Cultura

DISCO PAÊBIRÚ MARCA O PSICODELISMO MUSICAL DO BRASILl, POR CÉSAR RASEC

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| 06/06/2011 às 19:58
Lula Côrtes na capa do disco Paêbirú
Foto: DIV
 

  Em tempos de maresia sonora, tempos do lugar comum cada vez mais comum, fui assistir "Nas paredes da pedra encantada", documentário de Cristiano Bastos e Leonardo Bomfim que fala do lendário disco psicodélico Paêbirú, lançado em 1975, de Lula Côes e Zé Ramalho.


  O filme tem suas limitações técnicas, que são muitas e não vem ao caso. Por conta da ausência de Zé Ramalho, que recusou participar por questões que ainda não foram reveladas publicamente, a película perdeu conteúdo, já que Paêbirú celebra a inquietude de uma dupla: Lula e Zé.


  O que vale no filme, na verdade, é o registro deixado por Lula Côrtes, principal mentor de Paêbirú. Na madrugada do dia 26 de março deste ano, por conta de um câncer na garganta, Lula Côrtes, aos 61 anos, faleceu no Hospital Barão de Lucena, em Recife.


  O disco Paêbirú é um monólito na psicodelia brasileira, pois mostra que é possível misturar e sem macular os gêneros musicais que ecoam de norte a sul. Na miscelânea sonora marcam presença o rock psicodélico, batidas de terreiro, o jazz e alguns ritmos nordestinos.


  Além da questão sonora hiper vanguardista, a mística de Paêbirú encontra argumento e inspiração na Pedra do Ingá, sítio arqueológico dos mais instigantes que está situada no município de Ingá, no interior da Paraíba.


  Nesta mística que une os elementos da natureza terra, ar, fogo e água, Lula Côrtes e Zé Ramalho "viajaram" pelo caminho da montanha do sol, significado de Paêbirú, que era o caminho que se estendia por mais de mil e duzentos quilômetros da costa brasileira do oceano Atlântico ao oceano Pacífico.


  Para fortalecer a mística de Paêbirú, álbum com prensagem única de 1.300 exemplares, um acontecimento ligado à água, um de seus elementos, marcou ainda mais a obra e garantiu a sua valorização. Quando estava para ser totalmente distribuído, em 1975, uma enchente atingiu Recife. O depósito onde estava estocado o LP foi alagado, causando perda total de mais ou menos mil exemplares e da fita máster. Só alguns poucos exemplares chegaram, antes da enchente, às lojas da capital pernambucana.


  Por causa deste sinistro, o vinil original ficou valorizado chegando a custar, quando encontrado, a mais ou menos R$ 5 mil, dependendo do estado de conservação. No formato CD, com tiragem alemã ou inglesa, o disco custa em média R$ 80.

O LP Paêbirú tem o formato de vinil duplo. Traz um excelente acabamento gráfico com fotos das inscrições da Pedra do Ingá, fonte de inspiração de Lula, como relatou o próprio artista no documentário. Enriqueceram as gravações do LP os amigos Alceu Valença, que participa do filme, e Geraldo Azevedo. Foi lançado pela gravadora Solar Rozenblit.


  As canções dedicadas à terra são "Trilha de Sumé", "Culto à Terra" e "Bailado das Muscarias". Os resultados sonoros foram conseguidos com tambores, flautas, congas, berimbau e sax alto. Efeitos, como aves em voo, também foram utilizados.


  O ar foi contemplado com "Harpa dos Ares", "Não Existe Molhado Igual ao Pranto" e "Omm". Para dar o clima gasoso às músicas, Lula e Zé utilizaram conversas, risadas, suspiros, harpas e violas.

Para o fogo, as canções são "Raga dos Raios", "Nas Paredes da Pedra Encantada" e "Marácas de Fogo". Representa o momento mais pesado do disco, com o rock e a psicodelia em primeiro plano. Guitarra distorcida, órgão e um som menos acústico dão o clima quente.


  Fechando, as canções dedicadas à água são "Louvação a Iemanjá", "Regato da montanha", "Beira mar", "Pedra Tempo Animal" e "Trilha de Sumé". Neste momento do disco, a água corrente surge como mantra. Letras em louvação às entidades ancestrais, como Iemanjá, e o baião reforçam o hibridismo.


  Vale frisar que o conteúdo gráfico ficou por conta de Kátia Mesel, então esposa de Lula Côrtes. O encarte e capa resultaram de várias idas à Pedra do Ingá, onde as viagens astrais aconteciam coroando a Era de Aquarius de um país que vivia sob a ditadura militar.

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