O texto acima foi escrito e publicado em veículos de comunicação pelo Sr. Oldack Miranda, o qual confesso desconhecer historicamente. Não estava nem um pouco disposto a comentar isso mas acontece que antes, no dia da festa para Geraldão, o Sr. Oldack interpelou-me com a mesma argumentação e crítica. No momento respondi apenas que publicitário é apartidário e que a festa era da propaganda e não política. Dito isso me afastei, pois não queria tingir uma manhã tão azul quanto aquela.
Mas o homem insiste. O que ele chama de piadinha, não foi uma piadinha e se fosse teria sido normal ele não entende-la, pois a esquerda brasileira carece profundamente de humor. Foi uma referência histórica que a democracia em que vivemos me permite interpretar como quiser ou bem entender.
Então, vamos lá. Uma das histórias mais curiosas da propaganda brasileira conta do ardor com que Neil Ferreira, na época um dos diretores de criação da DPZ, defendia uma campanha de cigarros numa apresentação para a Souza Cruz. Depois de muita discussão, um dos executivos estrangeiros da já então multinacional decidiu ser irônico e comentou: "Vejo-o defender com tanto entusiasmo esta campanha e percebo que o senhor sequer é fumante". Ao que Neil, olimpicamente mordaz, retrucou imediatamente: "Também não mênstruo e ganhei diversos prêmios internacionais para o produto OB". Contam que a reunião terminou aí.
Oldack, um publicitário é um técnico especializado e contratado para resolver um problema de comunicação que leve a um determinado resultado. Não é obrigatoriamente um militante usuário daquilo que anuncia. A conta publicitária que alavancou a Agnello Comunicação -uma das mais importantes agências de atualidade no Brasil- foi a das calcinhas Hope e conheço Agnello Pacheco o suficiente para acreditar que ele não as usa. Isso é coisa que você próprio Oldack, percebeu, quando registra que Geraldão trabalhou também para FHC. Tem mais gente, Oldack. Ele trabalhou para o próprio Dr. Ulysses, para José Eduardo dos Santos (Angola), para Jaime Lerner, para Tasso Jereissati, para Antonio Britto, para Marcelo Alencar, para José Serra. Sempre fazendo o melhor que podia para todos eles. Elegeu Waldir e elegeu FHC. Isto é ser um publicitário respeitável.
Em outro trecho do artigo Oldack acusa a direita radical, a mídia conservadora e a famiglia Magalhães (assim mesmo, com este g nada sutil remetendo aos mafiosos) de ter semeado na cabeça do povo uma severa crítica ao "sacrifício" de Waldir para tentar impedir a vitória de FHC. Ou seja: o mesmo povo que não foi manipulado pela campanha de Josapath Marinho e que desbancou ACM do poder, pode ser manipulado para ter uma opinião negativa sobre a renúncia de Waldir.
O que aconteceu Oldack, foi que o 1.000.000 de votos (este milhão foi apenas a vantagem) que elegeu Waldir representava a vontade dos baianos de que ele mudasse a Bahia. Para tentar mudar o Brasil, o PMDB e o Dr Ulysses já tinham muita gente disponível. Mudar a Bahia era a prioridade na época e foi o tema da campanha vitoriosa. Isso não aconteceu, deixou o povo baiano frustrado e qualquer pesquisa de opinião pública realizada hoje, tantos anos depois, ainda confirmará isso. Não importa se Waldir e o partido consideraram que a renúncia era um "sacrifício" indispensável. Não foi para isso que ele foi eleito.
Oldack, não pertenço a nenhum partido, não torço por nenhum time de futebol, não tenho nenhuma religião, não "sou" de nenhuma escola de samba. Acho -e posso estar errado como qualquer ser humano- que quando nos tornamos filiados, automaticamente nos tornamos também parciais e perdemos o espetáculo como um todo. Um torcedor roxo do Vitória jamais irá apreciar uma bela partida jogada pelo Bahia e vice-versa. Um evangélico radical nunca perceberá a sabedoria contida no budismo ou no cristianismo. Quem era fanático por Nelson Piquet deixou de vibrar com todos os espetáculos de Ayrton Senna. Prefiro ser neutro e buscar aqui e ali aquilo que me convence ou agrada mais, fazendo assim a minha sopa cultural e de vida.
Por isso caro Oldack e certamente porque na campanha de Waldir, como em todas as outras de que participou, Geraldão sempre brilhou mais que todos, você não sabe que eu também trabalhei na campanha de Waldir. Entre incontáveis outras coisas, criei o comercial onde o Pinóquio comentava as promessas de Josaphat enquanto o seu nariz crescia sem parar. Comercial este que foi exibido meia dúzia de vezes e retirado do ar a pedido do próprio Waldir, pois o achava "pesado" demais como critica ao discurso parnasiano e à figura elegante de Josaphat Marinho. Comercial este que ainda assim ganhou prêmio como melhor comercial político do ano.
Assim como antes ajudei a eleger João Durval, fiz parte da equipe que ajudou a eleger Waldir Pires, Oldack. Se não mencionei isto no artigo aqui publicado e depois transformado em panfleto para a festa, foi porque a homenagem era a Geraldo Walter e não cabiam refletores voltados para mim mesmo. Em momento algum do artigo sequer registrei que tive a alegria e a honra de trabalhar com GW.
Mas como parte da equipe na campanha de Waldir, tive oportunidade de ver como eram difíceis as decisões internas. Assisti por diversas vezes Geraldo Walter entrar na sala de reuniões faltando poucos minutos para as 6 da tarde, pedir desculpas a todos que ali discutiam uma palavra ou uma cena do programa já aprovado e gravado, saindo da sala com a fita VHS -ainda era assim- do jeito que estava debaixo do braço, voando para a emissora a tempo de entrega-la no prazo, deixando os que questionavam miudezas falando sozinhos. Esse era o jeito pouco democrático dele fazer as coisas andarem. O mesmo ele faria fosse quem fosse o candidato. E foi assim que Waldir ganhou. Depois Oldack, é realmente outra história.
Finalmente Oldack; esqueça isso. Ninguém pode mudar o passado e não adianta nada criarmos diversas versões para ele. Siga em frente. Minha opinião política não tem a menor relevância. Sou um modesto observador do cotidiano, especializado em propaganda e Waldir Pires só entrou naquela matéria porque foi o "produto" de uma das mais importantes campanhas publicitária realizadas no Brasil e comandada exatamente pelo saudoso amigo que eu tentava homenagear. Nada mais que isso.