Cultura

MORRE ATRIZ NILDA SPENCER, MÃE DE TODAS AS ATRIZES DO TEATRO BAIANO

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| 10/10/2008 às 13:02
Nilda Spencer, à esquerda da foto, ao lado de Matildes Matos (Foto/Div)
Foto:

   Morre a atriz Nilda Spencer, aos 85 anos.

   A atriz não resistiu a duas paradas cardíacas, após complicações de uma cirurgia no ombro.


   O corpo da atriz está sendo velado na capela G do Cemitério Jardim da Saudade. Seu corpo será cremado às 16h30 desta sexta-feira.
 
   O amigo e diretor de teatro Nonato Freire, a filha Susan e o neto Rafael estão no local. A outra filha, Judy, viaja de São Paulo para a despedida da mãe.


   No último dia 1º, Nilda fez um cirurgia no ombro, que estava fraturado em dois locais após uma queda. Depois da operação, a atriz chegou a ser transferida para um quarto do Hospital Jorge Valente, mas teve uma infecção pulmonar. Ela foi internada então na Unidade de Tratamento semi-intensivo e, por fim, na UTI.


   No mesmo dia em que foi internada, a atriz, que tinha 52 anos de carreira, recebeu uma homenagem: a inauguração da Galeria Nilda Spencer, no Teatro Martim Gonçalves, da Universidade Federal da Bahia, no Canela. No local, o público pode conferir fotos da atriz.


   NOTA DO SECRETÁRIO
   MÁRCIO MEIRELES

   Em nota distribuida agora há pouco o secretário de Cultura do Estado, Márcio Meireles, disse que "é com tristeza e comoção que recebemos a notícia da morte da amiga e atriz Nilda Spencer. Mãe de todas as atrizes, inspiração de gerações de artistas, Nilda foi pioneira na arte da dublagem e, na primeira metade do século XX, a aluna mais aplicada da primeira escola universitária de Teatro do Brasil, admirada por Martin Gonçalves e pelo reitor Edgar Santos".
 
  - Os personagens que ela interpretou estarão para sempre gravados em nossa memória. Todos eles estiveram à sua procura, além de autores, diretores, atores, atrizes, cenários, figurinos, canções. O Teatro baiano é grato ao seu exemplo e a sua dedicação total aos palcos. A cena baiana é mais rica porque teve o privilégio de sua presença.


Márcio Meirelles



SÉRGIO MATTOS

(Entrevista concedida pela atriz baiana Nilda Spencer publicada na revista NEON, edição nº 45, setembro 2004)


Nilda Spencer, a embaixatriz do Teatro baiano, com 81 anos, cheia de experiências de uma vida bem vivida, viúva, mãe de duas filhas (Susan e Judy) que lhe deram dois netos, nos recebeu para um bate-papo descontraído. Chegamos à sua residência, no Chame-Chame, às 9 horas do dia 15 de setembro, conforme o combinado. Pretendíamos fazer uma entrevista formal, dentro do espírito que sempre norteou a NEON, de resgatar a memória cultural e artística da Bahia, contribuindo para a preservação dos nossos valores. Lá, entretanto, conversamos sobre vários assuntos motivados pela amizade, por lembranças e devido a alegria, força e vibração que ela costuma irradiar, principalmente quando fala do sonho de sua vida: o Teatro, ao qual dedicou sua vida. Após uma conversar de quase três horas, quando falou de sua experiência como pianista, atriz de teatro, televisão e cinema, ela posou para uma seção de fotos produzidas por Denise Mattos, quando teve a oportunidade de dar um verdadeiro show de expressões faciais que só uma grande atriz, com sua vivência consegue fazer. Isto porque por trás de sua simplicidade ela conhece e domina o sentimento do ser humano com a profundidade de quem é capaz de ver também no fundo da alma das pessoas. Conheço Nilda Spencer há mais de 35 anos, quando ela começou a escrever uma coluna de teatro no jornal Tribuna da Bahia, onde me iniciei como jornalista profissional no ano de 1969. A sua figura, pequena em estatura, sempre me pareceu grande devido à sua simplicidade, cortesia, alegria e firmeza com que manifesta suas opiniões, além da disposição permanente de ajudar as pessoas. Quando ia à redação do jornal, rara era a vez em que não se via cercada para um papo rápido. Isto porque a redação estava repleta de poetas e jovens artistas que integravam a equipe da Geração TB. Uma equipe formada e chefiada por Quintino de Carvalho. Com mais de 40 anos de teatro, Nilda Spencer é um exemplo vivo de uma pessoa realizadora e que continua construindo a história cultural da Bahia. Uma pessoa que soube ter a ousadia de assumir o sonho de ser artista de teatro, além de ser educadora, dando sua contribuição para a formação de novas gerações de atores.



