Cultura

O TOMBAMENTO DO OUT-DOOR NA SALVADOR ONDE TUDO PODE, POR MARCO GAVAZZA

Vide
| 09/09/2009 às 10:06
Novo conceito de out-door com desrespeito às leis pela própria Prefeitura de Salvador
Foto: BJÁ

Em 40 anos de profissão, já vi muita maluquice no mundo da propaganda, algumas delas relacionadas ao meio outdoor, com Medalha de Honra para um tipo de outdoor pintado à mão -existiram sim, pode acreditar- e que logo recebeu o criativo título de Big Hand ou literalmente, na mão grande. Eles podiam ser confeccionados em poucas unidades, apenas três ou quatro, resolvendo aparentemente o problema de quem queria colar um outdoor e não tinha verba suficiente. Aí as ruas ficavam abarrotadas de cartazes estranhos, geralmente horrorosos e baratinhos.


Assim, não achei que ainda iria -depois de tanto tempo e tanta bobagem- me surpreender com coisas como a criação do Dia do Outdoor e a realização de um solene workshop, aberto pelo próprio Prefeito de Salvador, com o imponente tema "O Papel do Outdoor no Novo Conceito das Cidades". 


Meu Deus, por quatro décadas eu sempre pensei que o outdoor fosse um meio de comunicação publicitária e nada além disso. Descubro agora que é uma verdadeira personalidade urbana, como as igrejas, os bares, os postos de gasolina e coisas assim.


Na verdade, antes de entender o papel do outdoor no novo conceito das cidades gostaria que alguém me explicasse qual é esse "novo conceito de cidade" e se ele foi discutido com a sociedade civil e apresentado com a mesma pompa e circunstância que o nosso velho companheiro urbano de 9 x 3 m o foi.


Considerando a capital baiana como sede destas baboseiras, só posso crer que o "novo conceito de cidades" já esteja implantado por aqui.  Deve ser o conceito ampliado da liberdade absoluta, que vem superar em muito e modernizar hábitos seculares como simplesmente mijar na rua.


Deve ser por isso que hoje é possível fazer absolutamente tudo nas ruas de Caosvador sem que algum inoportuno agente da lei venha questionar.  Montar uma barraca no meio da passarela que parecer mais bem freqüentada e comercializar uma coisa chamada comida caseira. Estacionar um carro em qualquer esquina e vender redes, cangas, toalhas de praias, bolachinha de goma e cocaína.  Enfiar barras de ferro na calçada para que ninguém estacione sobre ela em frente à sua casa, ou seja, um abuso para impedir outro. Colar cartazes em todos os postes, muros, placas de trânsito, guarda-corpos de faixas de pedestres ou o que mais aparecer. Ocupar calçadas e ruas com mesas e cadeiras dos bares  instalados em casas onde só cabem a cozinha e o caixa.  Parar um ônibus no meio de uma avenida de vale para esperar aquela morena gostosa que vem andando lentamente, balançando pra lá e pra cá, do outro lado da pista. Este deve ser um dos aspectos do novo conceito de cidades, talvez o mais visível deles.


Claro que existem outros um pouco mais complicados, como construir residências em qualquer encosta, invadir terrenos públicos e privados, criar bairros por iniciativa própria, abrir ruas, negociar com empresas particulares e ganhar uma contrapartida para não invadir suas áreas, construir e desconstruir continuamente barracas de praia mantendo a orla marítima da cidade em permanente estado de calamidade, organizar grupos de traficantes e policiais que operem de forma integrada e garantam o abastecimento de drogas próximo às escolas, coordenar licitações públicas para que estas sejam vencidas por futuros contribuintes em campanhas eleitorais ou ainda usar a Câmara dos Vereadores em discussões memoráveis para a cidade, como tornar Michael Jackson cidadão póstumo soteropolitano. Trazendo à custa dos impostos que pagamos, sua mãe -a do falecido- para receber a honraria.


Aí complica, porque eu não consigo ver o papel do outdoor neste novo conceito de cidades. Desde que os conheço, quando ainda eram montados com pedaços de madeira e por vezes oscilavam com o vento, os outdoors sempre me pareceram bem comportados,  ordeiros e respeitadores. Com o tempo, tornaram-se ainda mais civilizados, começaram a utilizar estruturas tubulares de belo design, ganharam iluminação própria, passaram a apresentar-se em duplas e até trios, desenvolveram versões mecanizadas onde se exibem três cartazes ao mesmo tempo com um simples giro de seus triedros.


Mais importante: escolheram cuidadosamente onde ficar para que suas mensagens fossem percebidas pela maioria dos passantes, sem poluir a cidade. Assim, os outdoors me parecem completamente deslocados dentro deste "novo conceito de cidades" que se fala no noticiário e que vemos pelas ruas. Como um nobre britânico em meio a um mercado de peixes em Nova Delhi.


Então chego à conclusão que o workshop e o dia dedicado ao homenageado devem ter sido destinados a uma outra linhagem de outdoors que combina mais com o "novo conceito de cidade" existente em Caosvador. Aqueles outdoors informais que se instalam em qualquer terreno baldio, qualquer morrinho como o do Cristo, espetados no meio de jardins e áreas verdes, poluindo tudo em volta.  Estes sim, combinam com o novo conceito de cidades que é usado em nossa capital.


Tem também os outdoors funcionários públicos que anunciam realizações municipais ou estaduais e gozam de regalias que também estão mais adequadas ao conceito local de cidades.  Instalam-se em praças públicas, calçadas, pendurados em árvores ou qualquer outro suporte e ficam por lá meses a fio, para que ninguém fique sem saber como é eficiente a administração pública.  Certamente ganhando horas extras e outros benefícios garantidos aos servidores municipais, estaduais ou federais.  


Existem ainda os outdoors torpedos,  que nos informam sobre a paixão incontrolada de Everaldo por Elisângela ou por  Romenildo, tanto faz. Tem também aqueles sobre a enorme felicidade que o Dr. Roseval proporcionou à comunidade da Ladeira do Bico de Papagaio. Mas estes, embora intrigantes, ficam por pouco tempo no cenário do "novo conceito de cidade". Paixão e gratidão são coisas geralmente muito passageiras.


Esta família de outdoors combina perfeitamente com o conceito de cidade que se criou espontaneamente em Salvador e  envolve o desrespeito, a incivilidade, a permissividade, a irresponsabilidade e assemelhados.  Ainda assim, não vejo motivos para transformar um meio de comunicação num marco histórico da solução -ou da falta delas- para problemas de urbanismo, crescimento humano, qualidade de vida e bem estar social.  Relembro aqui o que Freud já afirmou: um charuto às vezes é apenas um charuto.


Certa vez perguntei a um alemão amigo de um amigo meu, que vinha religiosamente à Bahia duas vezes por ano, porque ele gostava tanto daqui; que razões ele encontrava para sempre estar em Salvador. Ele me respondeu sorridente e sem hesitação:


O caipirinha, os mulatas e o esculhambaçón.


Deve ser esse o "novo conceito de cidades" que temos. Principalmente o esculhambaçón.