Uma história sem diálogos, focada na ação de um homem, de uma mulher e de um cão. A partir dessa idéia inicial, aparentemente contida, Caetano Dias - considerado um dos mais importantes artistas surgidos nos últimos anos na Bahia - elabora um trabalho que estimula múltiplas leituras e reflexões.
A vídeoinstalação Bicho Geográfico será apresentada ao público no próximo dia 28 de setembro (terça-feira), a partir das 19h, no Palácio da Aclamação. A mostra encerra a primeira edição do Programa Ocupas, da Diretoria de Museus do IPAC, que apresentou no Palácio projetos de site specifics de importantes artistas contemporâneos do país. Antes de Caetano, José Rufino, Carlito Carvalhosa e Eder Santos montaram exposições criadas a partir do diálogo e da relação estabelecida com a história, o acervo, a arquitetura e/ou o entorno deste importante prédio histórica da Bahia, antiga casas de nobres e governadores.
Do ponto de vista etimológico, Bicho Geográfico é nome popular da larva migrans, uma doença de pele humana causada por pequenos vermes microscópicos. Na mostra, ele representa a intervenção do homem europeu nas Américas. "O Bicho Geográfico vem da postura desse homem que toma posse, que se espalha. É a encarnação do invasor, do europeu que tomou as nossas terras, que vem com seu poder modificando tudo e gerando uma nova forma de interpretar e lidar com o tempo", explica Caetano.
Além do Homem, interpretado por João Paranhos, outros dois personagens também interagem na trama: uma Mulher (Amanda Gracioli), que além de ser, ao mesmo tempo, a revisitação de Catarina Paraguaçu, representa, ainda, o espírito do território, a floresta e a alma de tudo aquilo que se deve preservar; e o Cão (Mad), que tanto representa a terra, as forças incivilizadas, os animais, quanto a amizade mais primitiva, mais profunda e quase inconsciente dos nativos ou mesmo dos europeus que aqui chegaram. "A exposição é isso: um ensaio poético sobre nós aqui!", resume o artista.
Para Daniel Rangel, diretor de Museus do IPAC e curador do Programa Ocupas, a proposta de Caetano Dias foi explorar a relação com a história do Palácio, que tem arquitetura eclética, mas é importante representante do nosso passado e de nossa história. "Bicho Geográfico traz personagens históricos como o Caramuru e Catarina Paraguaçu de uma forma extremamente contemporânea. Seu trabalho se aproxima do que atualmente tem se convencionado chamar de Cinema de Artista, por estar entre o cinema e as artes visuais, com filmes que possuem narrativa não linear, com um olhar diferenciado para questões como a fotografia", afirma Daniel.
Produzir obras em diferentes estilos e com técnicas diversas, inclusive, é uma importante característica e diferencial da obra de Caetano Dias, que fecha o Ocupas ao lado de outros artistas que já obtiveram espaço e valorização no circuito nacional das artes visuais. "Caetano é da mesma geração de Rufino, Carlito e Eder e, assim como eles, um artista que possui um trabalho consistente, já reconhecido pela crítica local e nacional. E uma das suas principais características é justamente o hibridismo e sua capacidade de trabalhar com diferentes suportes e mídias", finaliza Daniel, que destaca a presença de obras residuais das três outras exposições do Ocupas no Palácio, dialogando com a exposição de Caetano.