sexta-feira, 24 de setembro de 2021
Colunistas / Literatura
Rosa de Lima

ROSA DE LIMA INTERPRETA LIVRO A MENINA DA MONTANHA, DE TARA WESTOVER

Livro foi eleito pela Amazon como o melhor do ano 2018
07/05/2021 às 09:54
   Um livro que narra a trajetória real de uma norteamericana que alisou os bancos escolares pela primeira vez aos 17 anos de idade, educada seguindo os tradicionais preceitos da doutrina Mórmon - no Brasil conhecida como 'Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias' - e que conquistou o doutorado em Cambridge, Reino Unido, mesmo contra a vontade do pai, um sucateiro e construtor de celeiros em Idaho que vivia numa comunidade próxima a uma cordilheira aos pés da Buck's Peak, que chamava de Montanha Catedral ou Princesa Índia. 

  A história é chocante, até apavorante, e narrada em primeira pessoa pela historiadora Tara Westover. O book intitula-se "A Menina da Montanha" (Editora Rocco, tradução de Angela Lobo de Andrade, 335 páginas, 2018, R$45,00, venda pela internet) e essa doutora em história não mede as palavras para descrever a sua própria história e de sua familia, embora, a autora use pseudônimos para tratar dos seus possíveis familiares e não considera que seu trabalho fale do mormonismo ou de qualquer outra convicção religiosa.

  O que Tara põe nas páginas do seu livro são descrições comportamentais de uma família mórmon comandada por um pai extremamente radical no sentido de seguir os preceitos desta religião, que muitos consideram uma seita, sem entrar no julgamento de valores do mormonismo, pois, não trata em sí dessa cultura. 

  Apenas expõe aspectos ou situações de uma familia, de uma comunidade onde se misturam citadinos e rurais, pessoas não religiosas, umas boas e outras más. Tara, no entanto, não faz julgamentos. Deixa que o leitor assuma essa postura e que faça o seu julgamento ou a compreensão do texto.

  Para tanto, aí sim, a autora entra em detalhes da vida comunitária desta familia, a mãe parteira e farmacêutica prática fabricante de ervas tidas como medicinais até para a cura da alma - assim entendia o patriarca - e a dureza que se impunha a vida, no dia-a-dia, o pai comandando o ferro-velho que dava sustento financeiro à familia com mão de ferro, obrigando os filhos a trabalharem duro desde cedo empilhando sucatas, cortando peças com maçarico e erguendo celeiros. 

   É nesse contexto, o pai colocando um Deus salvídico à frente da medicina, da educação, de princípios éticos e humanos, que ele cria os filhos longe das escolas e dos hospitais. 

  Aos poucos, na adolescência, alguns dos irmãos de Tara vão à escola e ela própria chega a uma escola formal (foi alfabetizada em casa) aos 17 anos de idade e vai observando, que mesmo na comunidade Mórmon, o radicalismo imposto por seu pai e seguido por sua mãe, era flexível e as pessoas estavam enxergando o mundo e vivendo de outra maneira.

   É difícil para a personagem Tara conviver com esse novo mundo, adaptar-se a ele, com uso de roupas mais descontraidas, costumes alimentares diferenciados, amizades, namoros, amores, na formação de sua personalidade, do seu ego.

   Tudo bem diferenciado daquele administrado por seu pai, aceito passivamente por sua mãe (a qual se mantém apegada à filha mesmo diante de suas mudanças comportamentais), praticado por seu irmão primogênito (seguidor fiel do pai) até a sua libertação.

  Uma trajetória complexa de Tara, a qual estudou numa Universidade Mórmon (BYU), a amizade e proteção de um pastor dessa academia, o qual ao conhecer a realidade cruel em que vivia a jovem, a ajuda a conquistar uma bolsa de estudos no Reino Unido e ela chega a Universidade de Cambridge. 

   Um salto enorme em sua vida, sem, contudo, dissociar-se dos dramas familiares, convivendo com eles em viagens sucessivas entre os dois países tentanto, com isso, entender de forma mais profunda a familia e o seu próprio eu.

  Com o aprofundar dos estudos em Cambridge, ao cursar a matéria psicologia descobriu a real face do pai - transtorno bipolar e esquizofrenia - e escreve para a mãe falando do problema passando um filme em sua cabeça com a narrativa regressiva de tudo o que sofreu e ainda sofria, a familia diante do comportamento severo e com níveis de alternância bipolarizadas do pai, uma hora com apego e amor extremo à familia; e outros momentos com explosões de raiva, castigo e agressões com os filhos e a esposa.

   Diz a autora: "Mamãe passou o dia inteiro ponderando. E decidiu que precisava ouvir minhas palavras diretamente. Era fim de tarde em Idaho, quase meia noite na Inglaterra, quando minha mãe, sem saber dar um telefonema internacional, me contactou via internet. As palavras eram pequenas, confinadas a uma janelinha do texto no canto de minha tela, mas pareciam engolir meu quarto. Disse que tinha lido minha carta. Me preparei para a raiva dela".

  - É doloroso encarar a realidade - ela escreveu. - Perceber que havia uma coisa feia, e eu me recusei a enxergar.

  - Não se culpe - eu disse a ela. Acho que papai não vai acreditar em nada disso, digitei.

  - Vai sim. Mas é difícil para ele. Lembrar a ele os danos que a bipolaridade dele causou a nossa familia.

   Após ouvir isso da mãe, a admissão de que o marido poderia ser um doente mental, Tara chega a conclusão de que sua mãe atingira o estágio de libertação e tinha parado de fugir do medo.

   Há, no decorrer da narrativa, um acidente grave com o patriarca, a sua cura quase milagrosa com os medicamentos caseiros de sua mãe, no entender dele, uma salvação operada por Deus dentro das práticas filosóficas mórmons, a volta de Tara para cursar Harvard e o encontro com os pais na Universidade.

   Ponto de inflexão importante no livro uma vez que, Tara encontra-se com os pais, os abriga em seu apartamento, e nota que a mãe mudara de comportamento, já sabia do seu papel relevante como mulher na sociedade e entendia a doença mental do marido, porém, continuava ainda agregada e submissa a ele, e o patriarca se mantinha mais flexível (talvez pela idade, pelo envelhecimento), porém, sua cabeça continuava a mesma.

   O livro, eleito como o melhor do ano pela Amazon, em 2018, no original em inglês com o titulo 'Educated', no fundo revala um caso de superação de uma garota que mesmo com todas as adversidades familiares, a começar pelo estudo em casa e não na escola (homeschooling), a exigência do paí para que trabalhasse no ferro-velho, vivesse aos pés da montanha sem nunca sair de Idaho, arranjasse um namorado, se cassasse e fosse apenas uma dona de casa submissa ao esposo, tem o contraponto da rebeldia e da compreensão da mulher na sociedade contemporânea.

   Tara rompe esses grilhões, as correntes que a prendiam a Princesa Índia (a montanha) - ainda que amasse o local - conquista um doutorado em Cambridge e vai interpretar o papel contemporâneo da mulher na sociedade. 

  E, de quebra, ao menos, consegue fazer com sua mãe, uma mulher extremamente sofredora, com sua psique enjaulada, entenda que muito do que sofreu (ela e os filhos) era em decorrência de transtornos mentais do pai, tido como normal e temente a Deus.