Salvador

A CINTURA DE SALVADOR E A MACARRONADA DE VIADUTOS, p WALDECK ORNELAS

Waldeck Ornélas é especialista em Planejamento Urbano-regional e autor dos livros “Cidades e Municípios: gestão e planejamento” e “Bahia Urgências do Presente”.
Waldeck Ornelas , Salvador | 11/08/2026 às 10:39
A macarronada
Foto: DIV

Este trecho da cidade tornou-se um exemplo pronto e acabado do mau que o automóvel pode fazer a uma cidade. E pensar que essa área era, no plano do Escritório do Plano de Urbanismo de Salvador (Epucs), parte do park-way do Camaragibe!

Elo de ligação entre o Acesso Norte – marco final da BR-324 – e a Avenida Luís Viana Filho (Paralela), o trecho inicial da avenida Antônio Carlos Magalhães (ACM) tornou-se uma espécie de limite da penetração urbana das autopistas rodoviárias na cidade peninsular que é Salvador. É como se o sistema rodoviário desse ali uma meia volta, para respeitar a integridade da velha cidade de Tomé de Souza. Não sem razão, o Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU) 2016 definiu como Macroárea de Integração Metropolitana todo o entorno do “u” formado por essas vias.

Com efeito, trata-se, de um lado, de uma autopista rodoviária com três faixas de tráfego em cada sentido e, do outro, da única via expressa da Cidade. Deformado, o elo de ligação terminou assumindo a mesma característica rodoviária e perdeu a sua natureza urbana, conformando o que chamo de cintura da Cidade: o elo de ligação funciona como um cinto.

A descaracterização do elo de ligação começou com os arranjos para articulação do Acesso Norte, uma obra federal. Teve continuidade com outra intervenção federal, a Via Expressa Baía de Todos os Santos – canal de tráfego exclusivo para veículos de carga a caminho do Porto – que o projeto da Ponte Salvador-Itaparica quer extinguir, embora vá trazer mais caminhões, além de criar novo fluxo de carga, agora também no sentido oposto. A presença do metrô foi outra variável interveniente, restando ao rio Camaragibe encolher-se em um canal de concreto.

Desapareceu a “rótula do abacaxi”, substituída por uma macarronada de viadutos, que cruzam uns sobre os outros, até criar uma estrutura viária de três níveis. Com o tempo, o mesmo repetiu-se na região do Iguatemi. De permeio, uma linha elevada do metrô, com uma estação chamada Detran – autarquia estadual que já não funciona mais nas vizinhanças – engurupitada no elevado. Entre essas estruturas, o rio Camaragibe buscando manter-se vivo.

São sete faixas de tráfego no sentido BR-Paralela e outras cinco no sentido inverso. Um verdadeiro carroduto. Área terrivelmente hostil ao pedestre, nenhum cidadão se atreve a fazer a tentativa de percorrê-la de uma extremidade à outra. Nada de mobilidade ativa.

Este trecho da cidade tornou-se um exemplo pronto e acabado do mau que o automóvel pode fazer a uma cidade. E pensar que essa área era, no plano do Escritório do Plano de Urbanismo de Salvador (Epucs), parte do park-way do Camaragibe!

Fato é que esse trecho da Avenida ACM desconfigurou-se por completo. Da justa homenagem a Antonio Carlos Magalhães – prefeito que implantou o sistema de “avenidas de vale” – resta apenas, digno do nome, o trecho da avenida que vai do Parque da Cidade em direção à orla, uma vez que o trecho intermediário, do Iguatemi ao Parque da Cidade, também recebeu um elevado que, na prática, prolonga a av. Luís Viana Filho.

O uso residencial da gleba formada pelos extensos lotes da antiga rodoviária e do Detran, aventado pelo Governo do Estado – proprietário da área – é, sem dúvida, adequado, desde que reserve o piso térreo, e até mais um ou dois pavimentos, para atividades comerciais, com obrigatoriedade para lojas de rua. Trata-se de oportunidade ímpar para redesenhar o perfil urbano e funcional da área. Para isto, o ideal seria a realização de um concurso internacional de arquitetura, coordenado pelo Instituto dos Arquitetos. 

Mas era só um sonho, que começou a se desfazer com a definição governamental de que a antiga sede do Detran será destinada a abrigar a Embasa, a companhia estadual de saneamento básico. Porque não levar a Embasa para a Bolandeira, aproveitando área ociosa que já pertence à própria empresa, além de resgatar e valorizar a história dos serviços de abastecimento da água da cidade? Ainda dá tempo de repensar. 

Para mitigar tudo isto, não seria demais desejar uma rua de pedestres, com ciclovia acoplada, no trecho da Avenida ACM, entre as antigas rótula do abacaxi (no entroncamento do Acesso Norte) e a Praça Newton Rique, na região do Iguatemi, como concessão à mobilidade ativa e respeito ao cidadão.