segunda-feira, 21 de junho de 2021
Colunistas / Literatura
Rosa de Lima

ROSA DE LIMA COMENTA O LIVRO ABI 90 ANOS POR NELSON VARÓN CADENA

Documento valioso que contra história da Associação Baiana de Imprensa em todos os seus movimentos
10/12/2020 às 10:25
Fico feliz toda vez que chega as minhas mãos e leitura de uma obra sobre a memória da imprensa brasileira ainda mais quando esse trabalho é voltado para a imprensa baiana tão carente desses estudos e projetos. 

  Saber, também, que o comentário que farei hoje é sobre os 90 anos da Associação Baiana de Imprensa uma entidade quase centenária, das mais antigas do gênero no país e que atravessou todo esse período da nossa história entre 1930/2020 enfrentando duas ditaduras militares - a do caudilho Getúlio Vargas e a dos generais capitaneada inicialmente pelo marechal Castelo Branco - as fases das redemocratizações com atitudes em altos e baixos, é verdade, mas sem perder seu objetivo que é a defesa da imprensa livre e soberana.

  Falo do livro de Nelson Varón Cadena intitulado A.B.I. 90 anos (EGBA, 165 páginas, formato 26cmx21cm, 600 livros, design de Mauro YBarros, miolo em papel offset 120g) um documento valioso no estilo livro de arte, bem produzido, com conteúdo primoroso, muitas fotografias antigas e novas de momentos da história da instituição, a história em si bem documentada e escrita de forma jornalística fácil de ler e entender na pena de Varón Cadena, colombiano de origem e baiano de adoção que tem nos brindado com várias obras sobre a memória baiana, em livros e em sua coluna no Correio.

  A.B.I. - 90 anos traz de maneira resumida todos os acontecimentos da vida desta instituição desde sua fundação pelo abnegado Thales de Freitas, que além de jornalista era farmacêutico, do intrépido Altamirando Requião, primeiro presidente da associação, destemido, também escritor - poeta e cronista - e todos aqueles que, em 17 de agosto de 1930, em reunião na Associação Tipográfica da Bahia, que funcionava num sobrado da Rua do Saldanha, centro histórico, fundaram a entidade. 

   A trajetória da ABI é assim contada por Cadena em detalhes falando das ações das diretorias e dos seus presidentes no enfrentamento das ditaduras e das prisões e perseguições a jornalistas, os conchavos com os governadores de plantão que eram os interlocutores dos ditadores, depois, a partir de 1964, o diálogo (ou o não diálogo) com os generais comandantes das VI Região Militar sediada em Salvador, a abordagem na capital e no interior, o que é um dado precioso visto que muitos jornalistas foram presos no interior do estado e essa memória é ressaltada e relembrada.

  E também abordando aqueles que foram servidores da Casa do Jornalista, os serventes, motoristas, as secretárias - em especial, Zuleide Silveira - personalidades histórias da literatura e da política que integraram a associação - Jorge Amado, Cosme de Farias, Antonio Balbino, Luis Viana Filho, João Ubaldo Ribeiro  e outros.

  Cadena mostra que ABI não foi um clube do Bolinha e as mulheres participaram de sua vida e do jornalismo baiano, com sua primeira associada (1932) Stella Baltazer da Silveira. Em 1933, a adesão de Guiomar Carvalho Florence, e ainda naquela década, Jusmerina de Souza Poções e Maria de Junqueira Calazanes Lima (1938). E, na década de 1940, Hildegardes Vianna, Zilah Moreira (1949) e as freitas Maria de São Inácio Batalha (Convento das Mercês, 1943) e Elny de Sá Barrêto Sampaio (Convento de São Francisco, 1943). São muitas as mulheres na vida da entidade

  E mais, a luta e o amor à Casa de todos os presidentes - Altamirando Requião, Ranulfo Oliveira, Jorge Calmon, Afonso Maciel Neto, Samuel Celestino e Walter Pinheiro - os presidentes da Assembleia Geral - Ranulto Oliveira, Altamirando Requião, Aloísio de Castro, Antonio Balbino, Odorico Tavares, João Falcão, Luis Viana Neto, José Curvelo, Jairo Simões, Kleber Pacheco, Jorge Calmon, Sérgio Matos e Samuel Celestino.

  Cadena nos revela todos os acontecimentos em que a ABI esteve presente, participou, interagiu e se mexeu junto a sociedade nas relações com outras entidades, nos movimentos de apoio a democracia, nas relações com o grupo de cineastas da Bahia, com os escritores, com a sociedade de uma forma geral antenada com tudo o que acontecia no Estado. 

  Registrou em detalhes como se deu a luta ao longo dos anos para a construção da sede da entidade e a Casa (Museu) de Ruy Barbosa, como se processou a relação com o Estado e seus governadores, sem necessariamente ficar dependentes deles ou a dever favores em troca de alguma coisa, a atual sede onde durante anos funcionou a Assembleia Legislativa do Estado e foi o centro do Poder Legislativo da Bahia, os seminários, debates, conferências, exposições, a biblioteca museu e o seu valioso acervo.

  É um livro completo sobre os 90 anos da ABI e sua trajetória. Cadena não esconde nada - os deslizes que a Casa deu com momentos das didaturas - nem faz elogios e descrições acima da realidade, com algum ufanismo ou loas. 

  É um livro que traduz a história da ABI como ela se processou, nua e crua, com boas relações com os poderes do Estado, especialmente o Executivo e o Legislativo, mas sem subjulgar-se a eles. 

  Uma ABI autônoma, verdadeira em sua essência, dentro das suas limitações e do que foi possível ser feito em defesa dos jornalistas, em honra aos jornalistas, em amor aos jornalistas.

   Que assim siga sua trajetória sem se tornar uma Casa com interesses políticos ou de qualquer outra natureza participando da vida da Bahia defendendo o jornalismo e os jornalistas.