SÉRGIO MATTOS – Para relaxar um pouco, para que as memórias venham à tona, comece falando um pouco sobre você mesma, suas origens e sua família.

NILDA SPENCER – Eu nasci  no dia 18 de junho de 1923, no bairro do Canela, em Salvador, em um casarão, um solar colonial cheio de varandas, que dava para a atual escola de Teatro. Fui batizada com o nome de Nilda Oliva César. Sou filha de D. Zizi Oliva César e de Elizeu César. Minha mãe era professora e meu pai tesoureiro do Departamento de Águas da cidade, uma pessoa muito honesta e muito elogiada. Minha mãe foi muito rígida com minha educação. Ela gostava muito de português e não deixava passar nada, nem mesmo no cotidiano. Ela ia corrigindo tudo. Minhas recordações de infância são maravilhosas. As lembranças da adolescência são melhores ainda e, depois de madura, só tenho ÓTIMAS lembranças... .Casei-me aos 20 anos de idade com o geólogo americano, Julius Clarence Spencer Jr., que conheci em Mata de São João. Eu não viajava muito para o interior, mas minha avó Mariquinha (Maria Álvares César), morava em Mata de São João e o conheci numa das visitas que fiz. A família de meu pai vinha de Barracão, hoje Rio Real, cidade na fronteira com Sergipe. Minha mãe é da família Oliva. Com relação à minha formação,  estudei inicialmente no Colégio das Sacramentinas, depois fui para a  Escola Jesus Maria José, cujos diretores eram amigos e colegas de minha mãe. Depois fui para o colégio de D. Afrísia Santiago, Nossa Senhora Auxiliadora, depois fui para a Soledade, das Irmãs Insulinas, e posteriormente fiz a Universidade, na Escola de Teatro da UFBA.


SM – Tendo estudado em colégios tradicionais e rígidos como o de D. Afrísia qual foi o impacto de sua decisão de estudar e fazer teatro? Qual o impacto no seio familiar e na sociedade da época?

NILDA –  A aceitação não foi muito boa não. Mas, como eu já estava madura e independente quando tomei a decisão... não sofri pressões. Digo isso porque antigamente a independência da mulher vinha com o casamento. Quando decidi fazer teatro, eu já estava casada, tinha mais de 30 anos, e ninguém me segurava mais. Tanto é assim que minha decisão foi uma coisa repentina. Eu me arrumei para sair e comuniquei: Eu vou fazer Teatro e fui...


SM – Mas para você tomar uma decisão deste porte tinha que haver algum vínculo que te ligasse ao teatro ou às artes. Quem era a pessoa ou pessoas envolvidas neste processo?

NILDA – Olhe, eu tive muita sorte. Posso dizer isso. Minha mãe gostava de teatro e de ópera. Fui criada ouvindo óperas. Eu até imitava e fazia dublagens em casa. Quando me ouvia fazendo dublagens, minha avó comentava: “Esta danadinha tem uma voz muito bonita!”. Desta forma, com dez anos de idade eu já mostrava que tinha uma tendência artística...


SM – E as dublagens, houve alguma apresentação profissional?

