sexta-feira, 24 de setembro de 2021
Colunistas / Literatura
Rosa de Lima

ROSA DE LIMA COMENTA CONTOS DE IMAGINAÇÃO E MISTÉRIO, EDGARD ALLAN POE

Uma seleta de 21 dos melhores contos de terror do mago criador desse estilo com ilustrações de Harry Clarke
29/01/2021 às 11:49
  É gratificante apreciar a poesia de Edgard Allan Poe. E mais sugestivo ainda é admirar os seus contos com narrativas dramáticas e de terror com uma linguagem até hoje insuperável. Esse escritor norte-americanos do século XIX criador do conto macabro, do gênero envolvendo o suspense, a morte, o funesto, o sangue, pescoços degolados, até hoje consegue ser quase único em narrativas dessa natureza porque tem um estilo tão pessoal e erudito dificil de ser imitado ainda que existam bons contistas nesse mesmo gênero. Embora - ressalte-se - não iguais ou com a mesma verve de Poe. 

  Seu livro "Contos de Imaginação e Mistério" (Editora Tordesilhas, ilustrações de Harry Clarke, prefácio de Charles Baudelaire, tradução de Cássio de Arantes Leite, 2018, R$55,00 pela internet, 421 págiNas) reúne algumas das suas preciosidades, entre elas, as mais destacadas em nossa opinião "O poço e o pêndulo", "O gato preto", "Uma descida no Maleströn", "Ligeia", "A queda da casa de Usher" e "Os assassinos da rua Morgue". Os outros contos - num total de 21 - são todos muitos bons, criativos, embora alguns como "O escaravelho de ouro" canse o leitor com suas fórmulas e simbolos. Mas, há quem adore esse tipo de narrativa e Poe é um mestre nesse campo da simbologia, do esoterismo numérico.

  No nosso entendimento, dessa coletânea de contos de Poe o que me chamou mais a atenção pela dificuldade que é escrever sobre esse tema e a forma como detalha e conceitua é a narrativa sobre "Uma descida no Maelström" um redemoinho de águas que fica localizado na Noruega chamado turbilhão de Maelström num lugar remoto onde existem as ilhas Vurugh, Moskoe, Ambaaren, Iflesen, Hoeyholm, Kiedholm, Suareven e Buckholm. Descreve a narrativa que lhe fez um velho pescador (Nós, os noruegueses o chamamos de Moskoe-strmöm, por causa da ilha de Moskoe, ali no meio) diz o velho.

  O conto é fantástico. Não tenho certeza se Poe tenha ido algum dia a Noruega para conhecer, ao mesmo, esse fenômeno da natureza. Isso, aliás, é o que menos importa. Dante nunca foi ao inferno e legou-nos "A Divida Comédia" e Shakespear também nunca andou pelo reino da Dinamarca para escrever sobre o rei Lear.

  Um trechinho do Maesltöm: "Nosso primeiro deslize para o interior do próprio abismo, apois o cinturão de espuma acima, carregara-nos uma grande distância pela vertente; mas nossa ulterior descida não foi de modo algum proporcional. Giramos e giramos impetuosamente - não como qualquer tipo de movimento uniforme - mas com oscilações e solavancos vertiginosos que nos faziam por vezes avançar apenas algumas centenas de pés - por vezes quase cumprindo o circuito completo do torvelinho. Nosso progresso para baixo, a cada evolução, era lento, mas muito perceptível".

  É de uma sutiliza atroz essa descrição de Poe e vai levando o leitor consigo, abraçando seu texto, se envolvendo no torvelinho doido para saber o que vai acontecer com o velho pescador mesmo sabendo que se estava a narrar o 'storm' vivo se encontrava.

  Mas, ao leitor, dá-se impressão de que morreria tragado pelas águas. No entanto, finda o conto dizendo que um bote recolheu o velho exausto de fadiga (e agora que o perigo se fora) emudecido com as lembranças dos seus horrores "contei-lhes minha história (aos que o salvaram) e não acreditaram. Agora, eu conto ao senhor - e dificilmente posso esperar que dê a ela mais crédito do que o fizeram os alegres pescadores de Lofoden".

  O livro é também uma obra de arte (formato um pouco maior do que o normal dos livros 18.5cmx24cm) com ilustrações do irlandes Harry Clarke (1889/1931), umm mestre no bico da pena com um traço forte, originalissimo (com influência da arte do Bizâncio) e com figuras que parecem sair do outro mundo, ele que também foi ilustrador de obras de Hans Christian Andersen (dos clássicos da literatura infantil 'O Patinho Feio' e 'O Soldadinho de Chumbo'), Johann Wolfgang von Goethe e Alexander Pope. 

  Cada conto tem uma ilustração de Harry Clarke e o leitor se depara com uma obra de arte de alto nível a cada narrativa, o que permite uma contemplação e um maior entendimento das narrativas e de como a arte integada com a literatuta. Uma dupla perfeita ainda que um fosse norte-americano de Boston e o outro morasse e vivesse na Europa fria de Dublin. O que demonostra que a arte e a literatura não têm fronteiras e se mesclam e se interagem.

  Em 'Leonizando', Poe curte com a linguagem erudita: "Sou - quer dizer, fui - um grande homem, mas não sou nem o autor de Juniur, nem o homem da máscara, pois meu nome é John Schmidt, e nasci em algum lugar da cidade de Fun-Fudge. O primeiro ato de minha vida foi segurar o nariz com as duas mãos. Minha mãe presenciou isso e me chamou de gênio; meu pai chorou de alegria. e comproou-me um trabalho de Nosologia. Antes de usar calças compridas eu não só dominava o tratado como também coligira num caderno de apontamentos e citações tudo quanto é dito a respeito do tema por Plínio, Aristóteles, Alexandre Ross, Minutius Felix, Harmanus Pictorius, Del Rio, Villarêt, Bartholimus e Sir Thomas Browne".

  Assim é Poe. Erudito, sofisticado em linguagem, fantástico, criuel, simples em narrativas diretas na exposição do sangue, admirável contista e poeta, ótimo para ser lido e admirado. "Contos de Imaginação e Mistério" são um retrato em preto e branco desse gênio da manipulação das palavras com a fusão da arte de Harry Clarke, de figuras que parecem surgem do oco da terra.