Waldeck Ornélas é especialista em planejamento urbano-regional. Autor de Cidades e Municípios: gestão e planejamento.
Waldeck Ornelas , Salvador |
13/07/2026 às 12:47
Fecomércio deveria ser o símbolo da centralidade
Foto: SESC
Nos aglomerados urbanos em geral, a zona central constitui uma vitrine e reflete a dinâmica da cidade. Em centros urbanos de maior porte, principalmente nas metrópoles, as centralidades costumam ser várias e até hierarquizadas.
No caso de Salvador, se o Centro Histórico é um centro excêntrico, como observou Milton Santos, o 2º Centro – localizado na região do Iguatemi – é, por excelência, um centro bem centralizado, do ponto de vista geográfico. O paradoxo é que, enquanto o Centro Histórico prevaleceu durante mais de quatrocentos anos, o Centro Iguatemi encontra-se decadente e em crise, apenas cinquenta anos decorridos do início de sua estruturação.
Nos aglomerados urbanos em geral, a zona central constitui uma vitrine e reflete a dinâmica da cidade. Em centros urbanos de maior porte, principalmente nas metrópoles, as centralidades costumam ser várias e até hierarquizadas.
No caso de Salvador, se o Centro Histórico é um centro excêntrico, como observou Milton Santos, o 2º Centro – localizado na região do Iguatemi – é, por excelência, um centro bem centralizado, do ponto de vista geográfico. O paradoxo é que, enquanto o Centro Histórico prevaleceu durante mais de quatrocentos anos, o Centro Iguatemi encontra-se decadente e em crise, apenas cinquenta anos decorridos do início de sua estruturação.
Em parte, reflexo da crise econômica que assola a cidade, a centralidade metropolitana do Iguatemi é, sobretudo, vítima da falta de adequado tratamento urbanístico da área.
É interessante observar que, espontaneamente, a Centralidade Iguatemi tornou-se um grande centro empresarial, envolve escritórios e serviços profissionais, acolhe entidades empresariais, sedia órgãos e empresas de serviços públicos, é polo hoteleiro e núcleo residencial, tratando-se, portanto, de área onde predomina a moderna recomendação pela mescla de usos. Nem por isto, tornou-se um bairro atrativo para a Cidade.
Dentre os principais problemas, falta-lhe unidade e identidade, é uma área de passagem de tráfego, muito hostil ao pedestre, não conta com praças, espaços abertos e áreas verdes e apresenta dificuldades para o comércio de rua.
Estendendo-se do Shopping da Bahia ao Costa Azul, expande-se também pela avenida Magalhães Neto. É, sem dúvida, o principal distrito de negócios de Salvador. Marcado, no entanto, por intensa desarticulação interna, sequer se integra com a nova área de desenvolvimento imobiliário do Caminho das Árvores (ou será Caminho dos Prédios?), bairro a que pertencem. Situadas em patamares distintos, não há uma ligação peatonal entre a área residencial do Caminho das Árvores e a zona comercial da avenida Tancredo Neves, no mesmo bairro. Mais propriamente, aquela se reporta ao comércio de luxo da Alameda das Espatódias.
A Casa do Comércio, sede da correspondente federação empresarial, é que deveria ser o símbolo da Centralidade. Sua arquitetura empresta a imagem de vanguarda que a área requer. Mas não é o que se observa, já contracenando com instalações provisórias, do tipo arquitetura efêmera. Dessa forma, o 2º Centro rapidamente alcançou o apogeu, entrando em crise logo em seguida.
Município de economia reconhecidamente frágil, Salvador precisa cuidar para que sua principal centralidade seja pujante, dinâmica, moderna, para o que é indispensável tornar-se acolhedora para os habitantes da cidade. Isto somente será conseguido com a requalificação urbana da área.
Impõe-se o redesenho do acesso aos pedestres – trabalhadores e consumidores – por toda a região, além de atender aos moradores locais. Não é o que se tem visto. Ao contrário, cerca de uma dezena de obras viárias realizadas ao longo dos anos, buscou sempre disponibilizar novas faixas de tráfego para o automóvel, sem resultados concretos para os problemas de trânsito que pretendiam equacionar.
Para agravar o cenário, a Centralidade Iguatemi não foi preparada para a saída da estação rodoviária intermunicipal, retirando-lhe a movimentação de 14 milhões de pessoas por ano, com graves reflexos para a função comercial. E nem por isto os problemas de trânsito arrefeceram...
Se bem que o PDDU 2016 já tenha previsto um terceiro centro, também de nível metropolitano, ora em formação na região de Águas Claras, a sua função não é suceder à Centralidade Iguatemi, mas atender à necessidade da estrutura urbana da metrópole soteropolitana.
Urge, portanto, não apenas um olhar urbanístico para o Iguatemi, mas também aprender as lições da sua insustentabilidade, para não as repetir em Águas Claras. A solução é planejamento urbano.