Cultura

VII CAPÍTULO DA NOVELA "MANHATTAN É LOGO ALÍ", POR MARCO GAVAZZA

Vide
| 10/10/2009 às 23:27
Visão de NY a partir do Pier 15 onde o casal Alfie e Rose decidem o futuro de suas vidas
Foto: Arquivo

CAP. 7

1º de janeiro de 1925. Whitehall St., Pier 15, Staten Island Ferry


Não havia muito que comemorar na passagem de 1924 para 1925. O ano que acabara na véspera havia sido especialmente cruel com Alfie e Rose Helen. No Woolworth Building, o chefe dos porteiros, o veterano Owen Willig, deflagrara uma ferrenha campanha de vigilância e perseguição a Alfie, a partir de uma falta não justificada no mês de abril e que lhe valera uma semana de suspensão. Mais que financeiramente, a medida acabou moralmente com Alfie, até então um exemplar funcionário.

  

Sentia a falta de Bill Warthon como a de um pai.

  

Owen controlava rigorosamente seus horários de saída e entrada, perguntava aos usuários do prédio se tinham alguma coisa contra Alfie, eliminava-o de qualquer lista de promoções ou benefícios, mantendo-o constantemente acuado. Cada minuto de atraso era rigorosamente descontado de seu pouco salário, cada mínima falha era religiosamente anotada nos livros de relatórios do condomínio.

  

Não fora a simpatia que Alfie recebia de antigos ocupantes do Woolworth e Owen já teria dado um jeito de se livrar dele. Alfie via a cada dia sua vida ficar mais sem sentido, sem som e sem cheiros. No apartamento da W135 St. o ar não continha mais aroma algum. O dinheiro dificilmente dava para qualquer refeição que não fossem sanduíches, feijões enlatados e peixe defumado.

  

Também a maconha deixara de ser comprada por falta de recursos e muito raramente bebia-se um gole de gim, sempre em garrafinhas de uma dose, algumas surrupiadas de algum mercado deserto na madrugada, quando Alfie saia do Woolworth.

  

O sexo desaparecera completamente entre ele e Rose Helen, que se limitavam a trocar poucas palavras quando estavam juntos em casa. Alfie mantinha um compromisso com o silêncio desde aquela noite de abril que provocou a sua falta ao trabalho e somente o quebrava quando era realmente necessário.

  

Às vezes voltava aos pensamentos que tinha naquela época, a respeito dos ciclos da vida, mas logo os afastava, pois acreditava que o seu ainda não terminara e intimamente temia pelo que poderia ser o próximo ciclo. Rose Helen convenientemente aceitava o silêncio de Alfie e por algum tempo ainda seguia sua vida cantando nos comícios de Marcus Garvey.  Porém este começou a solicitar cada vez menos sua presença, sua voz e seu corpo.

  

A prova mais evidente de que ele estava dispensando Rose Helen foi quando em 1° de maio, um ano depois do lançamento dela no Mount Morris, ele não a deixou cantar na manifestação realizada em frente à Low Library, na Columbia University. Rose Helen suportou a decepção mais uma vez. Alfie percebeu o fato, porém manteve o silêncio.

  

Pouco tempo depois, Marcus a descartava definitivamente, tanto de sua cama quanto de seus palanques, alegando que a causa negra não poderia mais se apoiar na música, parte do show business alimentado pelos brancos, necessitando de mais seriedade. E que seria melhor se eles não fossem mais vistos juntos. De uma nova forma, a carreira nunca iniciada de Rose Helen era interrompida.

  

Por vezes, ela também se questionava a respeito dos ciclos da vida, sem jamais mencionar isso com Alfie, tanto por respeitar o código de silêncio estabelecido quanto por desconhecer que também ele já andara pensando nisso. Sem a atividade artística atrelada ao movimento negro, desprezada pelo mundo do jazz por ser militante, sem o apoio de Alfie, Rose Helen entregou-se a uma profunda melancolia, quebrada apenas nas raras vezes em que Alfie a convidava para andar com ele até a estação do metrô na Lennox, quando saia para o trabalho.


Nestas ocasiões conversavam um pouco, indo além das frases relativas a assuntos práticos que trocavam em casa. Às vezes parecia até que a vida poderia ser sempre assim e vivida quem sabe com um pouco de amor. Mas silenciavam diante desta hipótese e diante de todas as tentativas e de todos os fatos do passado, que hoje os amedrontava. Mas, silenciavam principalmente porque tinham ambos a certeza de que jamais conseguiriam reviver os tórridos meses de amor selvagem que viveram antes.

  

A vida não costuma oferecer uma segunda chance quando a primeira foi plena e desperdiçada, embora reconhecer um momento de confluência de forças positivas na vida, não seja uma tarefa simples. Aquilo que se nos apresenta como sendo o primeiro momento de uma coisa duradoura, pode ser interpretado como um único momento de uma coisa passageira e assim vivido de forma completamente oposta ao que deveria ser.