NILDA – Sim houve uma. Eu fui a primeira pessoa a fazer dublagem na Bahia, cantando “Summer Time”. Eu coloquei o Mário Gusmão, deitado, de frauda, em meu colo. Eu me apresentei toda pintada de preto. A apresentação foi um sucesso. O reitor Edgard Santos ficou tão entusiasmado que ao final subiu ao placo e me abraçou. Como ele estava todo de branco, ficou todo sujo. Isto ocorreu no dia 13 de junho na festa oficial de inauguração do Teatro Santo Antonio em 1958.


SM – Desculpe-me Nilda, por tê-la interrompida. Você estava falando sobre a influência, direta ou indireta, de sua mãe em sua formação...

NILDA – Pois é, minha mãe falava muito, em casa, da época do Teatro do Politeama, do Teatro São João e também dos incêndios. Aliás, até o Teatro Castro Alves também já foi destruído pelo fogo. De certa forma eu sempre estive envolvida com o meio artístico, pois minha mãe sempre me levava para assistir aos concertos de D. Alexandrina Ramalho. Fui educada para ser pianista.


SM – E toca alguma coisa ainda hoje?

NILDA – Nada! Mas cheguei a ter um iniciozinho de sucesso e se não fosse o teatro...Eu cheguei a dar alguns concertos com colegas como Manuel Veiga e outros. Do grupo, Veiga  foi o que seguiu mesmo a carreira e hoje é maestro.


SM – É, eu sei que você chegou a realizar alguns concertos públicos. Como foi isto?

NILDA – Na década de 40 (do século passado) fiz pequenos recitais pela cidade, incluindo as missas de natal. O maior deles foi o recital que fiz em homenagem à Força Expedicionária Brasileira, em 1945, no Clube Bahiana de Tênis.


SM – Você também realizou concertos fora do país?

NILDA – Fiz alguns concertos nos Estados Unidos e na Venezuela. Quando a guerra acabou eu me encontrava nos Estados Unidos e fui convidada a realizar concertos para os soldados americanos feridos na guerra. Mas o meu destino era mesmo o teatro.


SM – Sua experiência de pianista ficou nisto ou teve algum envolvimento no próprio teatro?

NILDA – Não, não...eu fiz várias composições também. Fazia composições para as peças de Martim Gonçalves e para várias peças infantis.


SM – Como começou sua experiência com o teatro propriamente dito?

NILDA – Começou  quando Martim Gonçalves veio para a Bahia, a convite do Dr. Edgard Santos, Reitor da UFBA, para fundar a Escola de Teatro.  Genaro de Carvalho(artista e tapeceiro), que vivia insistindo e dizendo que eu devia me profissionalizar devido ao meu talento (ela costumava  imitar,  além dos astros de Hollywood, políticos locais e outras pessoas em reuniões sociais), foi quem me apresentou a Martim Gonçalves. Um dia, Genaro disse que era amigo de Martim Gonçalves e que ia lhe oferecer um coquetel de boas vindas e gostaria de contar com minha presença. Fui ao coquetel e quando lá cheguei não tinha nenhum outro convidado além de mim  e de Martim Gonçalves. O coquetel foi uma armadilha criada por Genaro para  me apresentar a Martim. Conversamos muito e ele me convidou para fazer uma Leitura de Peça no outro dia. Quando lá cheguei já tinha até um lugar para mim na peça “O Alto da Cananéia”, de Gil Vicente, que o grupo dirigido por ele estava ensaiando. Esta peça teve estréia em 1956 na Igreja de Santa Tereza , inclusive com um tropeço meu no palco, que havia sido construído só para aquela apresentação. Depois do tropeço tudo correu direitinho e eu comecei a freqüentar a Escola de Teatro que na época funcionava no porão da Reitoria da UFBA. A Bahia tinha uma tradição de teatro, mas a vida teatral estava parada já há alguns anos.


SM – Depois de “O Alto da Cananéia”, qual foi peça que marcou definitivamente a atriz Nilda para que ela continuasse nos palcos?

