ter�a-feira, 19 de outubro de 2021
Colunistas / Literatura
Rosa de Lima

ROSA DE LIMA comenta a aula de jornalismo servil em Número Zero de Eco

A veia cômica de Umberto Eco num livro onde é mostrada a arte de ser fazer um jornalismo ao gosto do dono a serviço da manipulação da noticia e das mentes
02/08/2015 às 09:28
   Em entrevista a Ilse Scamparini a correspondente da Rede Globo na Itália e transmitida recentemente pela Globo News, o romancista e acadêmico italiano Umberto Eco advertia para o fato de que os leitores devem entender um autor pelo conjunto de sua obra, ele próprio vitima (se é que a palavra correta seria esta) de sucesso estrondoso com "O Nome da Rosa", romance histórico que o projetou mundialmente e vendeu 30 milhões de exemplares, isso nos anos 1980.

   Fazia a ressalva para mostrar que seu novo livro  "Número Zero", ensaio ficção que se traduz numa aula de paranóia diante da possibilidade de lançamento de um jornal (Amanhã) que nunca será editado, mas, cuja equipe trabalha números zeros com versões fantasiosas ou ao gosto do leitor, integra esse conjunto. Portanto, não queriam fazer comparativos ou julgá-lo menor. Assim se fez expressar em nossa ótica.

   Eco lembrou e citou para Ilse que Gabriel Garcia Marques também sofreu desse 'mal', pois, embora o autor colombiano tivesse produzido uma vasta obra a maioria dos seus leitores e até a midia só se lembra em citações de "Cem Anos de Solidão" o romance do fantástico ambientado em Barranquilla que o levou a ser vencedor do Prêmio Nobel de Literatura. 

   Eco não quis, com isso, minimizar a importância de sua nova obra (Número Zero, Editora Record, tradução de Ivone Benedetti, 208 páginas, R$35,00) até por entender que faz parte de um conjunto e ele ainda está atuando mesmo com 84 anos de idade, em pleno exercício da literatura.

   Mas, é óbvio que 'Zero' - em nossa opinião - fica distante de suas melhores obras "O Nome da Rosa", "O Pêndulo de Foucault" e o "Cemitério de Praga" , no entanto, segue a mesma linha da sequência de pesquisas e análises sobre tramas conspiratórios, "Zero' é mais solto em linguagem, mais ficcional, mais criativo e com a abordagem de um tema atual que é o comportamento da midia na Itália (o que também é uma imagem que se vê no mundo todo), na manipulação, na instrumentalização para ser usada contra inimigos, do jogo de poder que ela enseja.

   E nisso, Eco faz uma narrativa bem pitoresca com personagens que se assemelham aos existentes na vida real, desde o comendador Vimecate (diz-se que inspirado em Silvio Berlusconi), ao diretor e editor-chefe Simei, submisso e engajado, assim como Colonna, seu assistente de direção, e seu corpo de redatores com destaque para Maia Fresia (mulher) e Romano Braggadocio, o jornalista conspirador fantasioso, paranóico, o qual é assassinado para dar fecho ao livro e encerrar a idéia, muito bem pensada, de se criar um jornal que nunca seria publicado.

   Bragadoccio imagina produzir uma série de reportagens mostrando que Benito Mussolini, o ditador italiano, não fora morto antes do final da II Guerra Mundial e tinha fugido para a Argentina.
Um jornal Ideal? Ao gosto do chefe? Ao gosto dos leitores? A serviço da verdade? Nunca se saberá, como a maioria dos jornais e da midia existente no mundo.

    Os exemplos citados por Eco são assemelhados ao que se presencia em qualquer redação ou formatação de um jornal: "Cada um aqui vem de experiências diferentes...e como somos espartanamente poucos, quem sempre trabalhou com anúncios fúnebres talvez precise escreve um editorial...portanto temos que uniformizar a linguagem". Expressão muito ouvida nas redações atuais.

   - Outra ideia, doutor Colonna, é preciso falar a linguagem do leitor, e não dos intelectuais adverte Simei lembrando que o 'Amanhã' seria diferenciado dos jornais tradicionais de hoje que revelam as noticias do dia anterior, as quais ficamos sabemos às 8 da noite pela televisão e até antes pela internet, "contando coisas que a gente já sabe, e é por isso que vendem cada vez menos".

   A imaginação do autor se assemelha ao mundo real quando diz através de um dos seus personagens da redação do 'Amanhã' que "os jornais mentem, os historiadores mentem, a televisão também mente. 
   
   Você não viu nos telejornais há um ano, com a Guerra do Golfo, o pelicano coberto de óleo, agonizando no Golfo Pérsico? Depois foi apurado que naquela estação era impossível haver pelicano no Golfo, e as imagens eram, de oito anos antes, no tempo da Guerra Irã-Iraque".

   Eco tripudia e delicisa os leitores com suas observações pertinentes para formatar o 'Amanhã': "Não são as noticias que fazem o jornal, e sim o jornal que faz as noticias". 

   Sobre um tema corriqueiro nas redações, as cartas dos leitores e os desmentidos,  é preciso "treinarmos para quando chegarem desmentidos de verdade, inventar algumas cartras de leitores seguidas de nossos desmentidos". 
Sábio observador de quem já atuou nas redações e entende as manipulações para agradar aos leitores desde os textos mais criticos - os editorias - aos horóscopos "horóscopo, caramba, ainda bem que me lembrei disso´é a primeira coisa que os nossos leitores irão procurar! Alias, senhorita Fresia, essa é a sua primeira tarefa, leia alguns jornais e revistas que publica horóscopos e extria deles alguns esquemas repetitivos". Claro, ao gosto dos leitores.
   O cerne do 'Amanhã', é o servilismo a interesses politicos escusos, a manobra por meio da distorção intencional para fazer a cabeça dos leitores e é nesse ambiente que Bragadoccio (imagina-se o próprio autor) obececado por teorias conspiratórioas leva ao núcleo editorial relatos fantasisos e criativos dando conta de que o ditador Benito Mussolini (o Duce - o líder italiano do fascismo), não morreu no conflito da II Guerra Mundial e havia fugido para a Argentina, onde viveria incólume e já bastante idoso.

   Uma viagem. Eco passeia pela politica italiana na condição de Bragadoccio, lembra vários episódios recentes e antigos, desde a atuação das Brigadas Vermelhas a era Mussolini, critica - como faz em outros dos seus livros - a igreja e o papa e ilustra como se pode fazer o pior do jornalismo.

   Eco procura tornar o irreal com contornos de real; e o real que se presencia nas redações (cartas manipuladas, editoriais forjados, horóscopos ao gosto de todos) peças de ficção.

   "Número Zero" é inteligente sem pretensioso e exoõe a veia cômica de Eco. Grande autor. Bom de ler.