  

A ansiedade por viver de todas as formas e o mais rapidamente possível aquilo que é rico o suficiente para ser saboreado em pequenos pedaços, elimina a possibilidade de um longo tempo de felicidade, dando lugar a uma sensação de cansaço e impotência, que leva geralmente à desistência e ao desconhecimento do quanto se deixou de cumprir.

  

O contrário também é comum. A tentativa de perpetuar momentos que essencialmente são passageiros e assim devem ser vividos, geralmente acaba por deixar frustrações que não deveriam existir. Tristezas onde somente a alegria foi chamada e o gosto amargo de fracasso na boca, pela incoerente tristeza diante de um final que tinha necessariamente de existir para que a coisa fosse positiva.

  

É como querer que o cantor cante eternamente a mesma música que adoramos ou não gostar de um filme porque ele acabou.


Inúmeras vezes se está diante de uma oportunidade única de crescimento, descoberta e amadurecimento e esta não é vista por estar atrás de uma cortina de paixão ou ódio, que tudo distorcem.

  

O envolvimento do cotidiano, dos padrões culturais e sociais, das metas de trabalho e conquista profissional, também contribuem para alterar a visão real das oportunidades e de suas características próprias. Até o amor por vezes se esconde atrás de padrões estabelecidos, principalmente os estéticos e sociais, impedindo por conseqüência a chance de se ver a oportunidade talvez única de ser feliz, realizar-se e crescer individualmente.

  

Lutar cegamente por um emprego, um cargo político ou um namorado, quando estes não os querem, também é estar vendado para as reais oportunidades, que geralmente estão passando do outro lado da rua. Gasta-se com isso energia vital irrecuperável. 

  

As oportunidades de elevação, de seguir adiante no caminho existencial não trazem estampadas as marcas evidentes que possuem os maus momentos. A felicidade é sutil, enquanto o sofrimento acaba até saindo nos jornais.

Para saber reconhecer o instante em que a possibilidade de viver mais e melhor está passando perto, é indispensável serenidade e sabedoria, coisas que nem sempre estão disponíveis, mesmo que existam.

  

O ano que acabara de passar para Alfie e Rose Helen certamente não trouxera momento algum em que a felicidade estivera ao alcance, pensavam eles isoladamente.  Mas, e o tempo anterior? Por quantas vezes não estiveram eles fascinados diante das vitrines enquanto a felicidade passava pela calçada, bem por trás deles?  Impossível precisar este momento, mas certamente ele aconteceu, não foi reconhecido e passou.

  

Embora não tivessem sido serenos, sóbrios e sábios para reconhecê-lo, ao menos agora Alfie e Rose Helen tinham a consciência de que dificilmente ele voltaria para ambos, enquanto estivessem juntos. Por isso, a passagem do ano foi só um prolongamento do silêncio que tomou conta dele a partir de abril.

  

Na manhã seguinte, primeiro dia de 1925, inesperadamente Alfie convidou Rose Helen para um passeio no Staten Island Ferry e ela aceitou. Navegando lentamente, acomodados na enorme balsa amarela, eles passaram perto da Ellis Island, repleta de histórias de imigrantes que vinham atrás também de uma oportunidade nos Estados Unidos, acreditando ser melhor correr atrás da felicidade que esperar e buscar identificar o momento certo de encontrá-la.

  

Viram emergir lentamente do Hudson, com o Woolworth Building destacando-se na paisagem, o sky line de New York, gigantesco e amedrontador, transformando cada ser vivo próximo dele num minúsculo ponto sem qualquer importância dentro do infinito emaranhado de avenidas, berços, túneis, escadarias, sonhos, fios elétricos, desilusões, cabos de aço, assassinatos, calçadas, beijos ardentes, livros, velas, espelhos, trilhos, fitas de acetato, esparadrapo, sexo, musicas, cocaína, mendigos, coca-colas, desesperos, missas, celas, flores, preservativos e túmulos.

  

Viram também de perto Mrs. Liberty, pairando majestosa a 93 metros acima da baía de New York, com sua tocha dourada iluminando a esperança e gravada em sua base a frase Venham A Mim Os Exaustos, Os Pobres, As Massas Confusas, Ansiando Por Respirar Liberdade.

  

Suprema ironia. 

  

Voltaram ao Píer 15 quase ao cair da tarde, silenciosamente como partiram horas antes, ambos mergulhados na paisagem e em seus próprios pensamentos. Caminhavam vagarosamente pisando as pedras do cais, quando Rose Helen parou, colocou-se de frente para Alfie, deu-lhe um suave beijo na face e lhe disse:

  

-Alfie, aluguei um quarto com uma amiga numa velha pensão na Mott St. em Chinatown. Obrigado por tudo, desculpe por tudo. Daqui para frente eu sigo sozinha. Manhattan é logo ali.

  

Desta vez, era verdade