NILDA – Bom, eu continuei acompanhando Martim Gonçalves nas aulas públicas que ele dava no porão da Reitoria, quando começou a formar um público nos domingos à noite. Ele dava as aulas, eu freqüentava as aulas e fazia pequenas cenas de Lorca, de Brecht, entre os  autores mais conhecidos e famosos. As sessões eram abertas ao público nos domingos à noite. No começo tinha pouca gente, cinco ou seis pessoas. Depois foi enchendo até lotar o espaço, pois as aulas públicas caíram no conhecimento dos estudantes e do público em geral e a assistência passou a lotar o espaço. Martim era muito esperto e inteligente. Ele promovia estas aulas públicas enquanto estavam reformando o Solar Santo Antonio que havia sido comprado pela UFBA e transformado, posteriormente, na Escola de Teatro, em l956. O Teatro Santo Antonio (hoje rebatizado com o nome Teatro Martim Gonçalves) foi inaugurado, no ano de 1958, com a peça “Senhorita Julia”, de Strindberg, onde eu fazia o papel de Cristina, uma empregada. Um papel muito forte, contracenando com dois atores profissionais: Antonio Patinho e Ana Edller, que era nossa professora de Dicção. Ana era uma pessoa fantástica e depois que casou com um americano foi morar nos Estados Unidos onde morreu há uns dois anos.


SM – É , eu tive a oportunidade de conhecê-la lá nos Estados Unidos, onde estava fazendo meus estudos de pós graduação. Ela morava na cidade de Pittsburgh, na Pennsylvania e em 1978 eu a entrevistei, publicando uma longa matéria no jornal A Tarde. A reportagem repercutiu no meio teatral baiano, pois João Augusto não gostou muito de algumas coisas que ela disse na matéria...

NILDA – não...o problema é que tinha havido uma briga na Escola de Teatro envolvendo o grupo de Martim Gonçalves e o de João Augusto. A reação de João Augusto deve ter sido por isso...


SM –  Com a inauguração da Escola e logo depois do Teatro Santo Antonio como ficou sua vida em relação à prática teatral?

NILDA –  Com a inauguração oficial da Escola eu passei a estudar teatro com os melhores professores que Martim Gonçalves trazia do sul do país. A Escola de Teatro da Bahia foi a primeira do gênero a ser criada no país e eu integrei a primeira turma diplomada no ano de 1959. Da turma, além de mim faziam parte: João Gama, Sonia dos Humildes, Jurema Pena, Lia Mara, Roberto Assis, Othoniel Serra, Maria Ivandete e Julieta Bispo.


SM – Pensei que Othon Bastos e Carlos Petrovich fizessem parte deste grupo também...
NILDA
– É faziam. Como disse houve uma cisão interna, entre os professores, na Escola de Teatro, o que levou alguns alunos, pouco tempo antes da formatura, entre eles, Carlos Petrovich, Sônia Robato e Othon Bastos a recusarem a diplomação e seguirem o grupo de professores (João Augusto, Gianni Ratto e Dometila Amaral) que rompeu com a direção da escola. Estes alunos sob a liderança de João Augusto fundaram depois o Teatro dos Novos.


SM –  Sim, mas o importante é que Martim Gonçalves foi  responsável pela formação de uma inteira geração de atores de teatro na Bahia...

NILDA – Sim, uma geração muito bem formada.


SM – E com João Augusto você também trabalhou?

NILDA – Sim, também trabalhei com ele. Fui e continuo sendo fã dele. Fiz O Grego e  Quincas Berro D’Água sob a direção dele.


SM – João Augusto me faz lembrar de minha experiência com teatro, no Colégio da Bahia – Central, quando integrava a equipe do GATEB. De nosso grupo de teatro amador saiu muita gente que se profissionalizou no teatro. Na época participavam do grupo, eu (Sérgio Mattos), Haroldo Cardoso, Zoroastro Santanna, Carlos Sarno, Angelo Oliva, Francisco Ribeiro Neto, Jurema , Rute e outros. Era um grupo bem eclético...
NILDA
– E você, Sérgio Mattos, por que desistiu do teatro?


