mundo afora, é preciso continuar batalhando para incluir o afrodescendente em universos como cargos políticos de importância, faixas de remuneração mais elevadas, carreiras profissionais de maior peso e outras iniciativas semelhantes.
"A Bahia não pode ser a terra da felicidade com tanta gente excluída, com tão poucas possibilidades de contribuir para a formação integral do ser humano", disse Vânia, defendendo a necessidade de se implantar políticas públicas voltadas para as pessoas e criticando a falta de planejamento existente em
Salvador.
Citou o caso dos barraqueiros da orla, cujos negócios foram desmantelados sem o oferecimento de qualquer opção de atividade profissional por parte da Prefeitura. "Tem gente se prostituindo e procurando até o tráfico de drogas por conta disso", denunciou, acusando a inexistência de vontade política para resolver o problema. "Todos concordamos com a requalificação da orla, mas quais
as alternativas dadas aos barraqueiros?", questionou.
Avanços
Gilmar Santiago acredita que houve avanços, especialmente nos últimos 10 anos, com a
diminuição da distância social separando os afrodescendentes dos outros segmentos. Para ele não é possível ir em frente sem convencer as parcelas brancas das vantagens de ter mais igualdade. "Essa é uma bandeira de luta ampla para ter esse processo de integração, mas são necessárias muitas políticas
públicas para alcançar esse estágio", ponderou.
O ufanismo existente no discurso oficial, classificando a Bahia como "terra da felicidade", classificou o vereador, "é uma construção das elites, ao se apropriarem de símbolos importantes da cultura negra, negando os benefícios dessa cultura aos próprios negros". Segundo ele é preciso reconhecer o papel de
todos os povos na cultura do País, sem diminuir o significado de nenhum deles.
O vereador discordou da afirmação do presidente do Olodum quanto à inoperância da Câmara de Salvador nos assuntos ligados à cidadania: "Ele não pode generalizar e deixar de ressaltar o esforço de vários mandatos, em várias legislaturas, que, ao longo do tempo, sempre inseriu essa pauta nos debates".