segunda-feira, 21 de junho de 2021
Colunistas / Literatura
Rosa de Lima

ROSA DE LIMA COMENTA LIVRO LAURENTINA FERREIRA DE JOSÉ CABRAL FERREIRA

José Cabral Ferreira é administrador
04/03/2021 às 20:41
    O comentário Literário desta semana é sobre uma produção local (da Bahia) de um autor amador da literatura. Eu admiro esse tipo de publicação porque esses autores escrevem sobre os pedacinhos da vida de uma familia, de uma localidade, de um sitio histórico, de um monumento ou de um outros aspectos de uma comunidade e forma no conjunto a história do Estado, a história do país.

   Muitos desses temas que ficam no anonimato se perdem nas brumas do passado, às vezes se limitam a lembranças orais de uma localidade entre pessoas de uma mesma familia, daí a importância de revela-los para que um público maior tome conhecimento e os órgãos de estudos e pesquisas acolham esses escritos documentais para que se perpetuem na memória do estado e do país.

    É o que produziu o administrador de empresas e também do segmento público, ex-secretário de Administração da Prefeitura de Salvador, José Cabral Ferreira, com o livro "Laurentina Ferreira - saga de uma educadora e memórias afetivas" (Editora Lisbon Internacional Press, 193 páginas, à venda no portal da editora) que narra a trajetória de sua avó uma educadora autodidata que manteve um Curso Particular em Amargosa, no Recôncavo da Bahia, e qualificava as crianças para enfrentar o temido exame de admissão ao ginásio, um pré-vestibular do ensino médio.

   Uma história (pedacinho da vida) que estava restrita a familia Ferreira e alguns meios culturais de Amargosa e que agora passa ao domínio público, se insere nos catálogos das bibliotecas, e se torna de conhecimento mais amplo. E, no bojo de narrar a saga de Laurentina, o autor vai puxando o fio da meada e coloca no contexto o Sr Deoclécio, marido da professora, um sapateiro pioneiro em Amargosa na comercialização e industrialização de sapatos, atividade que foi passando de pai para filho, o último a se manter nessa labuta, justamente o pai de Cabral, Vavá.

    Como ficar sabendo de uma história dessas e que abrange uma imensa familia - os Ferreira, de Amargosa - se não houvesse a dedicação de José Cabral - fora de sua atividade laboral profissional - em colocar esse pedacinho da vida no papel, em livro? Daí a importância desse tipo de publicação para a literatura brasileira.

    Laurentina é uma dessas brasis lutadoras, educadora nata, no estilo tradicional que dirigia seu Curso Particular numa área de sua residência com uma metodologia própria supervisionada pelos órgãos oficiais onde o ensino, o rigor na qualidade do aprendizado era a norma principal e ainda se usava a palmatória e outros castigos próprios da época (anos 1950/1960) - o ficar em pé de frente para uma parede, o ajoelhar-se em grãos de milho. O próprio Cabral, o qual viveu parte de sua infância e adolescência mais na casa dos avós do que dos pais foi aluno de Laurentina e atribui a sua sólida formação educacional a ela.

   O livro situa o Curso Particular dentro do contexto de época da cidade de Amargosa, a cidade jardim do Recôncavo, o modo de vida dessa comunidade de modistas e costureiras, de pequenos empreendedores, de artistas, educadores, de músicos, de sapateiros e lembra que seu pai Vavá e a oficina do seu avô Deoclécio produziram as botas dos jagunços do filme "O Dragão da Maldade e o Santo Guerreiro" por encomenda do próprio Glauber. Época em que um sapateiro era chamado de mestre e a indústria de calçados com seus prorudos sintéticos ainda não havia se espalhado pelo interior do país. Os sapatos eram produções locais, de couro, feitos a mão, artesanais ou semi-industrializados, pois, haviam as máquinas de costura a pedal.

   Cabral também coloca seus parentes - filhos de Laurentina e Deoclécio, netos, amigos - para escreverem depoimentos pessoais sobre o casal, mais até sobre o Curso Particular. Diria que, um dos mais emocionantes é o escrito por Juçara Cabral - neta, filha de Vavá e Zilda Cabral, a caçula - a qual não chegou a ser aluna da avó mas acompanhava seu pais, diariamente, na benção do dia, "tarde e noite, pois morávamos na mesma rua, hábito esse que me intrigava, pois com meus sete ou oito anos, achava uma forma muito respeitosa, uma obrigação inconscientemente incorporada por meu pai e, ao mesmo tempo, bonita de ver, pois minha avó nos esperava toda arrumadinha, com sua água de cheiro (lavanda predileta)".

   Há, ainda, o depoimento de Nilson José - filho do casal - ex-vereador histórico de Salvador que diz: "Prestes a completar 90 anos, me transporto no tempo para o ano de 1945 e, com esforço para recuperar as lágrimas e o embargo da voz, começo a recordar fatos da vida de menino de 15 anos que, então morava com seus país Deoclécio e Laureitina e com seus irmãos Vá (Vavá), Dalva, Arany, Dilce, Dete e Sylvio, na cidade de Amargosa e que resolveu viver a "aventura" da cidade grande". Diz Nilton: "Mamãe apesar de não ser professora diplomada era extremamente preparada" e marcou época em Amargosa.

  Em memórias afetivas Cabral mostra no livro com fotos uma propriedade rural que adquiriu em Amrgosa, 60 tarefeas, que chama a Fazeda Três Meninas onde guarda todos os objetos que foram da familia (da casa dos seus avós) o mobiliário, quadros, peças da sapataria, onde curte momentos de lazer com a familia e lembra com ponta de saudosismo o tempo que também alisou os bancos escolares do Curso Particular.

   Laurentina Ferreira - a saga de uma educadora e memórias afetivas - é um livro simbólico e um pedacinho do Brasil a ser sempre preservado e lembrado. Cabral admite que gostou da ideia de escrever o livros depois de muito pensar e dos apelos que recebeu, especialmente de sua esposa Nice. Gostou da ideia e do resultado tanto que vai escrever outro livro.