SM – Fiz a opção pelo jornalismo, mas vejo que um dos diretores do grupo, o Haroldo Cardoso, também dirigiu você em algumas montagens, não é?

NILDA – É verdade, ainda esta semana falei com o Haroldo. Ele me dirigiu numa peça de Moliére, “Dotô Roda”, no Teatro Vila Velha.


SM – O período entre meados da década de 50 e toda a década de 60 do século passado,  foi de total efervecência cultural na Bahia. Um movimento cultural promovido, principalmente, pela Universidade idealizada por Edgard Santos, que coincide com o crescimento do cinema aqui na terra. Na época, você  não se envolveu também com o cinema por que?

NILDA – Olha, o Glauber Rocha não saia lá da Escola de Teatro. Ele ia muito lá, juntamente com Calasans Neto – o pessoal da Geração Mapa. Martin Gonçalves gostava muito de Glauber, mas eu nunca tinha pensado em fazer cinema, o meu negócio era mesmo o teatro. Certo dia, Glauber me perguntou se eu não tinha vontade de fazer cinema e eu respondi que não, pois não estava disposta a viajar para o interior e beber água com sapinho dentro, como aconteceu com Sonia dos Humildes. Vou nada... eu quero mesmo é fazer teatro. Apesar disso, eu também fiz cinema. Minha primeira experiência no cinema foi no ano de 1968, com “Juliana e D. Jorge”, um filme de Fred Souza Castro e Oscar Santana, filmado em Santo Amaro da Purificação, mas o filme nunca saiu da prateleira.


SM – Mas você participou de outros filmes, inclusive um de grande sucesso de crítica e de público...

NILDA – É. Luis Carlos Barreto era muito meu amigo e freqüentava minha casa. Por conta disso surgiu o convite de Bruno Barreto que estava filmando aqui, em Salvador,  o “Dona Flor e Seus Dois Maridos” e ele acabou me chamando para integrar o elenco de “Dona Flor...”.


SM – Você ganhou dinheiro com o sucesso de “Dona Flor”?

NILDA – Não. Na verdade eu nunca pensei em fazer teatro e cinema por causa de dinheiro...


SM – Pelo que sei, em “Dona Flor” você ia participar com um personagem menor, que  acabou crescendo. O que houve?

NILDA – Em “Dona Flor” eu ia ter apenas uma fala. Somente uma fala, mas o Bruno foi gostando e aumentando meu papel que acabou sendo o segundo papel feminino no filme. Eu nem me dei conta de que isto era muito bom nem nada. Eu era tão desligada...  ainda sou. Eu estava achando tudo muito bom, maravilhoso. Depois deste filme recebi o convite para fazer mais um.


SM – Qual foi?

NILDA – O Nelson Pereira dos Santos me chamou para fazer “Tenda dos Milagres”. E depois dele ainda participei de um outro, de Edgard Navarro, que me convidou para trabalhar em “O Super Outro”.


SM – Além destes, você também participou de várias outras produções locais, curtas metragens e outros de caráter experimental, não é mesmo?

NILDA – É verdade. Participei de “Meteorango Kid”, filme dirigido por André Luis Oliveira; “Caveira My Friend”, de Álvaro Guimarães; “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de André Klotzel; “O Boca do Inferno”, de Póla Ribeiro; “A Baixa dos Sapateiros” que contou também com a participação de Carlos Petrovich,  e  “Adela”, de Elísio Lopes Jr. Além destes teve também um filme italiano: “Rebelião dos Brutos”.


SM – E na Televisão, Nilda, qual foi sua participação? Você não aproveitou aquela onda com a chegada da TV Itapoan na Bahia?

NILDA – Não. Quem trabalhou muito na TV Itapoan foi a Sonia dos Humildes. Ela chegou até a fazer um programa com o Cícero Schinneider, “Catavento”. Eu nunca fiz nada na televisão local. Eu era muito entrevistada, mas nunca fiz programas.


SM – Mas já trabalhou em televisão também, não foi mesmo?

NILDA – Sim , é verdade. Eu fiz uma novela, “Rosa Baiana”, da TV Bandeirantes, rodada na Bahia. Eu e o Harildo Déda, quando fomos destacados como os melhores atores da novela.


SM – Teve outras experiências com televisão além desta?

NILDA – Sim. Participei de duas minisséries da Globo: “Tenda dos Milagres”, em 1984, e “O Pagador de Promessas”, em 1985.


SM – Com relação ao teatro, quanta peças você encenou? E quais as mais importantes?

NILDA – O total foi de 70 peças. A primeira, como já foi dito, foi o “Auto da Cananéia”, em 1956, e a penúltima, um grande sucesso de público, foi “Ensina-me a viver”, no ano de 2000. Este ano, participei de “1,99”. Entre estas encenei várias outras tais como: “Senhoria Julia”, “Morte e Vida Severina”, “A Falecida”, “A Companhia das Índias”, “A Exceção e a Regra”, “Lábios que Beijei”...


SM – “Ensina-me a viver” realmente fez muito sucesso...

NILDA – É ficou dois anos em cartaz, obedecendo um rodízio natural para dar espaço a outras montagens. É uma peça de Collin Higens. A peça conta a história de um amor entre um jovem de 18 anos e uma mulher de 80 anos de idade.  Foi nesta peça que pela primeira vez, no palco, beijei na boca de um ator (Lucas Valadares). Foi uma nova experiência de vida para mim e curti muito. Gostei muito de participar desta peça que ficou dois anos em cartaz na sala do Coro do TCA. Houve um dia que teve apresentação especial só para o pessoal da terceira idade e as pessoas curtiram muito, todo mundo queria também viver um amor igual. A peça foi muito aplaudida e bem recebida pela crítica. Até hoje as pessoas me param na rua para pedir autógrafos...


SM – Nilda, você também integrou o quadro de professores da Escola de Teatro, não foi?

NILDA – Sim, eu assumi a função de professora da Escola logo depois de formada, como assistente de Ana Edller, como professora de Dicção. Depois fui diretora da escola por quatro vezes, sempre eleita por unanimidade. Ensinei de 1961 a 1985 quando me aposentei. Depois de aposentada não tenho mais tempo para nada, tenho sido muito requisitada para compor comissões, júris, inaugurações, etc. Atualmente sou presidente da Câmara de Cultura Contemporânea do Conselho Estadual de Cultura, que mantem duas reuniões semanais.


SM – Como educadora que outras experiências você teve?

NILDA – Como já foi dito fui professora de Dicção e diretora da Escola de Teatro da UFBA, mas fui também professora da Universidade Federal de Sergipe; professora de dicção de emissoras de rádio e de televisão aqui na Bahia; autora de artigos especializados em revistas acadêmicas-universitárias; organizadora de inúmeros seminários de teatro, conferencista, além de tradutora oficial da Escola de Teatro por ocasião de visita de diretores de outros países durantes muitos anos, além de outras atividades..


SM – Como é que você virou colunista de Teatro da Tribuna da Bahia?

NILDA – Eu estava dando aulas de dicção para Quintino Carvalho, que tinha um programa na TV Aratu um pouco antes da Tribuna começar a circular e ele me convidou para escrever. Eu aceitei, começando em 1969 e permaneci na função até o ano de 2000 sem nunca ter deixado de escrever um único dia reservado à minha coluna.


SM – Você já pensou em reunir estas crônicas em um livro, resgatando assim parte da historia contemporânea do teatro baiano?

NILDA – É tem muita gente me procurando para eu fazer isto, mas...


SM – Nilda, é importante que isto seja feito. Se não for você, autorize alguém para realizar a tarefa. Acredito que até o Governo do Estado ou o próprio Conselho de Cultura deveria promover a produção deste livro.

NILDA – É...


SM – O fato de você ter escrito uma coluna de teatro por mais de 30 anos me leva a uma outra pergunta. Antigamente a mídia local estava cheia de colunas de teatro e de cinema. Os jornais faziam uma forte cobertura dos eventos culturais. O que foi que aconteceu? Hoje já não encontramos a mesma cobertura?

NILDA – É verdade, todos os jornais tinham colunas de teatro e as estréias eram verdadeiros acontecimentos com grande cobertura por parte dos jornais que dedicavam muito espaço aos eventos teatrais.


SM – Qual foi o momento mais difícil que você já teve em palco?

NILDA – Para mim no palco nada foi difícil. Tudo era muito fácil e natural como respirar. Quando assumo um personagem, parece até sessão espírita, pois enquanto estou no palco, incorporo o personagem, mas ao sair do palco me desligo. Volto a ser Nilda, mudo a roupa e vou para a noite.


SM – Como é que você assume o personagem e logo depois se desliga?

NILDA – Quando estou no palco não vejo ninguém na platéia, pois assumo mesmo a vida do personagem. Para assumir o mundo do personagem preciso de muita concentração e sem conversas entro no palco. O personagem é estudado e construído nos ensaios pelo ator e diretor. Temos que ensaiar muito para amadurecer o personagem e incorporar sua maneira de ser, de falar, de gesticular e de se vestir.


SM – Você sempre participou ativamente da boemia e das noites baianas. Quem eram seus companheiros?

NILDA – O poeta Jeovah de Carvalho sempre esteve por perto com seu vozeirão declamando poemas. Ele era um grande companheiro das noites. Cito ainda Afonso Coentro e Yan Sobanski. Freqüentei muito o Varandá (no Pau da Bandeira) e a Cantina 292 (no Dique do Tororó), mas nunca freqüentei nem o Tabarís nem o Rumba Dancing. Geralmente saíamos para a noite depois de encontros em minha casa onde costumava, a partir de sexta feira, oferecer uma open house, com comidas e bebidas.Minha casa era um ponto de encontro cultural.


SM – Como eram estas festas, open house. Sei que muita gente famosa andou por sua casa, inclusive Janis Joplin.

NILDA – Pois é. Eu morava no corredor da Vitória, bem em frente ao Museu Costa Pinto, e às minhas festas compareciam sempre pessoas ligadas às artes como Vinicius de Moraes,  João Gilberto, e até mesmo Janis Joplin, que era amiga de minha filha Judy. Porém quando ela veio para a Bahia para ficar em minha casa eu estava no Rio de Janeiro e não nos vimos pessoalmente. Janis Joplin foi lá para minha casa, mas a imprensa começou a persegui-la...


SM – ... inclusive eu que havia sido contratado pela revista Veja, como free-lancer, para fazer a cobertura de Janis Joplin, na Bahia, juntamente com outro jornalista, o Ivan Leão, e não conseguimos nada. Quando chegávamos a um local ela já havia saído e ficamos apenas com as sobras, resgatando e descrevendo o que ela havia feito. Estávamos sempre chegando atrasado...

NILDA – ... você também a perseguiu não é? Aí levaram-na para a casa de Luis Fernando Martins, que ficava na Paciência, no Rio Vermelho...

SM – Eu também morava lá, no bairro dos artista...

NILDA – É mesmo, o Rio Vermelho era o bairro do artistas...Janis Joplin foi levada então para a casa de Luis Fernando Martins, um pintor que hoje mora na Espanha e tem uma casa em Abrantes. Assim ela passou por lá, mas não ficou hospedada em minha casa e depois da casa de Luis Fernando foi para Arembepe.


SM – Entre as pessoas que você ajudou, tem algum nome famoso?

NILDA – Muita gente, mas tem um caso curioso e que já posso revelar porque já não é mais segredo, pois tanto ela quanto o irmão já contaram o episódio, ou seja o fato de ter sido eu a ter feito os contatos para que Bethânia substituísse Nara Lerão, que estava doente,  no show “Opinião”.  Um dia estava em casa e o Vianinha, o  Oduvaldo Viana Filho,  me telefonou perguntando se conhecia uma moça chamada Maria Bethânia e eu disse que conhecia e que ela estaria indo imediatamente para o Rio para substituir a Nara. Garanti que Bethânia podia ir e fui falar com D. Canô (que amanhã, dia 16/09 está completando 97 anos), mas ela criou alguns obstáculos no início dizendo que  “ela era de menor,  tinha apenas 17 anos e ainda tinha perdido matemática”. Depois de muita conversa ela aceitou desde que Caetano a acompanhasse. Ainda tive que comprar as passagens dos dois e a minha, a prazo, nas mãos de Fernando Conde, dono da agência Conde Turismo. Depois telefonei para Vianinha e disse que Bethânia ia acompanhada de Caetano, solicitando também que ele incluísse algumas músicas dele no show, no que fui atendida. Fui assistir a estréia de Bethânia e tudo foi um sucesso.


SM – Para finalizar, Nilda, que conselho você pode dar às pessoas para que elas tenham a sua força, determinação e alegria?

NILDA – O conselho que dou é que as pessoas façam o que  tiver vontade, no bom sentido. Além disso, só tenho a agradecer a todos, pois todo mundo aqui na Bahia sempre foi muito

carinhoso comigo.



OPINIÕES SOBRE NILDA SPENCER


Por ocasião das comemorações dos 40 anos de Teatro de Nilda Spencer, que coincide também com os 40 anos de fundação da Escola de Teatro da UFBA, a Secretaria da Cultura publicou um folheto no qual reúne várias opiniões sobre a importância do trabalho desta atriz para a solidificação do teatro na Bahia. Eis abaixo algumas opiniões:


Ewald Hackler: “Nilda faz parte daquele clube muito seleto dos atores realmente grandes – aqueles que sabem voar. Ela traduz a mais vaga sugestão do diretor numa ação teatral, inspirada e precisa. Ela é única”.


Harildo Déda: “Nilda Spencer é o que os americanos chamam de “Old Trooper” aquela que está sempre lá ao seu lado, pronta sempre a lhe ajudar, trabalhando sempre com um sorriso e, ao mesmo tempo, com a qualidade de estrela que engrandece com seu brilho a quem trabalha com ela”.


Deolindo Checcucci: “O talento de Nilda tem se consolidado nos palcos, assim como na vida, com uma alegria contagiante para todos os que têm a felicidade de tê-la como amiga”.


Ildásio Tavares: “Ninguém é insubstituível no teatro baiano, exceto Nilda Spencer – seu talento, seu caráter e acima de tudo, o carinho que dedicou a tudo e a todos fazem-na uma personalidade – insubstituível – de nossa cultura, da Bahia, que tão bem ela representa.”


Paulo Atto: “Ensinar pelo exemplo através de sua trajetória é uma das maiores qualidades da nossa Nilda Spencer, na qual vemos o prazer da entrega a um oficio tão duro e belo, que teceu e tece com sua presença nos palcos uma parte importante da nossa memória cultural, na qual a ética e a estética estão irmanadas numa criatura ímpar. Nilda é mais um presente de Dionísio para a terra de todos os santos”.


Márcio Meirelles: “Nilda, quantos personagens à sua procura... quantos autores... diretores, atores, atrizes... quantos cenários e figurinos e canções... quanto prazer e quanta beleza dependendo de você. Nos palcos desta vida, onde reinas absoluta”.


Eduardo Cabús: “Tímida, alegre, cheia de vida – características de uma atriz de grande talento”.


Guilherme Simões: “Tudo é quase óbvio: em ambos os palcos, no da vida e no do teatro, Nilda só é alegria, carinho, amiga de fé, caráter, um se dar interminável para que as coisas aconteçam bem. Por isso falar da neta de D. Mariquinha Cézar é exaltar o óbvio ou “antes disso, depois disso, diante disso tudo existe o amor que, como a lua, resiste a todos os poemas e abençoa todos os pântanos...”.